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Full text of "A mocidade de D. João V"

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OBRAS COMPLETAS 

DE 

LUIZ AUGUSTO EEBELLO DA SILVA 



VIII 



VOLUMES PUBLICADOS 



I — Ráusso por homizio 

II — Odio velho não cança 

III— Odio velho não cança (2. ) 

IV— A Mocidade de D. João V (i.°) 
V— A Mocidade de D. João V (2. ) 

VI— A Mocidade de D. João V (3.°) 
VII - A Mocida4e de D. João V (4. ) 
VIII— A Mocidade de D. João V (5.°) 

XVI— Othello — As rédeas do governo 

XVII — A mocidade de D. João V (drama). 
XVIII — O amor por conquista (comedia) — O 

fante Santo (fragmento). 

XIX— Fastos da Egreja (i.°) 

XX — Fastos da Egreja (2. ) 

XXI— Fastos da Egreja (3.°) 

XXII— Fastos da Egreja (4. ) 



t 4i 



OBRAS COMPUTAS E P/AUGUSTO MULO BA SM 

REVISTAS E METODICAMENTE COORDENADAS 




VIII 



S^NOYELLAS — III 



MN N D. 10 



4.* EDIÇÃO 



"V"OX.XJ3S^E -V 




LISBOA 

Empreza da Historia dk Portugal 

Sociedade editor* 
LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA 
ti. Aii$7ifita, p5 D 45, ívâns, 47 

1908 



A MOCIDADE DE D. JOÃO V 



CAPITULO XXXVI 
Revelações 

Thereza, vendo descoberto o mais intimo 
segredo da sua vida, não pôde conter um mo- 
vimento cheio de perturbação. Parecia-lhe 
que os olhos de Catharina, aquelles olhos 
azues e serenos, lhe estavam cortando a alma. 
Admirava interiormente a grandeza d' animo 
e a delicadeza de sentimentos com que a no- 
viça, calando o pesar que a paixão de uma 
rival inspira, soube conter e reprimir qual- 
quer signal capaz de atraiçoar a sua ancie- 
dade. Mas ao mesmo tempo o orgulho, e uma 
dor secreta, que o amor mesmo em sonhos 
sempre causa, afogueavam-lhe as faces de 
vivas cores, e aclaravam nas pupillas verdes 
os filetes d ? ouro que as raiavam. 

Estes reflexos quasi metallicos, juntos ao 
visível tremor da bocca, revelavam á obser- 
vação perspicaz da amiga de Cecília a lucta 
do bem e do mal ; o combate da razão com a 
soberba. 

Perdoar-lhe-ia Thereza a generosidade, ou 
tomaria como oftensa a própria confiança? 



G Emprcza da Historia de Portugal 

Houve um momento em que a filha de D. 
Luiz se arrependeu de suas palavras. Se a 
noiva de Jeronymo ouvisse o coração, e não 
a vaidade, era um passo immenso para a Vi- 
ctoria; mas se o contrario succedesse? . . . 

Talvez o ciúme, não o que nasce dos zelos 
do afiecto, mas o que se funda no orgulho, 
creasse de repente maiores obstáculos do que 
todos os que suppunha encontrar. Por isso 
durante a breve pausa que mediou entre as 
ultimas phrases de Catharina e a resposta de 
Thereza, a noviça sentiu o peito sobresalta- 
do, e uma nuvem sobre os olhos. A sua reve- 
lação era um grande golpe; mas depois de 
feita tremia, e aecusava-se de indiscreta. 

Á pouco e pouco afrouxou o calor que ro- 
sára o semblante da irman de Cecília; o tre- 
mor convulso, que lhe agitava os beiços, 
assentou em um sorriso claro, meigo, e mais 
triste do que severo. Ao mesmo tempo as 
pupillas abrandaram o fulgor, e os reflexos 
fulvos, e quasi irosos, apagaram-se no suave 
fluido que fazia tão bellos o persuasivos 
aquelles olhos. 

Na fronte lisa revelou-se o espirito soce- 
gado ; o coração puro apagou toda a ideia de 
malquerença. Pegando na sua mão, a d^lla 
ainda estremeceu ; e o seio alvoroçado ainda 
deixava perceber as rápidas pulsações; mas 
era evidente que a noviça tinha vencido, o 
que o primeiro escolho estava salvo ! 

O abalo fora grande ; porém a alma da noi- 
va de Jeronymo. felizmente, era maior do que 
os caprichos e paixões. Desvanecido o pri- 
meiro conflicto, represado o impeto do orgu- 
lho, a razão mostron-lhe que a culpa procedia 



Obras completas de Bébello da Silva 7 

toda (Telia, e que o modo de a expiar consis- 
tia em ser digna de Catharina pela sinceri- 
dade da effusão. 

A uns olhos que viam tão fundo, e sabiam 
adivinhar nas lagrimas e na magoa silenciosa 
o que os lábios mesmo a sós não ousavam 
proferir, não podia esconder nada. 

Abrir-lhe a alma, dizer-lhe o que tinha 
n'ella f pareceu-lhe o meio próprio de corres- 
ponder á generosa confiança da filha de D. 
Luiz. 

Antes de falar procurou com a vista o leito 
de Cecilia. O ouvido afiou-se para lhe escutar 
o sopro egual da respiração. Sua irman dor- 
mia ! Certa de que o segredo não passaria 
de ambas, Thereza levantou-se, e veiu ajoe- 
lhar aos pós da noviça com o gesto nobre de 
quem sabe que se exalta, cumprindo o seu 
dever : 

—Catharina — ■ disse, não com os olhos bai- 
xos, mas com a vista alta e cheia de amizade 
— perdoe-me o que fiz, as loucuras que sonhei 
os desejos. . . de criança — accrescentou sor- 
rindo — que em dois ou tres dias de delirio 
me atrevi a conceber. Acredite : a cabeça pec- 
cou ; mas o coração absolve-me. No fim, bem 
vê, elle venceu. 

— Menina ! . . . 

— Mas se elle me pudesse amar, se eu já não 
acordasse a tempo ? — insistiu a irman de Ce- 
cilia, sempre na mesma posição — Não fazia a 
sua infelicidade, não pagava com prantos o 
dores a amizade mais sincera e desinteressada? 
Por capricho não o fazia infeliz por toda a 
vida? 

—Olhe, Therezinha — observou Catharina, 



8 



Empresa da Historia de Portugal 



fazendo-a erguer e assentar ao seu lado — se 
elle a amasse, é porque não me estimava a 
mim : e tendo de sentir o golpe, era melhor 
agora do que depois. Hoje ainda tinha o meu 
convento, e um esposo que me accei . . . Deus! 

Estas palavras foram ditas com um sorriso; 
mas as lagrimas saltavam-lhe pelos olhos. A 
eommoção e a verdade com que as proferiu 
humedeceram também os de Thereza. Abra- 
çando-a ternamente, entre um beijo, cujo ex- 
tremo recordou á noviça os ósculos de Cecí- 
lia, a noiva de Jeronymo exclamou : 

—Ainda lhe não disse tudo ... O meu cas- 
tigo ha de ser confessar-lhe as loucuras que 
imaginei, e as maldades que me vinham á 
ideia. Sabe que tive inveja da sua felicidade? 
Que cheguei a sentir ciúmes de ver o conde 
tão enlevado, e o seu coração tão certo da 
ternura d 7 elle ! . . . 

— E n'essas occasiões não havia n^esse cora- 
ção esquecido uma sombra de dó, um ar de 
compaixão em favor do pobre Jeronymo ? 
Que me tivesse odio a mim. . . 

— Oh ! odio nunca ! Não sou. . . ainda não era 
tão má! Jeronymo lembrava-me; e quer que 
lhe diga? Nem eu sabia!... Agora era só o 
conde; não pensava, não tinha deante da ideia 
senão a elle ; logo depois distrahia-me a re- 
cordar os dias felizes, em que toda a minha 
occupação consistia em desejar que uma via- 
gem longa acabasse, e que mais um irmão 
viesse alegrar a solidão da nossa casa. . . 

— Então amava os dois?— accudiu Cathari- 
na, sorrindo. 

— Não, menina!— redarguiu ella séria— Ain- 
da não amava nenhum d ? alles! Oom o conde 



Obras completas de Eebello da Silva 9 



a cabeça e o orgulho... é que me seduziam 
Com Jeronymo dava-se a amizade, e uma 
coisa que ás vezes faz mal ao amor, um res- 
peito tão grande, como se elle fosse meu pae, 
e eu sua filha. Temi que aquelle homem, que 
dizem ser de ferro no mar e nas batalhas, 
também fosse de ferro para mim. 

— Não viu como elle a amava; como um 
olhar, um gesto seu o fazia feliz ou triste ? 

—Sim; antes de esposo. E depois? Tinha 
medo que a sua alma, grande nos trabalhos e 
nos perigos, se cansasse depressa da ternura. . . 
Sei que a guerra o fará um dia muito maior 
do que já ó, e que o seu nome será uma gloria 
para a mulher da sua escolha, mas estava eu 
certa de que não ficaria sendo escrava e elle 
senhor? Catharina, bem sabe, quando se ó 
nova o orgulho imagina que os leões nos obe- 
decem, e que os nossos olhos devem ser a lei 
de quem nos ama. Crê que Jeronymo soffres- 
se uma vontade superior á sua? 

—Esperava então achar o conde dócil?— 
interrompeu Catharina rindo. 

—Não. Desde que o vi, e principiei. . . 

—Diga tudo. Desde que principiou a amai- 
o ?— atalhou a noviça com um sorriso. 

— Amal-o? E' muito!— accudiu Thereza— A 
pensar n'elle. . Foi a verdade, Desde esse dia 
vi as coisas de outro modo. 

— E hoje? 

— Contentava-me com o amor, se estivesse 
certa de ser amada. 

— Ainda não acredita que Jeronymo a adore? 

—Não sei. Creou-se commigo; ó quasi meu 
segundo irmão. Entretanto a ultima vez que 
o ouvi. . . 



10 Empreza 3a Historia de Portugal 



— Teve mais fé no amante do que no irmão? 
— observou Catharina risonha na apparencia, 
mas anciosa no intimo. 

-—Tive. O que me disse senti-o no coração. 
Elie parece que adivinhava, ou que lia dentro 
da minha alma. Houve um instante em que 
me julguei trahida, e imaginei perdel-o; en- 
tão. . . 

-Ah! Então?!... 

—A dor foi ainda mais forte do que a ira e 
o orgulho. Uma irman não se lhe córta assim 
a alma por ver que seu irmão prefere outra. 

— Falta-lhe dizer a ultima verdade. Diz?—- 
notou a noviça com alegria. 

— Menina, 6 uma confissão. Não occulto na- 
da. Desde esse dia soube que o amava. 

— E foi d'esse dia também, ia jurar, que 
deixei de ter uma rival ? 

— Perdoe-me, Catharina! Causei-lhe cui- 
dados e pesares; fui ingrata, invejosa. . . 

— Não ; foi só menina e moça. Basta ; não 
quero que falemos mais do . . . seu romance. 
Sabe de quem é a culpa? da cabeça e do amor. 
Em sendo novos o verdes entram acorrer e 
perdem-se. Tractemos de coisas sérias. Devo 
contar-lhe o que succedeu a Jeronymo, e ex- 
plicar a razão por que elle está preso e . . . em 
perigo. A outra conversação entreteve-nos 
muito ! 

— Era necessária. Agora que somos amigas, 
muito amigas, e que não temos segredos, de- 
sejo muito saber a historia de Cecilia, e o 
motivo que levou Jeronymo ao jardim. Bem 
vê que hei de estar anciosa ! 

— Sente-se. Tem animo para me prometter 
que não ha de magoar-se, ouça o que ouvir ? 



Obras completas de Bebello âa SUvd 



11 



— E' muito triste e penoso accudiu The- 
reza, einpallidecendo. 

•—Se ama Jeronymo é a decisão da vida, ou 
da morte d'elle. Está nas suas mãos perdel-o 
ou salval-o. * 

— Nas minhas mãos ! — exclamou com so- 
bresalto, e moderando a custo a voz. 

— Sim . Em sabendo tudo, verá que não a 
enganei. Quer que principie? Veja como sua 
irmã dorme ! Pobre Cecilia ! 

Thereza fez com os os olhos um signal af- 
íirmativo ; e encostando o cotovello ao braço 
da cadeira, e recostando a face na mão, toda 
ouvidos, pendeu da bocca de Catharina. 

A filha de D. Luiz começou, descrevendo 
os amores de Cecilia e dei). João no Conven- 
to de Santa Clara ; pintou-lhe a candura e a 
innocencia da educanda ; o ardor e o extremo 
com que o amante a extremecia ; e não se es- 
queceu nem dos seus receios, nem das suas 
apprehensões, quando,perguntandoá donzella 
pelo nome e qualidade do mancebo, descobriu 
que ignorava tudo, e parecia ter medo até de 
apressar .uma revelação cruel. 

Lembrando-lhe a scena do jardim, o o gra- 
cejo em que a irmã fora constrangida a paten- 
tear o retrato occulto, Catharina confessou 
que as feições eram tão similhantes ás do prín- 
cipe real, cuja imagem vira n'outra medalha 
do conde de Aveiras, que um presentimento 
a tomára logo, e que as suas lagrimas corre- 
ram, sem as poder suster, como ambas obser- 
varam. 

Escutando-a, Thereza estava pallida, mas 
serena. Quando alludiu ao lance do retrato 
levantou a vista para interrogar a memoria, 



12 



Empresa da Historia de Portugal 



e fez depois um signal quasi imperceptível 
com a cabeça, como se dissesse que lhe esca- 
pára esta circumstancia, e que recordando-a 
lhe dava agora o valor merecido. A noiva do 
conde proseguiu, relatando as promessas dos 
dois amantes ; as suas illusões ; e o desenlace 
delias na fatal noite, em que Cecília soube 
que amava o rei, porque áquella hora o prín- 
cipe quasi que era já o rei. 

A donzella, que não perdia a menor phrase, 
ao nome do soberano, não soube conter nos 
olhos um relâmpago, que a vista de Catharina 
interceptou e traduziu. O orgulho e a ambi- 
ção, as duas paixões activas do seu caracter, 
tinham ciúme da preferencia lisongeira dada 
a Cecília pelo coração do príncipe, ou a sua 
ternura magoava-se com o abismo, que o des- 
engano súbito rasgára entre as esperanças 
da educanda e o seu amor? 

Se fosse, Thereza elevaria o pensamento a 
Deus, resignando-se; ou atrever-se-ia a luctar 
com a fortuna, e na falta de uma coroa accei- 
taria o poder e a grandeza de rainha cedendo 
o titulo? Qualquer que fosse a sua ideia, e a 
maneira por que a sua amiga a entendeu, era 
sensível a profunda commoção causada na sua 
alma pelo discurso que estava ouvindo. 

Entrando na parte melindrosa da narração, 
a noviça fez uma pausa curta, a fim de reas- 
sumir a serenidade necessária para não arris- 
car uma phrase, cujo sentido pudesse preju- 
dicar o intento a que se encaminhava. 

Silenciosa sempre, e cada vez mais des- 
maiada, a irman de Cecília concentrava os 
mentidos e a alma na vista, que penetrante « 
fixa parecia descer ao interior de Catharina, 



I 

Obras completas de RebeMo da 8Uw$ 13 

querendo adivinhar tudo antes de ella o ex- 
plicar. De feito, d'aqui por deante as palavras 
da noiva do conde de Aveiras iam cortar no 
vivo, assustando e agitando os affectos e as 
paixões que podiam luctar na alma da sua 
amiga. Dizer-lhe que era amada e aborrecida 
ao mesmo tempo de Jeronymo ; e que a des- 
graça do mancebo, e a futura sorte de ambos 
pendiam de um equivoco, não lhe parecia 
erapreza fácil deante d'aquelle orgulho fácil 
em se irritar. 

A voz da noviça tremia involutariamente, 
e a fronte alva e triste corava, borbulhava o 
suor da angustia á medida que ia soltando 
uma revelação, e contemplava o effeito d'ella. 
Quando chegou ao lance do bilhete roubado 
e entregue ao capitão, Thereza encolheu os 
hombros, e meneando a cabeça, exclamou: 

— Cuidei que Jeronymo sabia ler ! Desde 
criança está costumado á minha lettra. 

—Sim. Mas o bilhete era do príncipe, e não 
de Cecilia!— accudiu Catharina. 

A explicação aplacou o primeiro impeto. 
Tornando a cahir na primeira posição attenta 
e anciosa, Thereza baixou um pouco as pál- 
pebras, e para disfarçar o tremor da mão, en- 
treteve-se em enrolar e distender nos dedos os 
anneis das tranças que vinham beijar-lhe as 
faces. 

A narração continuou. A filha de D. Luiz, 
pintando tudo com a commoção de quem 
assistira a parte da catastrophe, descreveu o 
encontro do príncipe com Jeronymo, a illusão 
do mancebo que equivocára Cecilia com The- 
reza, enganado com a similhança da voz, e 
eam a escuridão da noite, o susto e perplexi- 



14 Etnprcza àa Historia de Portugal 

dade da educanda, desvairada, suspensa, e 
cheia de terror no meio do conflicto dos dois 
riyaes, cégos de ciúme, e impacientes no seu 
odio. 

De propósito a noiva do conde insistiu na 
perturbação natural da sua amiga, vendo-se 
entre dois homens, que podiam com uma voz 
mais alta, com qualquer estrépito perdel-a, 
sacrificando a sua honra ás murmurações do 
mundo, e entregando a sua fama aos dentes 
da calumnia. Contra o que a noviça esperava, 
Thereza ouviu-a callada e mais tranquilla do 
que acreditara; porém os olhos tornaram a 
despedir os mesmos reflexos metallicos, e a 
arder na mesma chamma que ha pouco os 
tornaram ameaçadores. «O collo de garça» 
como dizia o clássico Diogo de Mendonça, 
perdera a curva languida e graciosa, e sus- 
tentava a cabeça erecta, cuja posição orgu- 
lhosa denunciava a tempestade. A luz da vis- 
ta* realçava ainda mais ao pé da alvura trans- 
parente do rosto. As veias principiaram a de- 
senhar-se pronunciadas ; e a physionomia ma- 
nifestou a indignação, que em certos momen- 
tos fazia a belleza da irmã de Cecilia muito 
similhante á formosura irada de Juno. 

O sorriso, fugindo e volvendo á superfície 
da bocca, tinha uma ironia e uma dureza que 
repellia ; e a agitação nervosa, que se perce- 
bia nas rápidas contracções das sobrancelhas 
e das azas do nariz, indicava um violento es- 
forço da vontade para sopear a cólera. Houve 
um instante de silencio em que as duas don* 
zellas se mediram como dois luctadores antes 
de se enlaçarem no combate. 

Catharina, timida e tremula exteriormente, 



Obras completas de Bebello da Silva 



15 



reassumia as forças, e preparava-se para a 
a crise iminente. A filha de Philippe, mais 
desconfiada e mais ferida no orgulho, do que 
dominada de verdadeira cólera, sustentava no 
gesto e no tom as apparencias da serenidade, 
e nada esquecia para esconder o resentimento 
da offensa sob imaginários pretextos. Como 
a noviça parecia esperar por uma pergunta, 
Thereza decidiu-se a falar primeiro : 

— Sabe que acho singular o que me contou, 
I). Catharina ? — disse ella — Que Jeronymo 
se enganasse com o bilhete, desculpo; mas 
que antes de me accusar nem ao menos me 
olhasse para o rosto, nem sequer me dirigisse 
uma palavra, uma só, e era de mais para se 
convencer do erro, não o posso entender, nem 
o devo perdoar. 

— Tinha ouvido a sua voz ... a de sua irmã, 
quero dizer— accudiu a noviça— e como sabe 
são tão parecidas, que eu mesma, não vendo 
Cecilia, se a ouvisse, Thereza, julgaria que 
era ella . . . 

—Jeronymo creou-secomnosco desde crean- 
ça — interrompeu a donzella com um sorriso 
frio — e devia lembrar-se. Não bastaya escu- 
tar, devia vêr . . . E minha irmã como deixou 
pesar a culpa sobre mim, podendo com um 
grito, com um gesto salvar-me a honra ; a 
honra, que de tudo ó o que me importa 
mais ! — ajuntou com força — Cecilia calou- 
se, sabendo o engano de Jeronymo, e não deu 
um passo para evitar uma desgraça . . . tão fá- 
cil de prevenir ! Sabe que ó uma lição para o 
coração se não fiar de ninguém, e a alma se 
desprender de todos? Minha própria irmã, 
vondo-me innocente e infamada pela sua 1«- 



10 Mmpreea da HMorin de Poriugw 



riandade, não abriu a bocca e consentiu . , . 

Catharina levantou-se de repente, não pal- 
lida e tímida, mas com o fogo da indignação 
nos olhos, e o gesto imperioso. As suas pupil- 
las dardejavam chammás; o semblante seve- 
ro infundia respeito ; a voz não alta, porém 
vibrante, era irresistível. Pegando com Ímpe- 
to na mão de Thereza e subjugando-a com a 
vista fixa e acerada, mostrou-lhe o leito, e 
n ? elle prostrado o corpo de sua irmã : 

— Cecilia fez mais do que falar —disse el- 
la— -porque ás vezes a dor suffoca; Cecilia 
quiz morrer para desenganar Jeronymo. Que 
mais havia de sacrificar aquelle anjo, do que 
o sangue e a razão para expiar o amor verda- 
deiro da sua alma, que os outros escarnecem, 
ou sepultam com um sorriso ! ... Se os loucos 
attendessem não eram loucos. Se elle não 
trouxesse o veneno mortal no coração, julga 
que a sua espada cortaria no peito de sua ir- 
mã? Thereza, seja sincera; se não fizesse um 
deus do seu orgulho, Jeronymo, certo de seu 
amor, iria buscar a morte e a desgraça ? 

A filha de Philippe deante d'esta accusa- 
eão vehemente baixou por um instante os 
olhos e a cabeça. Mas foi só por um instante. 
Volvendo logo ao tom irónico com que prin- 
cipiára, e respondendo ao gesto de Catharina 
por outro mais altivo, exclamou : 

— No logar d'ella eu dizia um nome, o meu, 
e explicava tudo ! 

— No logar d^lla— redarguiu severamente 
a noviça — duvido mesmo que fizesse o que 
eu a vi fazer. De longe, oito dias depois, e 
sem perturbação, é fácil calcular ! 

■—D. Catharina, não vê o que eu padeço? 



Obras completas áe Eehdlo da Silva 17 



Que elle me accusa, e que a esta hora me es- 
tará talvez amaldiçoando ? — observou The- 
reza, meia convencida. 

— E Cecília não padeceu, não padece mais? 
Jeronymo uma palavra sua pôde salval-o, em 
quanto ella nunca mais terá consolação no 
mundo. 

— E' verdade ! o amor de el-rei . . . é muito 
alto ! — atalhou a noiva do capitão com um 
suspiro. 

— Sim. Ha mulheres, cujo coração é assaz 
elevado para não descerem até el-rei ! — disse 
Catharina, fitando-a com singular expressão. 

— Descer ? ! — exclamou ella. 

— Descer, repito. Quem não pôde ser espo- 
sa e egual, desce pela infâmia, não sobe com 
o amor . . . Falemos de Jeronymo. Ainda o 
acha muito culpado, muito arrebatado ? 

— Catharina, se fosse isso não me queixa- 
va. Vou dizer-lhe o que sinto, o que tentei 
occultar-lhe até agora, e não quero esconder 
mais; Jeronymo não me estima. Acreditou 
que eu era capaz de ir de noite, e só com um 
homem estranho, entregar . . . 

— Sua irmã foi, e apezar d'isso !— interrom- 
peu a noviça. 

— A minha irmã levou-a o seu amor ; não 
era noiva ; não devia nada senão á sua honra. 
Confiou, e atreveu-se. Mas eu ! . . . bem vê a 
difíerença ! Se amasse outro e me callasse; se 
me entregasse em segredo ; se o negasse a Je- 
ronymo?... Catharina, ha suspeitas que as 
laces se cobrem de vergonha só de as imagi- 
nar. Jeronymo duvidou da minha honra; se 
me estimasse tinha vindo com esse bilhete na 
mão buscar o desengano. Não veiu. Despre- 

VIII— A MOCIDADE »E D. JOÃO V~~V 2 



18 Empreza da Historia ãe Portugal 



zou-me ! Quiz humilhar-me deante do seu ri- 
val, de quem suppunha ser o seu rival ! Vin- 
gava-se manchando de sangue a minha fama, 
e a reputação de uma casa, aonde era tracta- 
do como filho. E' indigno ! Que direito tinha 
elle para me arrastar pelos cabellos deante 
das murmurações e calumnias do mundo ? E 
dizem a sua alma grande e o seu peito forte!... 
O mal que fez a si ; o coração de minha irmã 
que rasgou por toda a vida ; o golpe que teve 
a fraqueza de lhe descarregar . . . 

— Thereza ! — exclamou Catharina pondo 
as mãos e empallidecendo. 

— Era para mim ! — proseguiu esta —O es- 
poso terno, o irmão extremoso, só porque 
julgou que o não amava, tornou-se um ti- 
gre, e nada o contentava senão a minha vida 
e a mioha deshonra ! . . . Como quer que torne 
a vel-o sem córar de pejo e de indignação, 
porque elle, no que fez, mostrou suppor-me 
capaz de tudo ? ! . . . 

Dizendo isto, a donzella sufíbcou-se, e as 
lagrimas rebentaram -lhe dos olhos, não doces 
e piedosas, mas ardentes e amargas como as 
que o orgulho expreme do coração ulcerado. 
A filha de D. Luiz percebeu que era chegado 
o momento de salvar ou de perder, tudo. 

Pegando-lhe de novo na mão, e olhando 
para ella com amizade, quasi ao ouvido mur- 
murou : 

— Jeronymo íoi culpado, tem razão; mas, 
para ser justa, não accusará também quem o 
levou áquella loucura ? 

— Eu?! — exclamou Thereza ainda mais 
desmaiada do que estava — Juro -lhe: protes- 
to-lhe ! . . . 



Obrai ôomptetai de Bébãío da Stiv$ 19 



— Porque não teve dó de o ver padecer, e 
por orgulho, por capricho o fez tão fraco de 
animo e tão cego da razão ? Não sabe que os 
homens como elle são crianças, que um gesto 
os perde, e que um sorriso os salva? Diga- 
me, quasi esposa de Jeronymo, disse-lhe uma 
vez, ao menos, que o amava? 

— Não! Mas!. . .— accudiu ella sobiesaltada. 
— • Pronietteu-lhe amor? Diga a verdade!... 
tracta-se da vida de seu segundo irmão. 

— Não ! — repetiu a donzella agitada, e des- 
viando a vista. 

— Para o socegar, disse-lhe, sequer, que 
não amava. . • que não pensava em outro? ... 
Também não. Confessou-lhe que o seu cora- 
ção e a sua ideia estavam longe d'elle, e que 
precisava de combater para um dia o vir a 
amar talvez !... Nem uma esperança, nem 
uma palavra ! . . . 

— Mas elle devia entender, quando fugiu 
do quarto . . . 

— Que o mandavam esperar seis mezes pro- 
vavelmente com dó de o ver acabar de pai- 
xão dentro de seis dias — atalhou Cathari- 
na.— Não podia perceber outra coisa. 

— Sabe-o . . . Elle disse-lh'o ? Falou-lhe ? . . . 
Pela sua alma, D. Oatharina, não me engane ; 
Jeronymo é que lhe contou ? . . . 

—Não, foi o padre Ventura: socegue. Ago- 
ra depois de tudo isto junte o bilhete, aillusão 
da voz, o encontro de um rival ; o ciúme, a 
raiva, a desesperação ... o amor como o infe- 
liz o sente ; calcule a sua dor e o seu marty- 
rio, emquanto escutou ; e diga-me : que ho- 
mem deixaria de fazer o mesmo ? No logar 
d-elle, seja sincera, Thereza, teria a cabeça li- 



20 Bmprem ãa Historia âe Portugal 

vre e a alma serena para prever os perigos, e 
conter a explosão de tantas magnas? . . . De- 
pois saiba : Cecilia é que se feriu a si. As es- 
padas estavam cruzadas quando ella se met- 
teu no meio delias. O grito que arrancou, e o 
luar que se descobriu, deram a conhecer o 
príncipe e mostraram ao desgraçado o sangue 
que derramára! 

— E ainda cuida que é o meu ? 

— Ainda. Não teve, não lhe deram tempo 
para se desenganar. 

— E accusa-me ? Maldiz-me ? 

— Umas vezes, n'outras chora, porque não 
morreu . . . sobre o seu corpo. 

Thereza cruzou os braços, e deixou pender 
a cabeça. A mão enxugou a furto duas lagri- 
mas : o brilho dos olhos foi-se apagando. A 
noiva do conde de Aveiras aí astou-se por um 
instante, cheia de esperança e de alegria. A 
íucta fora áspera e renhida ; mas no fim a Vi- 
ctoria parecia-lhe certa. 

— E o padre Ventura crê que elle pode sal- 
var-se como Cecilia? — perguntou a donzella, 
erguendo a fronte com um olhar indeciso. 

—Espera muito ... do seu coração — respon- 
deu Catharina suffocada pela anciedade, por- 
que, vencido este ultimo ponto, tudo estava 
ganho. 

— E o que pôde fazer ... o meu coração em 
favor d'elle ? — accudiu a irmã da educanda, 
disfarçando as próprias commoções com affe- 
ctada indiíferença. 

—Tudo. Restituir-lhe a razão e a vidafres- 
tituindo-lhe a esperança. 

- Não percebo. 



Oto as completas de Bebdlo da SilvH 21 



— Se elle a visse, se Thereza o desenganas- 
se !.. . 

—Devo então ir á prisão vêl-o e ouvil-o ? ! 

— E* o meio único. Elle crê que está morta, 
que o trahiu. Vendo-a ao pé de si, o sobresal- 
to, o jubilo . . . 

— E depois do que sabe, D. Oatharina, crê 
que devo expor-me a que o meu nome seja 
amaldiçoado, a minha honra escarnecida, e a 
minha piedade despresada ? . . . Acha pouco 
ainda o que elle fez ; quer que exgote até á 
ultima humilhação? Que me deixe pizar aos 
seus pés, e que, innocente e offendida, vá ar- 
rastar-me como culpada ? . . . 

—Thereza, não ouça o orgulho! — exclamou 
Catharina — E' um louco, um infeliz que sal- 
va da morte á custa de poucos momentos de 
paciência. Que lhe importam, com a sua con- 
sciência forte, as vozes do delirio, as offensas 
de quem não a conhece ? Por alguns instan- 
tes de dor alcançará a gloria de o ver arre- 
pendido e grato. Note a divida a que o obri- 
ga, com a sua generosidade. Seja o anjo por 
quem elle chama, e não a mulher que julga 
detestar! Livre-o pelo amor, já que se per- 
deu pela ternura ! . . . 

Thereza ainda hesitava. Ambas se calaram 
tremulas, anciosas e suffocadas. No meio 
d'esta pausa, a voz débil, mas clara, de Oecilia, 
chegou-lhes ao ouvido, e alvoroçou-lhes o co- 
ração. Olharam. A educanda, sentada na cama, 
e branca da pallidez interessante que ainda a 
tornava mais seductora, dizia á noviça e á 
irmã : 

— Havemos de salval-o. Eu e Thereza ire- 
mos vel-o, e dizer-lhe a verdade. 



22 Empresa 3a Historia de Fortugal 



As duas meninas com os olhos húmidos e o 
peito comprimido correram para ella, e cada 
uma pegou-lhe em uma das mãos, e pousou- 
Ihe os lábios n'ella. 

— Ouvi tudo. Estava acordada, mas não as 
quiz distrahir. Jeronymo padece por minha 
causa. Eu e que devo salval-o. Vou melhor ; 
ámanhan posso levantar-me. Em quatro ou 
cinco dias irei mostrar-lhe esta ferida que me 
fez, e repetir-lhe as ultimas palavras do jar- 
dim. Bem vês, Thereza, a mim ha de de elle 
acreditar-me ! 

— Tu ! Ires tu falar-lhe ? . . N'esse esta- 
do ? — exclamou Catharina. 

— Eu. Sabia já o que elle devia soffrer, e se 
agradeço a Deus a vida, ó para o salvar. De 
que posso servir no mundo antes de o deixar, 
senão para fazer felizes aquelles a quem amo? ! 
Basta que uma chore e se enterre com a sua 
magoa, viuva antes de ter sido esposa ! 

O sorriso angélico e a doçura de voz com 
que proferiu estas palavras fizeram desatar o 
pranto de Thereza e o de Catharina. Ella bei- 
jou-as carinhosa, afagou-as com meiguice, e 
cerrando a meio os olhos, murmurou cruzan- 
do os braços sobre o peito : 

— Ainda hão de ser ditosos, pouco impor- 
ta depois que eu o não seja nunca. 

— Também tu, minha irmã ! — exclamou 
Thereza com eíFusão — O tempo e o nosso 
amor por fim hão de consolar-te. 

— Eu ? ! . . . — disse ella com um suspiro e 
um sorriso — Sim ! Quando Deus permittir 
que de todo me esqueça o mundo . . no céu ! 

Nenhuma das amigas replicou. Ha verda- 
des a que somente o silencio responde bem . 



Obras completas de Eebdlo da 8Ufki 



CAPITULO XXXVII 
Tantas vezes vai a bilha á fonte I 

— Deus é grande ! — dizia interiormente o 
senhor Thonió das Chagas, desengatilhando 
da physionomia a visagem devota de que a 
arniára para o peditório, e despindo na sacris- 
tia da capella a sua pingada plaustra de an- 
dador das almas. 

Até alli tinha-lhe corrido tudo vento em 
popa ; a colheita da ultima semana excedera 
até as suas modestas esperanças. Cultivada 
com arte, a figueira de Judas estava carrega- 
da de fructo, e o virtuoso santanario com o 
desafogo usual contava comer os figos, e não 
lhe rebentar a bocca! As coisas iam de modo 
que a senhora Perpetua das Dores, económi- 
ca e prevista, protestava que se a fortuna 
continuasse a bafejar assim a casa, dia de an- 
no bom, que estava á porta, a Mãe Santíssima 
teria um manto de brocado novo, e Santo 
Antonio de Lisboa um habito de setim visto- 
so. E' claro, portanto, que a exclamação de 
«Deus ó grande» com que apanhamos em 
flagrante o continuador de Ambrósio Lamella, 
queria dizer que elle batia uma outra moita, 
e que esperava levantar d'ella boa caça, aju- 
dado da sua inimitável velhacaria. 

Similhante a Luiz xi de França, o nosso 
milagreiro costumava metter a corte do céu 
nos seus planos. Punha-se de joelhos, e fazia 
confidente de suas devotas extorsões alguns 
dos bemaventurados, imaginando seduzil-o 



24 Wmpreza 3a Historia 4* Portugal 



com estas peitas ao divino ; mas, passada a 
occasião, deixava logo cahir a promessa no 
esquecimento. Ouvira dizer, portanto, que de 
votos não cumpridos estava calçado o infer- 
no, e paraaccudir ao perigo, inventou também 
uma pia fraude para ficar bem com a eterni- 
dade. 

Todos os annos, na commemoração dos 
fieis defunctos, mandava dizer tres missas, 
pagando a esmola, e assistindo a ellas de joe- 
lhos e de óculos perfilados, ostentando uma 
contricção capaz de enternecer o mais endu- 
recido herege. 

— Assim — resmungava elle — arranjo tu- 
do, e logro o demónio. Quando nas contas fi- 
naes apparecer carregado com o fardo de mi- 
nhas culpas, tenho por mim as almas do pur- 
gatório, que Ih' as hão de sonegar a uma por 
uma ; e eu leve e branco como as pombas irei 
lembrar ao senhor S. Pedro as festas que 
lhe fiz para me abrir as portas do paraizo. 

O senhor Thomé, capitalista de indulgên- 
cias, urdia menos mal os cálculos das suas 
compensações. As suas banca-rotas podiam 
disputar a palma a muitas banca-rotas pro- 
fanas, gloria e opulência dos auctores. 

Engolfado n 7 estas reflexões ia já a sahir 
as portas da capella, quando deu com os 
olhos no boçal semblante do escrevente do 
padre frei João dos Remédios, que o vinha 
chamar da parte de sua reverendíssima. O an- 
dador nãô gostou do encontro ; e exhalando 
uma espécie de suspiro, tornou a afivelar nas 
feições a mascara da simplicidade seraphica, e 
principiou a subir muito devagar os degraus 
da escada, que por dentro da ©greja desem- 



Obras completas de Bebdlo da SU&i 25 
\ 

boccava nos dormitórios. Por mais callejada 
que estivesse a sua consciência na practica dos 
sete peccados mortaes, ainda se assustava ás 
vezes com a idéa de ser colhido um dia, como 
os bugios com a mão dentro do coco ; e sem 
saber porquê, o recado súbito do procurador 
sobresaltou-o muito. 

Remordiam-lhe na memoria certos receios, 
e benzia-se com a mão esquerda, imaginando 
o que poderia succeder-lhe se o dominico che- 
gasse a conhecer os bons e leaes serviços pres- 
tados por elle, Thomé das Chagas, escravo das 
almas e de Nossa Senhora do Rosario, aos 
inimigos do convento do patriarcha inquisi- 
dor. 

Toda a sua inexgotavel impudência e hy- 
pocrisia descorava quando lhe occorria que 
se frei João entregasse ao santo oficio o exa- 
me do negocio, era mais do que provável que 
sua mercê não sahisso de lá sem uma boa 
camisa de pez no corpo, e uma mitra de caro- 
chas na cabeça. 

Eis o motivo porque as esburgadas tibias 
do nosso amigo se arrastavam mal, e porque 
elle appareceu na presença do prégador com 
a voz bastante presa, e visivel tremor nos 
membros. 

Frei João escrevia ao bofete. Vendo entrar 
o senhor Thomé, recebeu com ar benévolo as 
zumbaias e genuflexões do milagreiro, fitan- 
do n^lle os olhos com certo geito, que deve- 
ria consternal-o se percebesse; mas o riso 
aberto á superfície illaqueou a desconfiança 
do devoto, tranquillizando-o; por isso emquan- 
to o padre mestre concluia o seu trabalho, es- 
pairou pelas encovadas faces um sorriso es- 



26 Empresa aa Historia de Portugal 

tulto, arregalou os olhos para o tecto em ex- 
tasis beato, sumiu os hombros, arqueou o 
dorso, deixou-se estar com o pescoço exten- 
dido, e o piedoso rosto suspenso, movendo os 
beiços como se aproveitasse aquelles ócios 
em repetir as suas orações. 

Emquanto o honrado servente se entretinha 
assim em altas cogitações, os dedos do. pro- 
curador voavam pelo papel; a penna parecia 
ter azas. Nunca á phisionomia de frei João 
fora tão radiosa. Nunca o barretinho de seda 
preta se inclinara mais elegante, descobrindo 
a testa. Nunca as suas faces cheias e coradas sc 
animaram de egual malicia, indicio visivel 
de intima satisfaeão.O pé bem feito e bem 
calçado batia o compasso sobre a travessa, 
que ligava os pés da banca ; e a mão esquerda, 
ornada do annel doutoral, tocava cravo, dis- 
trahida, sobre um masso de cartas e escriptos. 

Perto d elle a nova e lustrosa capa descal- 
çava dobrada com cuidado em cima do espal- 
dar de outra poltrona, irmã gémea da vene- 
randa cadeira do jurisconsulto. Alguns car- 
tapacios de theologia e de direito canónico, 
abertos o empoados, opprimiam a mesa, ou 
espojados no chão, jaziam a seus pés, segun- 
do o uso dos estudiosos. Mais adeante, sobre 
um velador, estava o chapéu fradesco esco- 
vado com esmero. Estes signaes indicavam 
que o sábio dominico se dispunha a sahir ; e 
mesmo sem fazer reparo na sege, parada á 
portaria, bastaria notar que frei João vesti- 
ra os seus hábitos ricos, para se concluir que 
projectava uma visita de importância. Tho- 
mé, que espreitava tudo pelo canto dos olhos, 
principiou a suspeitar que o procurador de 



Obras completas de Bebello da Silva 21 



S. Domingos fora nomeado confessor de el- 
rei, e que o chamavam para lhe communicar 
o fausto acontecimento. Quando o pregador 
pousou a penna, e se virou para elle tossindo 
com força, e correndo a mão pela testa, o mi- 
lagreiro tinha esta ideia assente e firme no 
espirito. 

O frade acabou de cheirar a cauda de uma 
pitada com as cerimonias usuaes } extendendo 
e enrolando o lenço na palma da mão, e abria 
a bocca para falar, quando á porta da cella 
appareceu de repente Diogo de Mendonça 
Corte Real, precedido pelo fusco cerbero dos 
seus quartos, o negro Milciades, cujos dentes 
anavalhados alvejavam trahidos pelas côn- 
torsões de alegria com que saudava o amigo 
de seu senhor. 

O dominico não mostrou espanto da visita; 
apertando a mão do secretario das mercês, 
convidou-o a sentar-se ; e abrindo depois a 
caixa offereceu-lhe silenciosamente do seu 
rapé. 

— Obrigado, frei João !— disse o ministro 
acommodando-se na ampla poltrona— ó mui- 
to cedo para espirrar, e bem vês que Milcia- 
des está presente— O preto riu-se, meneou 
gravemente a cabeça, e tornou a pôr-se direi- 
to como uma estatua de azeviche. 

Thomé, que tinha pressa, quiz valer-se do 
incidente para desertar, e principiava já a su- 
mir-se com a parede, segundo o costume, 
quando o padre mestre, que o não perdia de 
vista, o grudou ao sobrado, dizendo-lhe com 
pérfida benevolência : 

— Irmão Thomé, espere! Temos que falar. 

— E eu muito qu© fazer!— accudiu o minis- 



28 Empresa ãa Risioria de Portugal 



tro, que fazia debalde todos os esforços para 
adivinhar a scena que ia presenciar— Não me 
dirás, frei João, que mania foi a tua de me 
cortares o somno com o teu bilhete ? E* mor- 
te de homem ou furto de donzella ? 

— E ? uma historia, que te quero contar pa- 
ra aprenderes a conhecer os homens— repli- 
cou o pregador revestindo-se de ar solemne, 
e expectorando as palavras com inflexões 
emphaticas. 

— Ah, meu padre, Deus te perdoe as duas 
horas de somno que me roubaste ! O mundo 
vê-se melhor com os olhos fechados . . - 

—Querias dizer a justiça! — interrompeu o 
dominico sorrindo— Ora bem ! Em me ouvin- 
do, acredito que dás o incommodo por bem 
pago. O padre Ventura contou-me a histo- 
ria de certos papeis de estado, que te desap- 
pareceram de um cofre de segredo • . . 

E 7 verdade. Mas não sei para que te veiu 
inquietar com isso. Sabes, frei João, que os 
frades são como as mulheres, curiosos e fa- 
ladores ? Para que vestem elles saias ! 

— Agradeço, mas não acceito o cumpri- 
mento! O* padre Ventura, tu que o conheces 
devias saber que é pouco atreito a falar de- 
balde ; portanto, se me contou o caso do se- 
gredo de estado, foi para me informar da ma- 
neira engenhosa porque um servo de Deus 
te ia mettendo pelos alçapões da torre abai- 
xo ! 

Diogo de Mendonça levantou-se com certo 
alvoroço, e mandou sahir Milciades. Thomó 
das Chagas, que as palavras de frei João ti- 
nham posto cor de laranja, tractou de se ex- 
quivar atraz do preto : porém o dominico es- 



Obras completai de Bobello áa SUv4 29 



tendeu a mão sobre elle, e collou-o á parede 
com estas palavras : 

—Jesus, que pressa, irmão Thomé ! não vê 
que ainda temos de conversar ? 

— Frei João — exclamava o ministro, pas- 
seando inquieto — sabes que ó um negocio se- 
rio, e que podia custar-me a cabeça ? 

—Tão serio, que Roque Monteiro Paim deu 
por elle trezentas moedas, e dava mil se lfras 
pedissem !— respondeu o frade recostado, e 
assoando-se com estrépito. 

—Ah ! E a prova?— gritou o secretario, es- 
tremecendo, e com a mão suspensa, como se 
quizesse colher o seu emulo, e suffbcal-o— 
Dá-me as provas ; um fio que seja do laby- 
rintho, e juro. . . 

—-Não jures ; não é preciso. Temos tudo 
sem sahir d^qui. O irmão Thomé, que nos 
ouve, já fez maiores milagres. Pergunta-lhe ; 
e elle te contará como se passou o negocio. 

— Thomé das Chagas? !— disse Diogo de 
Mendonça, cravando os olhos no devoto as- 
sombrado. 

— Sim ! Ohama-lhe Onofre Crespo, se qui- 
zeres ; o nome não importa. Com este ou ou- 
tro nome ó sempre o nosso honrado servente 
e sacristão. Que diamante bruto tinhamos 
aqui n'elle sem lhe sabermos o valor ! Meu 
amigo, tu e eu fomos vendidos, e mais bara- 
tos do que negros. Judas andava na compa- 
nhia de Jesus ! 

—Ah !— murmurou o diplomata, sepultan- 
do-se na poltrona. 

O milagreiro, que também não duvidava 
já de ter chegado á ultima das suas aventuras, 



30 Empresa 3a Historia âe Portugal 



embainhou-se pelo gibão abaixo como um 
óculo de campanha no estojo. 

O frade saboreava com deleite o assombro 
do ministro e o terror do santanario. O odio 
que uma communidade inteira poderia votar 
aos dispenseiros e prelados, fuzilou nos seus 
olhos, e illuroinou-lhe as faces. 

O deplorável papel, representado por elle 
no gabinete de Diogo de Mendonça, lendo a 
petição ao padre Ventura, e achando uma 
copia exacta na mão do jesuita, foi sempre 
um punhal que lhe ficou nas entranhas e uma 
affronta para a qual dez victimas como Tho- 
mó das Chagas, ardendo a fogo lento, lhe não 
pareciam sufíiciente expiação. 

Para mitigar as dores do orgulho é que tinha 
chamado o secretario das mercês. A duplici- 
dade do santão a respeito do diplomata, e a 
boa fé do ministro, a par da própria creduli- 
dade, consolavam-o do algum modo. No laço 
em que tinha cahido um homem da sagacidade 
de Diogo de Mendonça podia' sem desdouro 
tropeçar e ser colhido um padre, mais dado 
aos livros do que aos enredos políticos e aos 
enredos mundanos. 

— Não perca o animo, senhor Thomé !— disse 
o procurador, dardejando um olhar ferino ao 
bonzo descoroçoado — Uma pessoa do seu me- 
recimento não estonteia assim. Se as suas boas 
obras se limitassem a escarnecer da minha 
simplicidade, e a adormecer-me que nem uma 
criança com os mexericos e invenções da vir- 
tuosa serva do Deus, que o ajuda a despir o 
próximo, perdoava-lhe até o espectáculo do 
irrisão, que deu em mim aos inimigos de Deus 
e (Pasta santa caga. Mas vossa mercê não se 



Obra» eoníphtas âe Eebdlo âa SUM 31 

contentou com tão pouco. Ao senhor Diogo 
de Mendonça roubou-lhe uns papeis, cuja fal- 
ta, accusada por falsos emulos, o arruinava 
para sempre. Ao commendador Lourenço Tel- 
les, e ás innocentes netas, não descançou em 
quanto não lhes metteu a desgraça em casa e 
a desesperação na alma. Senhor Diogo de Men- 
donça, esta figura, que vê, foi o auctor do 
roubo da prata de Évora, o denunciante das 
minhas allegaçoes, o ladrão dos seus papeis, 
e o instigador do que succedeu no jardim do 
nosso amigo Lourenço Telles. Dez cabeças que 
tivesse, todas a justiça devia decepar-lhe ! 

O epiphonema foi pronunciado com tal ex- 
plosão de voz, que o devoto, mudo de susto, 
sentiu na garganta uma dor de ferro frio, e 
levou a mão ao pescoço como para o segurar 
contra a decapitação oral do frade. 

O ministro, que escutára attentamente, se- 
guia com a vista os movimentos do andador 
das almas, e com a reflexão um plano suscita- 
do de repente. 

Quando o procurador, enterrando os braços 
na manga até o cotovello, e tomando a respi- 
ração, concluiu o discurso, Diogo de Mendon- 
ça levantou-se, endireitou com socego a tira 
e os punhos, e disse com o seu costumado ar 
irónico: 

— Tens razão, padre mestre. O senhor Tho- 
mó para a sua edade parece-me sujeito de 
grandes esperanças. Ninguém se fórma em 
menos tempo. E' preciso procurar uma enca- 
dernação de luxo para tão completa encyclo- 
pedia de vicios. Aos cincoenta annos acho-o 
capaz de envenenar as fontes. 

O devoto teve ainda maior medo da serem- 



32 Empresa áa Historia de Portugal 

dade do secretario das mercês, do que das im- 
precações apopleticas do frade. 

Percebeu que os jesuitas o tinham entre- 
gado ; mas não achava entre as suas numero- 
sas virtudes aquella a que devia este premio 
não esperado. O rosto verdefullo arripiava-se 
de insultos nervosos, que o não tornavam na- 
da agradável; a bocca sabia-lhe a fel; e apezar 
dos frios de dezembro, a pelle de pergaminho 
borbulhava em suor, fazendo-se cada vez 
mais livida. 

N'este apuro deitou um olhar sonegado para 
a porta, mas viu-a fechada; correu a vista 
depois pela janella ; porém occorreu-lhe que 
sahir por ella sem azas seria o mesmo do que 
saltar das torres da Só abaixo. Amaldiçoando 
a cobiça que o mettêra n'esta gargalheira de 
ferro, resolveu-se a negar tudo, e, não poden- 
do, a vender os jesuitas, se conseguisse assim 
melhor evitar uma visita aos cárceres do 
santo offLcio. 

Entretanto Diogo de Mendonça admirava-o 
silencioso, como se fosse um animal curioso. 
O aprumo, a dissimulação, e a hypocrisia es- 
tanhada com que representára o seu papel, 
sem nunca se desmanchar, attrahiam-lhe o 
secreto louvor do ministro, hábil em conhecer 
e aproveitar os homens, mesmo os mais ruins. 

Voltando-se para o dominico, que n'este 
meio tempo juntára os massos de cartas pos- 
tos em cima da mesa, o secretario disse-lhe : 

— Ia apostar, frei João, que tens debaixo 
dos dedos um processo prompto, e que o se- 
nhor Thomó das Chagas ó o heroe d'elle ? A 
ver se acertei. Esses papeis são o processo do 
roubo de prata em Évora? 



— E' verdade! Mandou-n^os o padre Si- 
mões, que foi mestre d'este . . . servo de 
Deus ; e ao qual elle em recompensa deixou 
nu como Adão no paraizo . . . 

— Deixa as comparações biblicas, frei J oão ! 
Faz-me frio o teu Adão ; olha que estamos 
em dezembro ! . . . Perdoa a curiosidade ! E a 
historia da segunda edição dos teus libellos 
forenses ? Não me farás o favor de a contar ? 
Depois saberei o engenhoso methodo com 
que o senhor Thomé teve a bondade de me 
limpar os cofres, e, devassar os segredos. Cada 
coisa por sua vez ! 

«O dominico desmaiou um pouco, e não 
soube encobrir o sobresalto. Custava-lhe a 
revelar a simplicidade dos meios com que 
fora trahido, sobre tudo em presença do au- 
ctor. Comtudo venceu-se, e, estrangulando as 
palavras, redarguiu : 

— A historia ó curta. Cuidei que dictava a 
um escrevente, e havia dois. Este velhaco 
passava por não saber le# nem escrever ; con- 
fiei-me ; e elle de madrugada abria-me as ga- 
vetas e copiava-me os papeis. Mettia-se no 
meu quarto, e, escutando, acompanhava a lá- 
pis o que se escrevia para o levar a S. Roque. 

—Com effeito? O methodo era simples! 
Os grandes homens são todos assim ; distin- 
guem-se pela facilidade das ideias — accudiu o 
secretario.— Deixa ver ! Ah ! Eis as notas ori- 
ginaes do teu Sinon ? Quem diria, frei João, 
que tantos séculos depois de Homero te ha- 
viam de metter o cavallo de Troya dentro da 
cella ? . . . Tem boa lettra o senhor ^Thomé ! 
Uma lettra clara e firme. 

Apezar das mortificações do amor próprio, 

VIII— Á MOCIDADE DE D. JOÃO V — V 3 



34 



o frade não pôde conter o riso, ouvindo com- 
parar a sua aventura á do cavallo de Troya ! 
Mas o accesso de hilaridade foi breve. Diogo 
de Mendonça começava a ler alto a meia folha 
de papel, arrancada ao seu amigo, e é justo 
confessar que o milagreiro levára a consciên- 
cia do officio a ponto de não omittir nas partes 
de policia religiosa o trajo, o gesto, e as pa- 
lavras da victima, sujeita ao braço secular 
das suas observações. Kesultára d'este seu 
escrúpulo, que o pobre frei João, retratado 
em hábitos menores por um pincel atrevido, 
apparecia em posições e scenas capazes de des- 
afiarem as risadas de um penitente da The- 
baida. 

O secretario lia sem piedade, fustigando 
com as phrases articuladas de vagar a vaida- 
de do jurisconsulto, o qual, saltando na cadei- 
ra, torcia a bocca fingindo rir, e esbravejava 
interiormente, apunhalando o infeliz Thomó 
com a vista inflammada. 

-—«Sexta feira vinte nove de outubro— leu 
o ministro, figurando tomar a serio as momi- 
ees com que frei João simulava grandeza de 
alma—o reverendíssimo levantou-se em chi- 
nellas e bragas de dormir, principiando a dar 
passadas muito grandes pela casa, e a bater 
palmadas rijas na cabeça, fazendo-a encar- 
nada, que parecia uma papoula ; ao mesmo 
tempo falava só que parecia doido. . .» 

—Malvado !— barafustou o dominico, repri- 
mindo a custo um impeto de raiva contra o 
detractor, que se poz de joelhos, convulso, co- 
mo se lhe vestissem já a alva dos padecen- 
tes. 

—Paciência, frei João ! Sabes o que disse um 



Obras completa* de Ed>dlo da SUra 35 



homem engenhoso ? Não ha heroe que o pa- 
reça deante do seu lacaio ! Ri-te, que é o me- 
lhor. Vê o que eu faço. 

—Mas o desaforo de me pintar . . . 

— Fresco de mais ? Então ? ! Mais ligeira se 
retrata a verdade, fígurando-a nua. Só te não 
invejo o passeio . . . sobre tudo em outubro. 
Malditos arcos foram aquelles . . . Vamos ! 
Continuemos. «Passado um boccado, o reveren- 
díssimo (leu o ministro) disse muito alto : eu 
é que sou tolo ! A minha vontade era respon- 
der-lhe de dentro que sim, mas para obedecer 
a vossas paternidades calei-me, rindo com 
gosto por elle confessar uma verdade, que to- 
dos sabem ...» 

—-Rindo com gosto ! . . . patife!— clamou o 
frade, dando um pulo, 

O supplicio excedia as forças da victima. 
O procurador, apezar dos tregeitos mais for- 
çados para encobrir a indignação, não podia 
conter-se, sentindo na cútis os piparotes saty- 
ricos do milagreiro. 

Os olhos injectados, as faces entumecidas, e 
os dentes cerrados, advertiram a Diogo de 
Mendonça de que seria perigoso proseguir no 
gracejo. Tractado de maníaco ede parvo por 
um sabujo: exposto á irrisão e ás apupadas dos 
jesuítas por este libello quotidiano, que era 
ofac-simile burlesco de suas palavras e acções; 
e constrangido ainda por cima a servir de al- 
goz ao amor próprio, o desditoso frei João pe- 
dia secretamente a Deus todos os martyrios 
para punir a perlidia e a impudência do de- 
voto. 

N^quelle momento (elle tão bom de índo- 
le!) sentia-se com animo de o ver esquarteja]- 



3G Empresa ãa Historia Se Portugal 



a quatro cavallos. O riso sardónico do diplo- 
mata ainda o irritava mais. Recebendo o fatal 
papel de suas mãos, amassou-o e pizou-o aos 
pós. Diogo de Mendonça dizia depois, que se- 
ria dificultoso decidir quem padecia mais 
n'aquella hora, se o bonzo apanhado em fla- 
grante, se o padre mestre exasperado com a 
ideia dos chascos e risadas de que fora alvo 
em S. Roque, graças ás delações do senhor 
Thomé. 

—Grande coisa fez o nosso devoto aos pa- 
dres da companhia !— notou o ministro com 
ar pensativo— Vejo voltadas contra elle todas 
as baterias. O padre Ventura foi quem te deu 
isso ? Ousta-me a conceber que um homem 
da sua habilidade quebrasse de repente este 
instrumento util... Queira Deus que não 
achasse melhor ! Agora sou eu que entro em 
scena. O senhor Thomé não ha de negar-me o 
favor de me dizer se foi por ordem de Roque 
Monteiro que tirou os papeis. Pôde falar sem 
susto. No meio das suas iras o padre mestre 
não ó tão mau como parece ; e eu passo por 
ser bom de mais. Roque Monteiro tentou-o ? 
Diga, diga ! Aonde lhe falou ? 

— Ao sahir dos quartos de vossa senhoria 
—replicou o milagreiro um pouco desengas- 
gado pelas maneiras socegadas do secretario. 

—Quantas vezes ? 

— Tres. 

— Quanto recebeu pelo . . . serviço que fios 
fez? 

— Tresentas moedas. 

— A quem as entregou? . . . Fale a verdade. 
Jíão tem outra porta por onde so salve. 
*-*A' tiaPerpetua. 



Obras completa* àr Rehdlo da 8U*a 37 



—Não conheço. 

—Conheço eu !— gritou frei João, ergueu- 
do-se tremulo da ira reprezada — E' uma hy- 
pocrita, engommadeira da roupa dos jesuítas 
em Évora, e capa d'este velhaco, Enganou- 
me redondamente. A esta hora não nos esca- 
pa. Ha de já estar na inquisição, accusada de 
desinquientar donzellas honestas com feitiços 
e quebrantos. 

Ouvindo esta nova aterradora, Thomé aper- 
tou as mãos na cabeça, e abriu a bocca sem 
poder articular uma palavra. Estava cor da 
cidra, e tremia como um cannaveal açoutado 
pelo vento. 

— Fizeste mal em metter a velha no santo 
officio— accudiu o ministro, falando ao ouvi- 
do do padre mestre— E' preciso não fazermos 
da religião o que ella não ó, arma de vingan- 
ças fradescas. Senhor Thomé ! . . . Tudo tem 
remédio, menos a morte. Eespire! Vossa mer- 
cê, que tem boa memoria, ha de lembrar-se 
do modo por que deu com o segredo do meu 
cofre, e soube aonde escondi a chave ? 

—Foi n'um dia de missa, depois do serviço 
divino — redarguiu o andador ainda convulso 
—Vi a vossa senhoria procurando na sua es- 
tante, e trazendo d'aquelle sitio ama chave. A 
porta estava encruzada e . . . espreitei. Como 
o senhor Roque Monteiro me tinha posto ao 
corrente dos signaes da caixa, e ensinado a 
tirar os pregos . . . 

—Pouco lhe custou o mais ? Agradeço-lhe 
a lição, e asseguro-lhe que não me ha de es- 
quecer. Uma palavra ! Quem disse ao senhor 
padre Ventura ? . . . 

—Fui eu— replicou o milagreiro, encolhen- 



38 Kmprtza da Historia de Portugal 



do-se como se visse desabar e tecto— Sua pa- 
ternidade sabia já de tudo, e mandou-me que 
antes de levar os papeis ao senhor Roque 
Monteiro lh'os mostrasse primeiro a elle. 

—Basta. Dou por concluido o relatório. 
Tractemos agora da sua segurança, porque 
vossa mercê está em grande perigo . . .-—con- 
tinuou o ministro, fazendo com a vista serena 
sumir o devoto pelo chão abaixo— Fale-ine 
com sinceridade. Roque Monteiro deixou-lhe 
nas mãos algum papel, que possa servir-me 
de prova? 

— Nenhum. Pagou-me, e não o vi mais. 

— Assim o suppunha. 

—Mas se vossa senhoria deseja molestal-o, 
sei de um crime d/elle; quero dizer, sabe-o o 
senhor padre Ventura pelo confessor de el-rei, 
que Deus tem em gloria. 

—Como é dotado de ouvido fino, natural- 
mente escutou; tem pouco mais ou menos 
ideias do que ó ? 

—Ouvi falar os dois de certas luvas no 
tractado com os Inglezes. 

— O tractado de Methwen? 

—Esse mesmo. 

—Sabe se ha cartas, ou papeis? 

—Ha, sim senhor. O padre Sebastião entre- 
gou-as por signal ao visitador. 

— Muito bem. Perdôo-lhe o mal que me fez 
pela noticia que me dá. Frei João também se 
não lembrará mais de vossa mercê, Deixe-o 
dizer que não; respondo eu. Mas com uma 
condição . . . 

O milagreiro afilou as orelhas, e extendeu 
a cabeça. 

— Dentro de vinte © quatro horas yos3a 



Obran completas de Bebdlo da 8ileá 39 



mercê parte para Angola em um navio de el- 
rei ; vai n'elle cumprir o degredo voluntário 
de dez annos a que o condemno, em castigo 
do roubo da prata de Évora.-, percebe? Se, 
oito minutos depois da embarcação levantar 
ferro, for achado em Lisboa, ou a beata que o 
senhor frei João a rogos meu mandará soltar 
do santo officio, pôde ficar certo de que os en- 
trego ao juiz do crime e ao carcereiro da ci- 
dade. Serve-lhe o partido? 

—Se fosse permittido demorar-me tres 
dias...tres dias só! — murmurou Thomé re- 
cobrando animo, com a magnanimidade do 
ministro. 

—Nem tres horas ! Os seus negócios parece- 
me que se arranjam em quarenta e oito mi- 
nutos. Acredite-me; metta quanto antes o 
mar de permeio. E* mais seguro. 

—Eu estava para mudar de estado; casava- 
me ámanhã . . . — observou o devoto com o seu 
tiple compungido e lacrimoso. 

—A bordo, a bordo! Tenho muito receio 
dos heroes prolificos. Um só Thomé das Cha- 
gas deu-nos tanto que fazer, o que seriam 
muitos? Case se quizer, mas no mar alto, 
ou na costa de Africa. Em Portugal só na 
cadeia . . . 

—Então vou preso ?- -perguntou o mila- 
greiro submisso. 

—Não senhor. Leva ordens de sua magesta- 
de para o capitão general. Pôde estar certo 
de que em sahindo a barra não lhe succede 
mal. Retire-se ! Aconselho-o ainda a que não 
volte, mesmo no fim dos dez annos, se não 
se der mal, sobretudo sabendo que me acha 
vivo. Ha coisas que é perigoso não deixar es- 



40 Empreza da Historia de Portugal 



quecer de iodo . . . Boa viagem, senhor Thomé. 
Case e seja feliz ! Milciades . . . vae com esse 
senhor até á rua, e acompanha-o. 

—Se o queres livre, deixa-me escrever duas 
palavras ... Os familiares da inquisição esta- 
vam á espera d'elle. 

— Ah, padre mestre— replicou o diplomata 
rindo— bem diz o adagio, que não ha odio 
peor do que odio de frade! 

—Aqui está o papel. Que o mostre; é o que 
basta . . . Estás satisfeito? 

— Mais do que tu. Sempre tomaste á serio 
o papel de tyranno ? ! Não cuidei. 

O andador das almas sahiu emfim, dando 
parabéns á fortuna por escapar da aventura 
só com um passeio ás possessões ultramarinas. 
Apenas a porta se fechou, e os dois ficaram 
sós, o dominico, virando-se para o secretario 
das mercês, disse-lhe encarando-o com aspe- 
cto irritado: 

—Agora espero que me explicarás o fim 
doesta comedia ! 

— Foi um acto de prudência, que, em passan- 
do a cólera, has de approvar. Não vês que este 
homem preso havia de falar, e que o segredo 
que está hoje entre cinco correria os auditó- 
rios da corte com prejuizo nosso, e de gran- 
des negócios, que uma leviandade compro- 
mettia? Ficamos livres d'elle do mesmo modo, 
mas sem estrépito. Pensas que a justiça man- 
dava enforcar o bonzo ? 

-—Oh ! pelo santo officio fico eu ! 

—Frei João, as pessoas como nós castigam 
e não se vingam. Se imaginasse que similhan- 
te reptil podia offender-me, envergonhava- 
me, e formava de mim bem triste opinião ! 



Obras completas de Eebdlo âa Silva 41 



l)eixal-o ir ! A costa d' Africa o ensinará 
e se desejas, por força, mais do que uma puni- 
ção earidosa, como elle vae casar, não lhe 
queiras outro flagello . . . Figuras assim reser- 
va-as a providencia para exemplo. Estavas 
para sahir; aonde era a visita ? 

—A S. Roque. Has de saber já que tens 
collega novo. O padre Sebastião de Maga- 
lhães, confessor que foi de el-rei D. Pedro . . . 

—Parte hoje de tarde para Santarém com 
ordem de não voltar á corte sem licença. 

— Como ? Pois ainda hontem, sahindo do 
palácio, passou por aqui, e disse-me ? . . . 

— Se o ias ver, manda apear a sege, é o meu 
conselho. O padre Sebastião sonhou esta noi- 
te que era ministro, e accordou esta manhã 
hortelão e deportado. 

—Não entendo. 

— Eu me explico. El-rei mandou-o chamar 
hontem, e pediu-lhe certos papeis de estado 
de seu augusto pae. O padre inchou-se com 
algumas palavras de agrado, e D. João v, ami- 
go de rir, deu-lhe a beber tanto d'esse néctar, 
que o deixou perdido da cabeça. Sangrado na 
loquacidade, o homem da roupeta desatou a 
língua, e suppõe-se que revelou segredos im- 
portantes, em que até elle mesmo não figura- 
va bem. Sua magestade á despedida assegu- 
rou-lhe que se não esqueceria de utilizar o seu 
zelo no serviço do estado, conferindo-lhe um 
logar próprio dos seus grandes conhecimen- 
tos; o Sebastião de Magalhães teve a cruelda- 
de de professar o seu plano politico em audi- 
ência particular. O sermão durou perto de 
uma hora ; vê como não estaria el-rei ! Apenas 
sahiu do paço, e se apeou em S. Roque, prin- 



42 



Empresa da Historia de Portugal 



cipiou a promettér despachos, e a tomar in- 
formações com ares de satrapa. Encheu-se-lhe 
a cella de gente, espalhou-se a noticia de que 
o confessor passava a primeiro ministro ; e só 
o padre Ventura, sorrindo-se, teve a caridade 
de o aconselhar a ser prudente ; porém elle, 
soberbo com as esperanças, deu-lhe a enten- 
der que o mandaria sahir de Portugal apenas 
governasse ! . . . Aposto que não veiu aqui sem 
te offerecer a sua protecção ? . , . 

— Justamente. Propoz-me o logar de mestre 
do senhor infante D. Antonio, não o nego. 

-E tu? 

— Eu ! . . . por me occupar . . . 

— Acceitavas? muito bem; falaremos de 
isso . . . A's vezes ha sonhos verdadeiros. Ouve 
agora o resto da historia. Esta manhã, seriam 
dez horas, o padre Sebastião estava impacien- 
te pelo recado do paço, e n'uma roda de padres 
e de seculares não se calava com as reformas 
que havia de introduzir no seu ministério. 
ÍTisto abre-so a porta, e entregam-lhe um 
officio. — E 1 a minha nomeação — exclamou 
elle cheio de jubilo. Rompe o sello á pressa, 
lê, e quasi que perde os sentidos! Imagina o 
que diria o infausto papel? 

— Era uma ordem de desterro ? 

— Sim ; mas com que zombaria ! Sua mages- 
tade, attendendo ao zelo do padre Sebastião 
de Magalhães pelos progressos da agricultu- 
ra, encarregou-o de fazer o recenseamento 
dos olivaes de Santarém, dando conta mensal 
do estado d 7 elles, e visitando-os para isso dia- 
riamente. 

— Despachou-o primeiro ministro da arvo- 
re de Minerva? 



Obras completas de Rébello da Siltxi 



43 



— Tenho dó, coitado . . . 

— Também eu. Frei João, vou ao paço. Com 
que, para te occupares, sempre acceitas o lo- 
gar de mestre do infante? 

— Podendo ser. 

— Deus ó grande ! Até logo. 

E sahindo com a mesma exclamação, que 
fazia comsigo o senhor Thomó das Chagas 
antes do seu desastre, o ministro deixou o 
padre mestre abysmado em profundas refle- 
xões. 



CAPITULO XXXIX 
Depois das causas os effeitos ! 

Sahindo de S. Roque pelas dez horas da 
manhan, o padre Ventura trazia o semblante 
mais carregado do que era costume. 

O sorriso escondia-se-lhe nos beiços, e a 
reflexão extendia-lhe a miúdo um véu sobre 
a larga fronte. Baixos e pensativos, os olhos 
mostravam que o espirito não estava alli todo 
com o corpo ; mas corria longe d^lle em uma 
d^quellas meditações protundas, que são mais 
de metade da vida dos homens intellectuaes. 
Quem de perto conhecesse o visitador, e tives- 
se presentes as suas maneiras, não precisaria 
de grande exame para se convencer de que elle 
andava preoccupado com negócios de impor- 
tância. 

O jesuita desceu de vagar a calçada do Car- 
mo, pouco mais ou menos, no mesmo sitio por 
onde nós trepamos hoje a empinada rampa, 



44 Empreza da Historia de Fortagil 



que sobreviveu ao terramoto ; e dirigiu-se a 
Santo Antão, passando por S. Domingos, para 
dizer duas palavras ao mestre frei João dos 
Remédios. No caminho, e de repente, deu de 
rosto com o padre Simões, que vinha do col- 
legio a procural-o, e ficou satisfeitíssimo de 
o encontrar, a dois terços da subida do calvá- 
rio. 

— Agora mesmo ia eu ver a vossa paterni- 
dade ! — disse o italiano, recuperando por um 
esforço de vontade o sereno aspecto e o riso 
fino, mascara usual dos pensamentos. 

• — Também eu ! Sahi de Santo Antão para 
communicar a vossa paternidade . . . 

— Louvado Deus, que nos ajuntou ! Um an- 
tigo tirava d'isto favorável agoiro. Que novi- 
dades temos, padre Simões? 

— As cartas de Roma e de Hespanha, rece- 
bidas ha meia hora, dizem . . . Em verdade 
vejo-as tão obscuras, que não as entendo. 

— Apezar da sua critica? Grande meada 
então ! Mas perdoe ; o que não acha claro nas 
suas noticias ? 

—O geral desappareceu, saiba vossa paterni- 
dade ! Em Roma cuidam que está em Hespa- 
nha ; de Hespanha escrevem que o julgam em 
Roma, ou pelo menos em Itália. E o peor é... 

— Não estar elle talvez em nenhuma das 
partes ? Não suppondo que os deuses o arre- 
batassem como -a Rómulo, o que conclue vos- 
sa paternidade de tudo isso ? 

— Padre visitador, eu não concluo, limito- 
me a recear alguma desgraça. Esta ausência 
inexplicável. . . 

—Não diga tal. Tudo se explica cedo ou 
tarde. Menos cuidado, e mais grandeza de al- 



Obras completas de RebeMo da Silva 45 

ma, meu padre Simões! Dentro de tres ou 
quatro dias talvez o segredo se rompa, e nós 
sejamos os primeiros a sabel-o . . . 

—Deus permitta ! Entretanto vossa pater- 
nidade deve ter noticia de que el-rei começa 
o seu governo, mostrando-se pouco affeiçoa- 
do á companhia. O padre superior, ámanhã, 
diz-se que receberá ordem para sahir da pro- 
víncia de Portugal ! 

— E' verdade. O alvará que o extermina 
d'estes reinos está lavrado ! 

— E vossa paternidade não julga que uma 
ordem barbara e despótica . . . 

— Não fale alto dos actos de sua magestade, 
padre Simões ! As paredes têem ouvidos . . . 
Vossa paternidade é prudente e sábio, e não 
está moço ; antes de vestir a nossa roupeta 
viveu no mundo. Ora bem ! Frequentou mui- 
to a corte ; e eu, atrevendo-me áquelles ma- 
res, ainda hoje me dava por ditoso se tivesse 
tão bom piloto para me guiar. 

—Agradeço infinitamente, padre visitador ; 
mas noto pelas suas palavras, que o successo 
lhe não causa estranheza . . . 

— Quer que fale com sinceridade ? Espera- 
va-o ha muito ! A companhia não deve pre- 
ferir os homens á sociedade. O provincial, 
zeloso do serviço de Deus íractou do litigio 
dos quindennios com a cúria. A's escondidas 
de el-rei e do seu conselho de'estado compoz- 
se e obrou bem quanto a nós, e mal quanto 
ao governo. A coroa disse que não pagásse- 
mos, que ella nos sustentaria ; de Roma, que 
está mais perto do santo padre, o geral tinha 
ordenado o contrario, avisando que a nomea- 
ção de vigário» apostólicos ia ser passada aos 



46 JSmpr&a ãa Historia àe Portugal 

nossos padres ! . . . Uma coisa vale a outra, 
dizia elle ! O senhor D. Pedro n (que Deus 
haja) perdeu a partida, porque não foi obede- 
cido ; e tinha razão de se offender ; mas tam- 
bém me parece claro como o dia, que as 
egrejas do oriente ficaram nossas a todos os 
respeitos . . . Agora vem o senhor D. João v, 
grande príncipe, temente a Deus, e sua ma- 
gestade que é moço, e quer reinar . . . enten- 
deu que precisava dar um exemplo á cúria e 
á companhia ? Paciência ! O direito assiste- 
lhe, e não nos achamos isentos de toda a cul- 
pa para termos voz activa . . . 

—Então vossa paternidade approva o ex- 
termínio do superior ? . . . 

— Padre Simões, não approvo, lamento ! O 
virtuoso sacrifício do provincial ó louvável ; 
estou certo de que lhe ha de ser levado em 
conta. Quanto á responsabilidade. . . bem vè! 
Grande logar, grande queda. Cahiu no seu 
posto. O meu voto, e as ordens que tenho, 
prescrevem-me plena obediência aos actos de 
el-rei. Sua magestade ó o senhor; manda, 
porque pôde ; e a nós cumpre-nos sermos exe- 
cutores passivos sem murmuração. 

— Se entendi bem, as ordens contra o supe- 
rior não prejudicam os regimentos que el-rei 
D. Pedro, por suggestão do padre Magalhães, 
tinha aprovado, e deixou por assignar?— 
perguntou o velho casuista da companhia, 
cujo sorriso cauto, cujo olhar penetrante di- 
zia ao mesmo tempo ao visitador, que ia per- 
cebendo a vantagem da politica decisiva por 
elle exposta no consistório secreto, e depois 
dirigida com tanta habilidade. 

— Nada! El-rei cleu uma demonstração ao 



Obras completas de Rébello da Silva 



47 



provincial, porque o achou comprometfcido 
em uma offensa contra a coroa; quanto á 
companhia estima-a, préza os seus serviços, 
e ordena-lhe que os continue. Os regimentos 
vâo assignar-se, e serão expedidos ; os nossos 
privilégios do Brasil estão confirmados, e são 
ampliados pela magnanimidade regia. Agora, 
sim, podemos dizer sem receio que as mis- 
sões da America nos hão de conquistar maior 
império do que a Europa toda, se as souber- 
mos aproveitar ! Sequestrando os indios mais 
cincoenta annos ás novidades da falsa philo- 
sophia, e ás tentações dos vicios de fóra, te- 
mos tempo para fazer d'elles homens, e arrai- 
garmos o nosso domínio no seu coração pela 
caridade e amor do nosso governo, pela ins- 
trucção gradual da nossa doutrina . . . Padre 
Simões, (aqui entre nós, e tão baixo, que só 
Deus nos oiça!) na Europa tudo vai cahindo 
de velho. Duvido que ature um século. Os 
reis e os ministros ó natural que, sentindo 
fugir o chão, tractem de segurar-se. Não se- 
guram. A guerra principal, digo-lh'o eu, por 
inveja e por maldade ha de ser contra a com- 
panhia, mais anno, menos anno. Se nos unís- 
semos todos ficávamos de pé; separados e 
discordes, um terceiro comerá a ostra, e dará 
as conchas por escarneo aos combatentes ! . . . 
Não importa ! Resta-nos a America, um mun- 
do novo, aonde seremos apóstolos e monar- 
chas. Expulsos do meio dia, como já o fomos 
do norte, passaremos o mar ; quero ver se as 
nossas leis e o nosso poder não resistem mais 
do que as leis e os soldados d'elles! Aqui 
está a razão que me faz tomar grande interes- 
so pelas missões do Brazil, do Perú e do Mo- 



48 Empreza da Historia de Portugal 



xico. Os privilégios concedidos e ampliados 
sâo as verdadeiras praças de guerra da socie- 
dade de Jesus. Obtidos elles (e não era pouco 
difficil) trabalhemos de modo que um dia, se 
tentarem suspendel-os ou revogal-os, já não 
possam. E isto, sabendo-se levar os povos e 
os gentios, custa menos do que descobrir a 
America, como Colombo, ou conquistar o 
México, como Cortez . . . Note que elles vi- 
nham de fóra, e que nós estamos de den- 
tro ! . . . Bem vê ! Entre um mal comparativa- 
mente pequeno, o extermínio do principal e 
a publicação dos regimentos, que são promes- 
sa de gloria, de força e de futuro para o ins- 
tituto, e para milhões de almas regeneradas 
pela graça do baptismo e da. civilização, ergo 
as mãos ao céu, e dou-lhe immensas graças 
pela grande victoria que acabamos de alcan- 
çar. Nunca se ganhou tanto com menos perda! 

— Eu não tinha visto as coisas por esse 
lado. E não admira ! O plano era de vossa pa- 
ternidade, e a execução sua foi também. Igno- 
rava que os regimentos se publicavam . . . 
Parabéns a vossa paternidade e á companhia ! 
Foi curta a campanha . . . 

— Mas bastante trabalhosa— accudiu o italia- 
no com o ar insinuante que lhe era próprio.— 
Sem soberba protesto-lhe que alguns passos 
se deram, e algumas noites se perderam. Pa- 
dre Simões, os nossos inimigos eram mais do 
que os amigos ; grande mal ! Emíim a batalha 
deu-se ; e depois de enterrados os mortos e 
de curados os feridos falaremos do premio 
que pertence aos vivos. . . 

— Ao general sobre tudo !— atalhou o padro 
Simões com mspeito. 



Obras completas àe Rebdlo da Silva 49 



—O geneial está pago com a victoria!. . . 
Mais de vagar tractaremos (Testa e de outras 
coisas. Não se assuste no emtanto com a au- 
sência do geraL . . elle apparecerá ! Quer al- 
gum recado para S. Domingos? 

—Que vossa paternidade chegue bem, e se- 
ja feliz. Já que estou ao pé subo a S. Roque 
para dizer adeus aos nossos padres. 

—Pois sim. Todos o estimam, e merece-o. 
Ató á vista. 

O visitador chegou á portaria de S. Domin- 
gos meia hora depois da sahida de Diogo de 
Mendonça, e da acareação do senhor Thomó 
das Chagas com as suas delações epistolares. 

Entrando na cella de irei João encontrou o 
reverendissimo ainda despeitado da scona an- 
terior. O douto mestre em cânones tinha um 
enorme volume aberto deante de si, e os olhos 
fitos n'elle ; mas era fácil perceber que a sua 
attenção não estava alli, viajando talvez em 
companhia do secretario das mercês ou do 
milagreiro, arrancado por um rasgo de pru- 
dência á sua vindicta. 

— Pax Christi, domine reverenãissime!—ài§- 
se da porta cruzada, depois de deitar a cabe- 
ça, o padre Ventura com a sua pausada voz. 

—Entre— replicou laconicamente o préga- 
dor, virando a cara. A' vista do jesuita, an- 
tigo adversário , e alliado actual, o dominico 
mostrou-se satisfeito, e levantando-se foi re- 
cebel-o com amizade. 

—Vossa paternidade por aqui ! Não contai 
va com essa fortuna . . . 

—Causo incommodo ? Vim interromper os 
seus estudos ? !— accudiu o visitador, corres- 
pondendo ás demonstrações de frei João, e 

VIII — A MOCIDADE D3 D. JOÃO V — V 4 



50 Em preza da Historia dc Portugal 

deixando-se conduzir para a fofa e ampla ca- 
deira de braços, collocada defronte da poltro- 
na do jurisconsulto. 

Não senhor. Vossa paternidade, como sem- 
pre, traz a alegria a esta sua casa. Não adivi- 
nha quem sahiu agora mesmo ? 

—O abbade Silva, talvez, com algum dos 
seus rarissimos e preciosos manuscriptos ? — 
notou o jesuita, sorrindo-se maliciosamente. 

— Não, graças a Deus ! foi o senhor Diogo 
de Mendonça, e contou-me coisas que estava 
longe de suppor. 

— A respeito ? 

—Sobre a anecdota do padre Sebastião de 
Magalhães . . . 

•—Ah, coitado! Por mais que o preveni, não 
quiz acreditar-me. Parte esta tarde para San- 
tarém ; terra de bons ares e de bonitas vistas! 
Ha de dar-se bem . . . Tem visto o senhor Lou- 
renço Telles desde as melhoras de Cecilia? . . . 

— Nada. E fim de anno, e os negócios do con- 
vento prenderam-me de tal modo ! . . . 

— Escuso perguntar-lhe, então, por noticias 
de D. Catharina de Athaide. A morte de el- 
rei demorou o seu casamento, segundo me dis- 
seram ; faz-se para o mez que vem. 

— E verdade. E o conde de Aveiras queixa- 
se amargamente do transtorno! Está cada vez 
mais namorado. Diga-me vossa paternidade : 
o que ó feito de Jeronymo Guerreiro? Since- 
ramente dá-me cuidado. São passados tantos 
dias que desappareceu sem haver noticias !... 
Faz-me scismar ! 

— Já perguntou ao senhor Diogo de Men- 
donça ? 

—De certo. 



Obra» completas de Eehãlo ãa SftfHi 



51 



— E elle?... 

—Encolheu os hombros, deixou cahir duas 
ou tres phrases sibyllinas, e, com o sorriso que 
lhe conhece, descartou-se, appellando para o 
chavão costumado dos segredos de estado. 

—Quer dizer: deixou-o ás escuras. 

—Ou mais, se ó possivel! Estes diplomáti- 
cos de tudo fazem mysterio ; com um grão de 
areia levantam uma montanha. Deus me não 
mate ao pó d 9 elles, 

— E que no caso presente— observou o je- 
suita, pondo-se serio— a montanha existe, e 
muito escabrosa por signal ! 

— Então Jeronymo não foi ao exercito como 
se disse : succedeu-lhe alguma cousa ? — excla- 
mou o dominico sobresaltado, porque era ami- 
go do capitão, e apezar de frade tinha o cora- 
ção quente e o zelo prompto. 

—Se chegar a essa janella, e olhar para o 
Castello vê o sitio aonde elle está preso desde 
aquella triste noite . . . Bem vê que a monta- 
nha não é baixa, nem fácil de subir. 

— Preso ! ?— gritou irei João, apertando as 
mãos com anciedade —Preso ! ? E nós sem sa- 
bermos nada! E porque? 

— Pelos papeis que lhe mandei veria vossa 
reverendíssima que a doença de Cecília foi 
mais grave do que se quiz figurar a Lourenço 
Telles, em attenção á sua edade. Um dos ho- 
mens que estava no jardim, e por uma des- 
graçada casualidade não afastou a espada a 
tempo, era Jeronyrno. Cecilia recebeu o golpe 
d'elle! 

— Santo Deus ! . . . Mas o que ia elle fazer a 
esse maldito jardim, não me dirá?— bradou o 
padre que a amizade ea impaciência agitavam. 



52 



"Empresa da Historia de Portugal 



—Como os ciosos e os doidos ia cavar a sua 
ruina!— respondeu o jesuíta com melancholia, 

— Então a culpa e grave ? 

— A culpa não ; a parte sim. O inimigo que 
o accusa, e que duvido lhe perdoe, é o mais 
poderoso do reino . . V 

— Em Portugal ha leis, senhor padre Ven- 
tura, e ministros que as lêem e executam !— 
atalhou o dominico enehendo-se de animo, e 
passeando com magestade para encobrir o ter- 
ror causado pelas palavras do jesuita. 

—Em toda a parte as ha, senhor frei João ! 
— redarguiu este muito sereno. — E quanto 
mais leis, peior para os governados ! Mas có- 
digos que salvem a vida e a honra do Vassal- 
lo, quando o rei se faz seu accusador . . . 

— O rei ?— exclamou o procurador, mudan- 
do de cor, e suspendendo de repente o giro 
pori-papetico, varado pela allusão. 

— À outra pessoa de fora que estava no jar- 
dim, e que Jeronyrno também feriu, era o prín- 
cipe real, hoje, por graça de Deus o senhor D. 
João v, nosso senhor. 

—Misericórdia divina ! Um crime de lesa- 
magestade de primeira cabeça ! . . . E vossa 
paternidade a dizer-me que a culpa não era 
grave ! . . . Na Itália será moda passar os prín- 
cipes ás estocadas ? 

O pobre frei João estava tão afflicto e desa- 
cordado, que se virava contra o jesuita. 

— Na Itália é costume não escalarem prin- 
cipes de noite os jardins dos vassallos ; e se 
algum, esquecido da sua jerarchia, ao saltar 
cahisse sobre a ponta de um florete, curava- 
se, e calava-se. Quem embarca está sujeito a 
naufragar. 



Obra* 



8Uva 



53 



— Mas que necessidade tinha Jeronynio de 
se metter no que não lhe importa?— gritou o 
frade acceso, levantando os braços. 

—Naturalmente a mesma que vossa reve- 
rendíssima, achando um ladrão dentro da cel- 
la !— observou o visitador sem se alterar. 

Frei João estacou, fitando os olhos pasma- 
dos no arguente. Depois assentou-se, e cor- 
rendo a mão pela testa, accrescentou com um 
suspiro : 

— N'isto ha um nó que não posso desatar ! 
Jeronymo, um rapaz dejuizo, não alçava o 
braço contra o seu principe, se soubesse que 
era elle. Resta-me esta esperança. 

— Perea-a. Jeronymo sabia que era sua al- 
teza ! — accudiu o italiano— Mas sua alteza é 
que se metteu pela espada. Hoje pouco im- 
porta o que foi ; desgraçadamente o que pô- 
de ser é que nos deve dar cuidado. 

—Outra explicação ainda, padre visitador ! 
— interrompeu o dominico com abatimento — 
O principe não ia á meia noite ao jardim de 
Lourenço Telles sem motivo: nem Jeronymo 
lhe fazia uma espera por divertimento. Receio 
calamidades ainda maiores ; Thereza é altiva 
de génio, e formosa, sempre lhe conheci incli- 
nação . . . 

— Não arrisque juizos temerários, senhor 
frei João ! sua alteza nunca viu, nem amou 
Thereza. Esse foi o engano de Jeronymo ; e 
por elle está padecendo. 

—Então era Cecilia ? 

—Pelo amor de Deus, padre mestre! Não 
se metta no labyrintho das conjecturas, que 
se perde. O segredo está no peito cio principe; 
e não será fácil arrancar-lh'o. De mais, o mal 



54 Empresa 8a Historia de Portugal 



feito não tem remédio. Sabe a que vim aqui 
confiado na sua bondada ? 

Frei João cada vez mais perplexo acenou 
com a cabeça que não. 

—Depois da sua prisão, persuadido de 
que era o amor de Thereza que chamára el- 
rei— proseguiu o jesuíta— Jeronymo cahiu 
íVuma prostração profunda, de que não se ti- 
ra senão para chorar como uma criança, ou 
para entrar em convulsões de raiva, e em 
clamores de desesperação. Etn duas palavras, 
está perdido e morto so não o soccorrermos. 
O medico protesta que não ha forças que re- 
sistam a similhante estado por muito tempo. 
Quer vossa reverendíssima ajudar-me n'uma 
obra de caridade? Presta-me o seu auxilio 
para tentarmos o único remédio capaz de o 
salvar ? 

—Estou prompto; com mil vontades— dis- 
so o procurador erguendo-se com os olhos 
arrazados de agua— Ninguém se interessa 
mais por elle. Ajudei-o a crear, ensinei-lhe o 
seu latim e a sua philosophia, esforcei-me 
por lhe cultivar o espirito e o coração . . . Ve- 
ja se não o devo estimar ! No amor ó meu fi- 
lho adoptivo, padre visitador ! .. . Para o sal- 
var, se fosse preciso, ia metter-me no rio 
mesmo em dezembro . . . 

—Muito menos basta, senhor frei João^- 
accudiu o jesuíta sorrindo— sem arriscarmos 
em um banho de gelo a sua vida e saúde, que 
ó preciosa, confio que tudo se alcançará. 
Vossa^reverendíssima quer ter a caridade de 
ir n'ama sege á rua das Arcas, e de acompa- 
nhar Cecília e Thereza ao Castello e á prisão? 
Estão promptas ; preveni-as ; o só esperam 



Obras completas de Bebdlo da Silva 



55 



pela stia presença. Seria bom que Lourenço 
Telles e o resto da família não suspeitassem 
nada . . . Qualquer pretexto servirá. No em- 
tanto vou dispor o nosso enfermo ; e com a 
ajuda de Deus esta noite teremos homem . . . 

—Em um instante vou. Direi a Lourenço 
Telles que as meninas vóm commigo pagar 
uma promessapela milagrosa cura de Cecília... 
N'estes casos a mentira é quasi uma virtude. 

—Optimamente ! A uma pessoa dos annos, 
caracter e respeito de vossa reverendíssima, 
elle não terá duvida em as confiar . . . Não 
posso demorar-me ; vou ao Castello cumprir 
as obras de misericórdia . . . 

—Visitando os enfermos e encarcerados? 
Muito bem! D 'aqui a uma hora eu e as me- 
ninas estaremos a seus pés. 

—Não esperava outra coisa da piedade ze- 
losa de vossa reverendissima. Até logo. 

Em quanto o iesuita pensativo e vagaroso 
se encaminha ao castello, e frei João alterado 
se apressa em direcção á casa de Lourenço 
Telles, entremos na prisão de Jeronymo, 
cPonde se retirava mais satisfeito das suas 
diligencias o corregedor do crime do bairro 
do Rocio, Caetano da Silva Sotto Maior. 

O Camões tinha sido encarregado por el- 
rei de instruir secretamente o processo do 
capitão, o de penetrar o motivo do seu en- 
contro com o príncipe. O senhor D. João v 
não fazia caso da offensa feita á sua pessoa 
pelas armas do mancebo ; duellista por incli- 
nação, dado a aventuras, a esperas, e a galan- 
teios nocturnos, estava muito acostumado a 
dar e a receber cutiladas á esquinâ, ou nas 
encruzilhadas das ruas, para converter em 



5 



56 Emproa da Historia de Portugal 

crime de lesa-magestade um passe de espada 
preta. 

A verdadeira causa do seu rigor era diversa. 
A injuria do monarcha servia de pretexto aos 
zelos do amante. O sangue de Cecilia correra 
deante d'olle ; e para o vingar era-lhe licito 
empregar o cutelo das leis, já que a grande- 
za do throno lhe não permittia obter o desag- 
gravo por suas mãos ! Mas até no meio dos 
transportes, e dos juramentos que lhe escapa- 
vam contra o mancebo, o sèu coração aceusa- 
va-o, e a voz da justiça fazia-o estremecer ! 

Nascera rei, com uma alma nobre e egual 
á dignidade. Em toda as acções passadas, des- 
vanecido o primeiro impoto, não sabia sahir 
dos lances difficultuosos senão pela porta que 
preferem os grandes príncipes, e ignoram os 
tyrannos ; vingava-se triumphando pela cle- 
mência e pela magnanimidade ! No verdor da 
mocidade, tomando apenas o peso ao sceptro 
e senhor do poder real, a vindicta era um des- 
forço baixo, uma oppressão iniqua. Por isso 
incumbira Camões de sondar os sentimentos 
do pupillo e Lourenço Telles, e de conhecer se 
o amor o tinha levado aos excessos que o so- 
berano podia punir, mas que o homem, segun- 
do as leis da honra, devia esquecer, sob pena 
de ficar mal visto a seus próprios olhos. 

Jeronym.0 era um rival ! Cecilia amava-o, 
ou tinha-o amado ? Eis as perguntas que o 
seu espirito perplexo repetia sem cessar ; e a 
que o inquieto ciúme respondia, cravando-lhe 
o peito de espinhos e de dores. 

O Camões, que principiava a grangear o 
valimento que o tornou depois tão celebre, 
parecia o homem menos apto para pintar de 



Obras c 



da Silva 



57 



negro com as tintas criminaes um acto, cuja 
maior culpa cabia ao príncipe. 

Kepugnava-lhe o officio cie verdugo de be- 
ca, e recusaria a commissão, se ella lhe não pro 
porcionasse meios de salvar o mancebo da- 
affronta das penas infamantes, e o rei da nó- 
doa de uma acção ruim. Sem o conhecer de 
perto, logo tomou interesse por Jeronymo ; e 
o que as informações lhe referiram ácerca do 
seu valor e da sua audácia veiu ainda aug- 
mentar-lhe mais a sympathia. 

Apezar de inconstante nos galanteios era 
poeta, e pela imaginação comprehendia as 
elegias em acção. Espirituoso cavalheiro, e 
amigo de aventuras, não pedia de joelhos a 
benevolência do soberano ; sabia ganhal-a á 
maneira de Quevedo Villegas, pelo juizo pi- 
cante das criticas, pelos repentes atrevidos 
dos gracejos, e pela distancia bem guardada 
durante as intimas confidencias entre o mo- 
narcha e o vassallo. 

Nos primeiros dias da catastrophe, o cor- 
regedor do crime ouviu calado, mas sem dis- 
farçar que o seu silencio era desapprovador, 
as severas ordens de D. João V contra o man- 
cebo, tomando sobre si a liberdade de execu- 
tar d'ellas apenas o que lhe parecia justo. 

Amansadas as iras, e rota a tempestade com 
a certeza das melhoras de Cecília, o juiz atre- 
veu-se insinuar ao príncipe a clemência, co- 
mo uma necessidade e um dever, querendo 
evitar o estrépito em um lance que envolvia 
o caracter do imperante e a honra de uma 
dama. 

A pouco e pouco os ouvidos do rei íoram-se 
abrindo á verdade e escutaram-^a ; e acabou 



58 Ern prez a da Historia âe Portugal 

por afiançar que o delicto que não podia per- 
doar era só o golpe descarregado no seio in- 
nocente da donzella, por um homem, que, sen- 
do soldado, se abaixara a manchar a espada 
em tal vingança. 

— Todo o odio que lhe tenho provém só 
disto — disse sua magestade — Deus me livre 
da ideia de o accusar, porque se defendeu de 
quem lhe apontava o florete aos peitos. Mas o 
ferro, que não se desviou do peito de uma 
dama, ha de ser quebrado, para não mais en- 
vergonhar as minhas armas ! 

Estas palavras proferidas com paixão, 
advertiram o corregedor de que não seria pru- 
dente ainda insistir, magoando feridas mal 
cicatrizadas. 

— Deixemos socegar o amante; vejamos se 
ello se cura do ciúme — pensava o Camões — 
e quanto ao resto, Deus ó grande ! A justiça 
de el-rei nos valerá. 

N'este propósito todas as manhans, mas 
como amigo, visitava o preso. O estado em 
que Jeronymo cahiu logo ao segundo dia, 
peiorando sensivelmente, assusta va-o. O aman- 
te de Thereza recebia com gratidão os teste- 
munhos de sympathia do magistrado ; ouvia 
com prazer as anecdotas, que alegravam a 
sua conversação; e, quando menos melancho- 
lico e prostrado, fazia um esforço, e procura- 
va também corresponder-lhe, narrando no es- 
tylo animado, próprio dos homens de acção, 
as scenas grandiosas da sua juventude. 

Se por acaso, porém, uma allusão, posto 
que feita ao de leve, lhe suscitava a lembran- 
ça dos successos da noite em que perdera a 
esperança e a liberdade, abysmava-se em su- 



Obras ú^mpletan dê Rebdlo da Silva 



59 



bita tristeza, arrazavam-se-lhe os olhos de la- 
grimas, e encerrava-se em um silencio, que 
durava horas, e de que não sahia senão para 
entrar em aceessos cada vez mais violentos. 

Aquella alma habituada a medir-se com as 
tormentas do mar, e com as vicissitudes da 
guerra, ferida mortalmente, succumbia sem 
voz e força, não querendo sobreviver á sau- 
dade e ás penas de uma separação eterna. O 
seu desejo era livrar-se da existência, tão pe- 
sada desde que se via só no mundo, pedindo 
a Deus a paz do tumulo, e o somno profundo 
do soldado adormecido no seu duro leito de 
batalha ! . . . 

Outras vezes, accordando sobresaltado, le- 
vantava-se como se o chamassem, e escutava. 
Então as faces desbotadas ardiam de repente 
accesas Bm vivas cores; os olhos mortaes ac- 
cendiam-se de luz sombria; e o corpo, indifie- 
rente e passivo antes, animava-se com o fogo 
momentâneo do delirio, cortando o coração 
de piedade. 

N 'estas occasiões, imaginando-se feliz e li- 
vre, falava com a sombra do seu amor n'a- 
quelle tom suave e intimo, que parece um ec- 
oo d ? alma, dirigia-Ihe as phrases meigas que 
só diz a paixão, e proferia as promessas ex- 
tremosas, flores do sentimento, que brinca in- 
nocente e descuidado no meio das illusões! 

Eram horas inteiras de enlevo e adoração, 
longe dos homens e do mundo, como as gozam 
os amantes entregues aos devaneios do cora- 
ção. Entretanto, o extasis rompia-se depressa, 
qualquer objecto, qualquer palavra o preci- 
pitava de repente nos ferros do martyrio, 
e então os olhos e o animo, turvando-se, im- 



60 'Empr&ea da Historia âe Portugal 



pioravam a morte com gemidos e impreca- 
ções, como ultimo refugio (Testa dor incon- 
solável. . . 

Mas entre os transportes, mesmo agitado o 
peito, e ardente o cérebro, com que paixão 
amava ainda! Como o pranto se desatava dos 
olhos seccos para os infortúnios próprios, 
apenas a ideia desvairada lhe representava a 
imagem de Thereza, pallida, prostrada a seus 
pés, e com a vista quasi extinta, enviando-lhe 
o adeus supremo ! Então avivava-se-lhe o ar- 
dor febril, as pupillas dilatavam-se illumina- 
das de sinistro brilho; os cabellos hirtos e o 
frio espanto da physionomia acompanhavam 
o horror estampado na fronte livida; e o gesto 
íito e immovel apontava para o chão, como 
se o corpo gentil alli jazesse. 

Umas vezes, olhando para as mãos, tremia, 
faltava-lhe a luz, e sumindo-as convulso pare- 
cia esconder o sangue, e cahia sem sentidos. 
Outras, recuando passo a passo cheio de 
terror, extendia os braços, como para desviar 
de si um fantasma, e acabava perdendo as for- 
ças em um grito de immensa agonia, deixan- 
do de padecer por algumas horas. 

O corregedor, tendo assistido á crise, reti- 
rou-se com o peito suffocado, exclamando 
que era cem vezes melhor a morte, do que a 
vida com tal tormento. 

Os médicos não davam esperanças, decla- 
rando que a sciencia ignorava o remédio does- 
tas affecçôes. A seu ver, o mancebo approxi- 
mava-se do fim que pedia a Deus. O Camões 
do Rocio, que tivera occasião de observar 
de perto os progressos da moléstia, todos os 
dias sahia mais triste e desenganado. O sorri- 



so de Jeronymo, agradecendo-lhe as suas 
consolações, e o definhamento rápido que lhe 
notava, advertiam o magistrado de que era 
necessário apressar-se junto do soberano, se 
queria arrancar o mancebo ao lira que o cha- 
mava. 

Mas como? Se podesse convencer Jeronymo 
a confiar-se d^lle, e a confessar a sua innocen- 
cia, seguro estava de que desfeito o ciúme 
haveria logar para a clemência. O nome que 
o capitão repetia nos seus accessos não era o 
que elle ouvira dar pelo príncipe á donzella 
desmaiada nos braços de Catharina de Athai- 
de. Pareeia-lhe que ura equivoco occasionára 
a catastrophe; porém, não ousando perguntar 
ao rei, e não sendo possivel colher de Jerony- 
mo o mais leve indicio, de que modo conse- 
guiria romper as trevas, e chegar á verdade 
que um presentimento occulto lhe dizia ser a 
salvação de todos ? 

O corregedor do crime de boamente faria 
auto de fé de todos os sonetos jocosos, ins- 
pirados pela sua travessa musa, se pudesse 
obter um fio que o guiasse. Debalde ! Desgra-* 
çadamente as pessoas que sabiam o segredo 
eram poucas e interessadas em o guardar. 

— Succeda o que succeder— disse o Camões 
uma manhã (justamente a que viu a confron- 
tação do senhor Thomé, e a visita do padre 
Ventura a S. Domingos)— não hei de deixar 
morrer o rapaz assim. O seu verdadeiro crime 
aos olhos de el-rei ó amar a mesma dama que sua 
magestade ama. Bem ! Se eu for capaz de res- 
tituir Dido a Enéas, dando um quinau em Vir- 
gilio, está o homem salvo, e o senhor D. João 
V no paraizo ! , . . A difficuldade consiste em 



02 Emprega da História de Portugal 

fazer falar o preso sem elle se sentir . . . Te- 
nho ideia de que não está menos enganado do 
que sua magestade, e que ambos abraçam a 
nuvem pela deusa! A la gr acta de Diosl Se 
doesta sáio bem, protesto escrever uma come- 
dia em castelhano para emparelhar com o Me- 
dico de sua Honra, de Calderon, e pelo titulo 
não ha de perder; ponho-lhe na taboleta Los 
zelos enganados. E hespanhol de orelha, diz a 
critica? Não importa. Estamos em guerra, e 
posso saquear a lingua como elles nos atacam 
as fronteiras. Vamos! Senhor Camões, ó pedir 
a Deus que lhe converta a beca em roupeta de 
Santo Ignacio, e tracte de imitar na lábia os 
reverendos padres. Esta diligencia não ó para 
engaiolar, é para soltar ; e oxalá que em cons- 
ciência pudesse dizer de todas o mesmo ! 

Falando assim, o ministro entrava na pri- 
são, e ouvia com imperturbável seriedade o 
relatório do carcereiro sobre a doença de Je- 
ronymo. O preso tinha licença para receber 
visitas ; mas nos últimos dias escusou-se, o 
não quiz ver certo padre de S. Roque, que vi- 
nha procural-o. Hoje parecia mais espairecido, 
descançára um pouco de noite ; e logo pela 
manhan pediu que, se voltasse o jesuita, o le- 
vassem ao seu quarto. 

—Perguntou por mim?— disse o corregedor, 
medindo o homunculo de alto a baixo com o 
seu olhar satyrico. 

—De certo— disse este— o senhor doutor foi 
a primeira pessoa em quem falou. 

— Não disse que foi no padre da companhia? 
Bem! Venha quem vier, não deixe entrar 
ninguém até eu sahir... só se for o medico. 

—Esse vem de tarde. . 



Obras completas âe Uebálo da Silv<i G3 

—Melhor !— redarguiu o poeta-jurisconsul- 
to— o mais tarde para taes visitas ó sempre 
cedo. Venha abrir ! 

E encaminhou-se para a sala, aonde com 
todas as commodidades compatíveis, tinha 
mandado collocar Jeronymo Guerreiro. 

O mancebo estava assentado ao pé da janella 
a uma banca pequena, das que hoje se chamam 
de pó de gallo. A vidraça aberta deixava en- 
trar o sol e o ar ; a manhan tinha nascido tem- 
perada e alegre. Pela encosta do Castello pen- 
duravam-se algumas arvores, e trepavam as 
parreiras dos pequenos quintaes. Por cima 
cTellas esvoaçavam, gorgeando, bandos de 
pássaros que saudavam nos seus transportes 
a luz e a liberdade. A vista do preso desvia- 
va-se a miúdo do papel, que escrevia a custo 
para contemplar com resignada tristeza o bel- 
lo panorama da cidade, illuminado dos raios 
quentes e dourados do astro do dia, e os voos 
loucos das aves, que fugiam e se juntavam, 
pousando de ramo em ramo, chilreando e des- 
afiando-se. 

Os olhos de Jeronymo, encorados, e com as 
nódoas fundas e aniladas, que o povo chama 
«olheiras de melancholia»; as pupillas baças, 
e sem o brilho que as tornava de uma xara 
penetração, parecia que não tinham força nem 
para fitar os objectos por muito tempo, bai- 
xando-se para o chão com mórbida tristeza. 

A pallidez das faces, e a expressão das fei- 
ções transtornadas, diziam os padecimentos 
do espirito e do corpo ao observador menos 
attento. Do esbelto e robusto militar, que 
fora, do vistoso e agil cavalheiro, que era ha 
poucos dias, a magoa e a moléstia tinham 



64 



Emprega da Historia de Portugal 



feito um espectáculo de dor e de velhice pre- 
coce, sombra do antigo homem, ou mais exa- 
cto (permitta-se-nos a phrase) cadáver antes 
da morte d 7 aquelle soldado jovial e audaz, 
cujo sorriso dava graça e animação ao rosto, 
cuja bocca sabia ser eloquente e persuasiva 
sem falar ! 

O coração pouco vivia já; mas a intelligen- 
cia, resistindo, ainda accordava por alguns 
momentos, quando as trevas do delirio não a 
offuscavam. Na quietação fixa dos músculos, 
na serenidade indifferente das feições, na au- 
sência quasi completa de movimentos activos 
e espontâneos, que denunciassem a vida e a 
edade, notava-se a rigidez sombria e gélida, 
filha do anniquilamento moral, o precursora 
do anniquilamento physico. 

Era como a arvore que tem ainda o tronco 
em pé, mas que principia a seccar-se e a cahir 
pelos ramos e pelos braços. De uma para a 
outra hora, vendo-a mirrar e desfazer-se, in- 
teriormente consumida, espera-se que uma 
rajada mais forte a derrube, acabando com a 
existência que ella finge ! 

Sentindo abrir a porta, e voltando a cabeça, 
Jeronymo agradeceu com um sorriso a visita 
do corregedor; porém o sorriso, como se fosse 
em mármore, levou minutos a abrir. O sentido 
da physionomia era uma abstracção dorida e 
vaga, similhante ao adormecimento, que ser- 
ve de pausa ás grandes crises. 

Caetano da Silva Sotto Maior tomou assento 
junto d^lle; olhou pela janella, e disfarçada- 
mente para o papel; e, depois de algumas 
perguntas e respostas, tractou da execução 
do seu plano. 



Obras completas de Rebdlo da Silva 65 



— Eis um dia, que faz saudades da caça ! . . . 
Digam o que disserem, não ha manhans mais 
lindas que as do inverno em Portugal. Até 
os doentes e os pesarosos se curam com este 
sol ! Senhor Jeronymo, sabe que me parece 
hoje melhor? 

O capitão meneou a cabeça, respondendo : 

— Isto vae seu caminho, e como Deus ó 
bom, creio que ha de compadecer-se a final, 
e despenar-me. Agora escrevia eu uma espé- 
cie de testamento; são as minhas ultimas 
vontades ; e contando com a caridade do se- 
nhor corregedor. . . 

—Deixemos isso! Ainda ha de enterrar-me, 
e não sou muito mais velho !. . . Não se esteja 
cansando com escriptas. Gruarde-as para de- 
pois da convalescença. 

—Quando se faz uma jornada de perigo, to- 
mam-se as precauções — redarguiu o mancebo 
melancholico. — Estou em vésperas de partida, 
e quero salvar a honra . . . porque não possuo 
mais nada. Tem sido uma lucta, que não ima- 
gina, com a cabeça para fazer estas linhas . . . 
Ha occasiões em que o juizo se me cobre e o 
sangue parece fogo. Depois (desculpe a mi- 
nha franqueza !) certos sentimentos podem 
mais do que a razão, na alma dos que foram 
moços e viveram . . . 

— E amaram?— accudiu o corregedor em ar 
jovial e cheio de naturalidade— A quem o diz!? 
Sou um crivo de settas do Deus-menino, ape- 
zar da beca e da vara branca. A justiça não ó 
cega ; oxalá ! . . . 

—O desgraçado encontro d'aquella noite— 
proseguiu o pupillo de Lourenço Telles, com 
visiveis esforços para vencer a sua commo- 

VIII — A MOCIDADE DE D. JOÃO V — V 5 



66 'Bmprê&ã m Múiwta de Portugai 

cão— íez-me o mais infeliz dos homens; tirou- 
me o gosto e o desejo de viver. Não é affecta- 
ção, senhor corregedor... Se adivinhasse o 
que sucedeu, tinha ficado de baixo de um ro- 
lo de mar, ou no primeiro campo, aos pós dos 
cavallos hespanhoes ... Se existo, se fiz algu- 
ma coisa digna de louvor, não foi por mim, 
asseguro-lhe ; contava com um coração egual 
ao meu, unido a elle para sempre . . . Faltou- 
me ; enganei-me ; e no primeiro impeto accu- 
so-ine de ter tido o baixo ciúme de querer le- 
vantar a espada . . . Não sei mesmo por que 
são tantas as trevas, que não distingo o certo 
do duvidoso, não sei mesmo se... 

Aqui prendeu-se-lhe a voz, e estacou ; a 
pallidez augmentava ; e as rosetas das faces 
começavam a alargar. O Camões apressou-se 
em accudir : 

— Não sabe se feriu alguém ! Tranquillize- 
se; é verdade que teve essa desgraça, mas 
sem consequência. Logo se viu que o acaso, e 
não a intenção . . . 

—Eu era incapaz de uma vilania. Thereza 
não morreu? O sangue que vi, que está sem- 
pre deante dos meus olhos, não era o seu?. . . 

—A senhora, casualmente ferida n'essa noi- 
te, está melhor, afianço-lhe. Pôde* socegar. 
Mas o que tem? Sente-se peior? 

Estas ultimas palavras procediam do esta- 
do de Jeronymo. 

Depois de ouvir o corregedor anciosamen- 
te, o mancebo levantou as mãos ao céu com 
impeto, e as lagrimas represadas, solta ndo- 
se, correram em torrentes pelas suas faces. 
Vive!... Não morreu! murmurava ao 



Obras completas âe Rebdla da Síha 



67 



mesmo tempo em voz tão fraca, que parecia 
um suspiro á flor dos lábios. 

O jubilo, como todas as commoções enérgi- 
cas, operando sobre o corpo desfallecido e- 
sobre o espirito exgotado, abateu-lhe as for- 
ças. 

O rosto fez-se de repente branco ; os olhos, 
um momento animados, fecharam-se; e a ca- 
beça, sem vigor, descahiu no espaldar, esmo- 
recida de sentidos. Este delíquio sem agonia 
fora filho do abalo, achando dc menos sobre 
o coração o remorso, que lh'o comprimira, e 
o horror, que lhe envenenára as agitadas vi- 
gílias. Consumida de dor, a alma não podia 
com as primeiras consolações, que vinham 
raiar nas trevas da sua afflicção. 

Em quanto o capitão succumbia ao exces- 
so da alegria súbita, sem forças para o sup- 
portar, o Camões do Rocio (que o desmaio 
não assustou) correu a vista pelo papel, que 
Jeronymo interrompera á sua chegada. De- 
pois de ler algumas phrases, o juiz, inclinan- 
do-se sobre a mesa, com a caí)eça entre os 
punhos, não levantou mais os olhos em quan- 
to não chegou á ultima linha. A ? medida que 
ia lendo, o semblante de Caetano da Silva 
Sotto Maior espaireceu e tomava novo aspe- 
cto. No fim, a respiração cheia e forte com 
que desafogou o peito, e um sorriso espiri- 
tuoso e triumphante, indicavam que tinha 
descoberto o fio para livrar o mancebo da 
triste posição em que se achava. 

Efectivamente a mão do preso lançara 
n J aquelle escripto, destinado a sorvir-lhe de 
despedida, a confissão extrema do homem, 
que julga próxima a hora final, o verte sem 



68 



Empreza da Historia de Portugal 



reserva os segredos e as penas do coração no 
peito de um confidente. 

Ao padre Ventura é que se dirigia ; e os 
termos da sua carta, umas vezes respeitosos, 
outras cheios de carinho e de confiança, eram 
os de um filho a seu pae antes da ultima se- 
paração. Entre lembranças ternas e remorsos 
pungentes, o mancebo pedia a benção e o per- 
dão de Lourenço Telles, do tutor da sua or- 
phandade, e, julgando-se o auctor innocente e 
involuntário da morte de Thereza, supplicava 
de Cecília e de sua mãe piedade para a sua 
memoria, e esquecimento para o delicto, que 
não fora d'elle, mas do acaso. 

No meio dos paragraphos incoherentes, ou 
repassados da verdade que apparece quando 
se fala deante de Deus, o corregedor encontrou 
um, com a revelação da causa (já suspeitada 
por elle) de todas as desgraças de Jeronymo. 
Tractando de Thereza e de Cecília, e sempre 
na ideia de que tinha as mãos tintas no san- 



— «Sei que sou só no mundo, aborrecido e 
detestado d^quelles que mais me queriam. 
E' justo. Olham-me como o auctor do lucto, 
que entristece a sua casa, tão socegada antes 
de eu lhe trazer a morte, e de a pousar sobre 
o leito da mais bella, da mais innocente das 
donzellas .. . porque hoje, o delirio deixa-me 
alguns momentos de paz, e ouço o coração 
dizer-me que Thereza não foi culpada, senão 
por se compadecer de mais ! . . . O honrado, o 
virtuoso velho, meu segundo pae nacreação, 
meu verdadeiro pae no amor, terá resistido 
aos desgostos do que lhe cortei os últimos 
dias serenos da sua edade? Se vive, so a dor o 



gue da primeira, o mancebo dizia 




Obras completas de Eebello da Silva 69 

lovou já adeante de mim, estou certo, sei 
que me perdoa e me lastima ! Conhecia-me 
como o pae conhece o filho ; eu e ella éramos 
a esperança e a alegria da sua vida!... Coitado! 
Quem lhe diria que o noivo seria a causa da 
terra a comer tão nova, tão cheia de flor e de 
graça ? . . . Sou innocente ! Mil mortes que 
padecesse para ella viver só uma hora mais, 
não me queixava. Thereza aonde está lê na 
minha alma, e vê o que tem soffrido ! 

«Que longas e dolorosas são estas horas 
que hei de penar até unir o meu espirito ao 
seu, feliz ao menos por socegar de tantos 
martyrios, vendo-se vestida de gloria entre 
os anjos. Padre Ventura, nunca a fó no meu 
coração foi mais viva: nunca esperei e cri nas 
promessas divinas com tanto ardor... Se 
esta mão não acabou as misérias de uma 
existência, cujos tormentos o inferno acharia 
a superiores aos seus, foi porque os pa- 
deço em expiação, e, acabado o cálix da amar- 
gura, espero ir encontral-a no céu, aonde o 
amor não morre, e a bemaventurança não 
chora o crime e a ausência. 

«Perdão, meu padre! Mas esta paixão ê 
mais forte do que eu, do que a morte até. 
Desde que perdemos Thereza, vejo-a todos 
os dias; apparece-me em toda a parte... 
agora mesmo está ao pó de mim. . . E' o seu 
rosto lindo sempre, mas branco e triste, como 
se levantou da sepultura! São aquelles olhos 
verdes, que parece verem, mas que não sorriem 
e não dizem nada. A bocca move-se, mas não 
a ouço. Não me accusa; chama com a mão, e 
parece esperar por mim ... Se meu segundo 
pae e Cecilia conhecessem o que esta visão 




70 



Empr&za Sa Hidoria de Portugal 



me faz penar, tinham mais dó, do que horror, 
d'este desgraçado. E horror porquê ? Elles 
não sabem que a não matei, que era impos- 
sível?... Padre Ventura, rogue a Deus por 
mim ! Ha instantes em que chego a amaldi- 
çoar a hora em que nasci, e a Providencia que 
me desamparou. Foi esta mão a que a feriu ? 
O laço e o penhor da maior ternura ? ! . . . Sinto 
que me sobe o odio outra vez ao coração: 
que se me abraza a cabeça; e desejo acabar 
em paz com os homens, perdoando para ser 
perdoado... Quero vel-a e adoral-a no céu, 
já que na terra ! . . . Pela saudade do seu amor, 
pelas lagrimas de sangue d'esta paixão, pro- 
testo que morro sem odio; perdoo atóáquelle 
que ella amou, o quo vive e se consola depois 
de a perder.» 

As confidencias paravam aqui ; mas eram 
de mais para justificar Jeronymo. Q correge- 
dor, aproveitando-so da prostração do man- 
cebo, e auctorizado pelas suas rectas inten- 
ções, pegou no papel, metteu-o no seio, e sa- 
hiu na ponta dos pés. Cruzando a porta, e 
chamando o carcereiro depois, ordenou-lhe 
que chamasse o medico no caso do capitão se 
não reanimar com brevidade. D'ahi atravessou 
a praça d'armas } chegou á sege que tinha de- 
fronte da porta, e disse alto para o cocheiro, 
pegando nos cordões das guias—A galope ! 
Aos paços da Ribeira ! 

Era a residência de D. João v ate á cere- 
inonia da acclamação. 

Na occasião em que o Camões largava o 
seu cavallo, chegou á porta do Castello o pa- 
dre Ventura, quo tinha subido a pé. 



Obras completa* de Rcbcilo dia Silva TJ 



CAPITULO XXXIX 
Depois de purgatório a redempçãol 

A alegria ó também uma dor aguda, quan- 
do a alma a não espera, e sem vontade e sem 
desejos esmoreceu. Morta para tudo, não vol- 
ta da insensibilidade á vida, sem que a jorna- 
da lhe custe lagrimas e a sobresalte. Era o caso 
de Jeronymo. Desde a noite em que se reco- 
lheu á prisão, habitaram sempre com elle os 
remorsos inconsoláveis, e as saudades inces- 
santes. Só com os terrores da sua magoa, mu- 
dos os afliíctos, que lhe tornavam risonha a 
existência, não ousava olhar para a terra, aon- 
de via o sangue de Thereza, não podia con- 
templar o céu nem com a esperança, porque 
o repellia de lá a imagem lacrimosa da don- 
zella. Como o desterrado suspira pela pátria, 
como o captivo anceia a liberdade, assim o 
mancebo não tinha nos lábios e no peito senão 
uma supplica a Deus. No horror dos homens 
e de si chamava pelo tumulo, pelo esqueci- 
mento eterno das penas que o cortavam ! 

Costumado a pulsar com o de Thereza, e só 
para elle, o seu coração, apenas a julgou per- 
dida, nunca mais soube, conhecer-se. O amor, 
instincto, força e luz da sua carreira, desde 
que suppoz ausente do mundo e entre os an- 
jos aquella por quem vivia, não teve senão 
um desejo, o de romper os laços mortaes para 
se lhe unir ! Por uma contradicção violenta, 
mas natural, o ciúme, origem de todos os seus 
infortúnios, deixou então de se queixar e de 



72 Empreza Ua Historia de Portugal 



a accusar ; e a saudado, mais activa de cada 
vez, mais pungente a cada hora, dilacerou-o 
de recordações em que as graças da formosu- 
ra e os encantos da innocencia armavam de 
novos espinhos a angustia que o traspassava. 

N'este estado, quando a voz amiga do cor- 
regedor lhe tirou de cima do peito o immen- 
so peso do remorso, a reacção interior foi egual 
aos transes do martyrio. Thereza existia ! 
Era uma revolução completa; era volver dos 
abysmos da desesperação aos climas menos 
sombrios, aonde a vontade ainda podia viver 
e luctar. Por isso, deslumbrado pelo golpe, 
o espirito desfalleceu, os olhos fecharam-se, 
e o corpo cedeu sem vigor. As illusões tinham 
sido tão dolorosas, que a realidade, como um 
remédio heróico, apenas encontrava forças 
para poder operar! 

Reanimou-se gradualmente depois; e foi 
tornando em si. Quando abriu os olhos, ven- 
do o sol que allumiava os dias de Thereza, 
achou-o alegre, e não importuno como antes. 
Os gorgeios das aves, a pureza do céu e a ver- 
dura das arvores deixaram de lhe parecer o 
escarneo dos seus males. O amor tornava a 
aquecer o coração e a palpitar com elle. Os 
ferros, que não sentia ha pouco, já lhe pesa- 
vam ; e as lagrimas do captivo corriam em 
prova de que o amante suspirava. Foi um mo- 
mento de beatitude absoluta, em que o ju- 
bilo presente corria o véu sobre o passado, 
apagando as lembranças mais pungentes. 

Mas á medida que a lucidez do pensamento 
ia aclarando (confirmada a existência de The- 
reza), o ciúme renascia, a duvida voltava, e á 
saudade ardente succediam os zelos e o resen- 



Obras completas de Bebdlo da SUva 



73 



tiinenlo da indifferença. A memoria accorda- 
va, avivando-lhe a scena, em que perdera 
quanto o tinha ligado ao mundo. A excitação 
e a dor volveram com mais força. Saber que 
a irmã de Cecília escapára ao golpe, e dizerem 
depois que o esquecia nos braços de um prín- 
cipe, não seria peior do que choral-a morta, 
mas sua, embora o accusassem, embora to- 
dos os tormentos fossem os flagellos da sua 
ideia ? 

Absorvido por esta paixão, o espirito de- 
pressa tornou a declinar para a amargura ; 
seguiu-se a prostração. Os olhos encovados e 
accesos em brilho sombrio annunciaram as 
trevas e a proximidade do delírio. 

No meio da nova transição do jubilo para 
a magoa, violenta e lacerante, como são as 
recahidas, ó que o padre Ventura abriu a 
porta, e appareceu deante do mancebo. 

Conhecedor das paixões e hábil em as diri- 
gir o jesuíta não precisou senão de um lance 
d'olhos para ler na physionomia de Jeronymo 
o conflicto moral. Ninguém podia sondar me- 
lhor a chaga, e calcular pela sensibilidade a 
extensão do mal. 

Aquella alma tinha fraquezas e contradi- 
cções, visíveis só para elle, e que nenhum ou- 
tro seria capaz de converter em meios de sal- 
vação. Entre dois homens, grandes pelas qua- 
lidades do animo e do caracter, existiam se- 
gredos, que a apreciação vulgar nem sequer 
podia suspeitar. 

Um coração como o do pupillo de Lourenço 
Telles, no qual o arrojo e a heroicidade nas- 
ciam do sentimento, cuja vida era quasi to- 
da paixão, não se curava com as consolações 



71 Empresa da Historia én Portugai 

habituaes próprias de almas menos eleva- 
das. 

Seria mais fácil dispol-o para receber a 
morte, do que preparal-o para lhe annunciar 
a boa nova. A primeira não o assustava; a se- 
gunda podia exceder as poucas forças que 
ainda lhe restassem. 

Além disso, tendo cuidado vêr pelos pró- 
prios olhos o seu amor entregue a outro, e 
para sempre trahido; suppondo-se com as 
mãos tintas no sangue do rival e da amante ; 
vir dizer-lhe que ella vivia, que os sentidos 
eram mentirosos, e que a felicidade lhe sorria 
mais doce do que nunca; convencel-o sem 
abalo ; trazei- o da certeza da desgraça ató á 
duvida ; e da duvida ató á verdade, e impe- 
dir ao mesmo tempo que tantas commoçôes 
apagassem a chamma vacillante da vida, eis a 
difficuldade, o escolho que o visitador não 
considerava sem terror, apezar do tacto e se- 
renidade do seu espirito. 

A presença das filhas de Philippe, a confis- 
são de Cecília e as palavras de Thereza se- 
riam acreditadas? Haveria bastante crença 
n 7 aquella alma, e sufficiente ardor n'aquelle 
coração depois de tantos padecimentos, para 
na contensão da crise ficarem vencedores ? 

E se a vista da donzella tão amada, e da ir- 
mã adoptiva, obscurecendo a razão com trans- 
portes violentos, cortasse de repente o delga- 
do fio que apenas o separava do chãos da lou- 
cura ? Se o sobresalto não o salvasse e o per- 
desse? Não vira o padre em Cecília, durante 
momentos, as sombras da morte pendentes de 
uma sensação mais forte ? 

Por isso, mostrando placidez e simulando 



Obras completas de. Echetto da Silva 75 

sorrir, o padre Ventura escutava-se e sentia 
tremer o peito como uma criança. Elie que 
tantas batalhas espirituaes tinha pelejado ; 
que tantos perigos de vida e de fortuna tinha 
subjugado ; deante d'esta lucta quasi que des- 
confiava de si. E* que o coração ainda tomava 
mais interesse, do que a intelligencia, no bom 
êxito. Presava o mancebo como pao ; daria 
tudo para o salvar; o sabia que, similhante 
ao córte do operador, uma palavra impruden- 
te, um momento de perturbação, podiam cau- 
sar a morte aonde queriam levar a vida. 

Quando o visitador entrou, o capitão com a 
cabeça entre as mãos e a vista suspensa, es- 
tava engolfado nas suas reflexões. 

Passavam-lhe pela ideia as memorias d'a- 
quelles ditosos dias, nos quaes, julgando-se 
amado, adormecia a accordava embalado de 
doces illusoes. A alma lacrimosa, para maior 
tormento, mostrava-lhe a imagem de Thore- 
za em todo o osplendor da formosura, com as 
pupillas de esmeralda languidas de ternura, 
com o sorriso cheio de promessas. 

Via-a, tinha-a presente como na hora em 
que lançando-lhe o collar dos lindos braços, e 
pousando-lhe os lábios de rosa sobre a fronte, 
lhe pedira que vivesse e se abraçasse com a 
esperança. Depois, representou-se-lhe a seena 
do jardim com as palavras e os juramentos 
dos amantes ; o sangue vertido do seio d'ella ; 
os olhos mortaes a accusarem-n'o, e uma nu- 
vem escureceu-lhe o coração, enchendo-o de 
trevas e de horror. 

Sentindo passos, Jeronymo ergueu a ca- 
beça. 

A presença do jesuita, que tanto desejára, 



76 Empreza da Historia de Portugal 



pareceu causar-llie estranheza, como se me- 
diassem annos entre o seu recado e a chegada 
d'elle. 

E' que desde a sua conversação com o cor- 
regedor do crime tinha saindo da noite dos 
remorsos para tornar a abysmar-se nas dores 
e contradicções do ciúme. 

Antes estava como o condemnado contricto, 
que se despede da vida sem saudades. Agora 
sabia que o tumulo era uma prisão só para 
elle ; e que apenas enxutas as lagrimas, dadas 
á piedade, um rival ditoso tomaria o seu lo- 
gar, convertendo em sorrisos os prantos de 
Thereza, em suspiros de ternura a sua leviana 
melancholia, sacrifício de um momento. En- 
tre estas duas phases, tão rápidas, havia um 
mundo de paixões, de duvidas e de angustias ; 
a rasão não ousava respirar, e o espirito não 
podia socegar. 

Eis o motivo porque a vista do padre Ven- 
tura mal pôde conter o constrangimento com 
que o recebia, e o receio com que aguardava 
as primeiras palavras. Como a demência foge 
aos cuidados que a vigiam, assim este coração 
louco á força de chorar e padecer, tremia da 
serenidade do homem, que reputava severo em 
lhe estranhar as fraquezas. 

O visitador percebeu o que se passava no 
animo do mancebo ; porém não o demonstrou 
Sem apressar o passo, sem alterar o sorriso 
consolador, approximou-se, deu-lhe a mão a 
beijar, e puxou uma cadeira para defronte, fi- 
tando n'elle depois aquelle olhar lúcido e pe- 
netrante, que parecia ler no seio dos mais se- 
cretos pensamentos. 

Da sua parte Jeronvmo, costumado a res- 



Obras completas dê Bebello da Silva 77 



peital-o e a ouvil-o, apenas se atrevia a levan- 
tar a vista cheia de timidez, com receio de 
que podesse descobrir ao seu exame a ingrata 
repugnância com que accolhia tantas bondades 
e afieições. 

O italiano adivinhou tudo, e, meneando a 
cabeça, sem carregar o aspecto nem a voz, 
disse : 

—Desde que o deixei a ultima vez, irmão 
Jeronymo, parece-me que o coração está mais 
longe de Deus, e mais próximo do mundo. 
Achei-o com saudades tão vivas do céu, que 
me admira o interesse com que parece agora 
olhar para a terra ! Diga-me, se lhe dessem a 
escolher, pedia ainda a morte?... Responda 
que não ! Não daria hoje para viver e ser livre 
mais do que hontem para acabar com os seus 
males christãmente?... Ah, mancebo, como 
as paixões nos cegam, e o coração nos engana ! 
Quer que lhe diga o que sentiu quando eu en- 
trei? Teve desgosto, teve ira de me ver!. . . 

—Eu, padre Ventura !. . . 

—Não disfarce! Conheço-o como a mim 
próprio me conheço. Aonde os outros não 
vêem, vejo eu tudo. Bem sabe! Ora pois; a 
verdade ó que teve pezar (quero que fosse só 
pezar) por me encontrar aqui deante dos seus 
olhos, que estavam baixos e sombrios, porque 
só a virtude e a honra podem levantal-os... 

—Vossa paternidade acha pouco os ferros 
d'esta cadeia, e as magoas da minha vida? — 
replicou o mancebo tristemente— Cuidei que 
a caridade se ensinava de outro modo na com- 
panhia de Jesus. 

—Na companhia, os que são dignos de ves- 
tir o habito e do abraçar a cruz— disse o visi- 



78 Empresa da Historia de Portwjú 



tador severamente— são homens para padecer 
o perdoar, para orarem a Deus pelos inimigos 
que os perseguem. Aprende-se a soccorrer os 
que gemem e a lamentar os que se perdem na 
idolatria das paixões . . . 

— Padre Ventura, os que sabem só o nome 
â dor julgam-n^ de leve, e sem consideração. 
Se apenas soffressem uma hora o que eu pa- 
deço ha tantos dias? . . . 

—Uma alma grande e religiosa offerecia a 
Deus o tormento, e procurava os conselhos e 
advertências dos mais velhos. Cuida que é 
castigado innocente? Já mediu as lagrimas 
que fez correr; já contou as anciãs que fez 
penar? Não se vê senão a si, e fala como se o 
universo não tivesse outro espectáculo ?! Je- 
ronymo, os seus amigos . . . 

— Os meus amigos deixaram-me com a for- 
tuna!— disse o capitão— Vendo-me por terra 
nenhum me extendeu a mão! Padre Ventura, 
a ultima prova agora acabo de a receber. Eu 
já não tenho amigos! 

— Não merecia tel-os. Os fracos fogem, e 
fazem fugir os outros. 

— Será necessário que sorva até ás fezes 
este cálix ? — exclamou o mancebo — Estou 
preso, estou fóra do mundo, atado á cruz. 
Que mais querem ! Os homens não me conhe- 
cem, e accusam-me. Eu morri para elles, e os 
mortos não lembram. Os que se diziam amigos 
e mestres não se chegam senão para me in- 
culcarem os seus exemplos. São fortes, por- 
que nunca luctaram. Não cahiram, porque 
na vida não encontraram a infelicidade. Se 
amassem, e os trahissem ! Se a alma d'elles 
em urn instante recebesse mais golpes do que 



Ohras oompietaâ â$ Eebdla da SUisi 79 

o soffrimenio humano pôde supportar . . . ve- 
riam ! Padre, sabe o que peço a Deus ? E' que 
me acabe com este resto de razão ! 

— Jeronymo— accudiu o visitador com in- 
tenção austera— a cegueira torna-o esqueci- 
do, para não dizer ingrato. Quem lhe disse 
que me julgo perfeito, ou que me creio su- 
perior ás fraquezas ? Esperava mais, ó verda- 
de, do seu coração; cheguei a suppor que 
um dia... não falemos d'isso! Esta roupeta 
é muito humilde para o século, e a vida do 
deserto ó pacifica de mais para o tumulto 
dos affectos. Não o accuso de seguir o mun- 
do ! Quando o vi no sertão no meio dos ín- 
dios, criança nos annos, homem pelo espiri- 
to, louvando a Deus em presença do marty- 
rio, e abençoando sem medo a morte, enga- 
nei-me, e todos se enganariam commigo. Cui- 
dei que da criança sahiria um apostolo ou 
um heroe. Quando o vi, entregue ao amor, 
abrindo com a espada o caminho da fortuna, 
e em cada campanha dizendo como Cesar: 
eis a minha herança ! acreditei que havia pe- 
rigos na paixão, mas que o mancebo os ven- 
ceria como homem. Mas quando soube que o 
soldado não tinha animo para supportar o 
infortúnio, nem valor para resistir ao delírio, 
ferindo uma mulher, e enchendo de lucto e 
de vergonha a casa em que foi criado ! . . . 

O jesuíta, falando assim, estudava com a 
vista o effeito das palavras. Na prostração a 
que via reduzido o preso, os remédios herói- 
cos eram o meio opportuno. Para arrancar 
gradualmente o mancebo ao espasmo em que 
as forças do corpo e os poderes do espirito se 
consumiam, carecia de desferir o golpe, em- 



80 E?npreza da Historia de Portugal 



bora cruel, sobre o lado mais sensível do co- 
ração. Para o salvar do naufrágio só restava 
exasperar-lhe as dores, magoar-lhe o orgulho, 
e resuscitar n^lle o homem e o soldado, antes 
que de todo expirassem nas trevas e no fre- 
nesi da loucura. 

Não tinha a escolha : não era livre no em- 
prego dos recursos. Devia disputar aquella 
alma ao anniquilamento, precursor da morte, 
custasse o que custasse. Que lhe importava 
um padecimento momentâneo se o resultado 
fosse feliz ? Quando um desgraçado mergulha 
no oceano, e ostá a sumir-se, o salvador hesita 
em o trazer á superfície arrastado pelos ca- 
bellos ? JSTestes lances a verdadeira piedade 
não olha senão aos fins. 

Se a linguagem do mundo já não encon- 
trasse echos no peito de Jeronymo; se ao sen- 
tir, pesada de ultrajes, a mão dos homens 
sobre a face, a não repellisse, o que vivia 
n'elle? Desvial-o da ideia que o possuía ; se- 
questral-o á solidão, cheia de desespero, era 
ganhar a primeira victoria e abrir caminho 
para as seguintes. 

Se por um instante qualquer nova commo- 
ção o abalasse, e a vista quasi perdida da al- 
ma pudesse receber um raio de luz de fóra, o 
padre Ventura confiava no plano, e colhia 
animo para o proseguir. O primeiro sympto- 
ma de sensibilidade n'aquella indifferença ac- 
cusaria um principio de reacção, um passo 
fóra do circulo fatal, que tudo resumia no 
suicidio pelo affecto. 

No começo, o capitão, mais admirado do 
que saccudido pelo rigor das palavras, fazia 
visiveis esforços para responder. Tinha den- 



Obras completas de Rebello da Silva 



81 



tro do peito tão fria a imagem do mundo, que 
lhe custava a perceber a sua voz. Tudo o 
que ficára antes ou além da sua magoa, já 
não lhe causava sensação. O universo cifrava- 
se para elle na sua paixão. Perdida a paixão, 
deixava-se morrer, porque não dava outro 
valor á vida. Que o aceusassem, que o conde- 
mnassem, que o escarnecessem, era-lhe indif- 
ferente ; mas ainda, não o comprehendia ! 

Desde que Thereza se entregára a outro, 
não ardia senão em um só desejo : morta a 
donzella, de a seguir até ao tumulo ; viva, de 
a disputar até a Deus ! A esperança n'este 
abysmo não tinha aonde firmar o pé. A cer- 
teza do infortúnio tomava a duvida por irri- 
são. Dizer-lhe que se illudia seria accender- 
lhe de novo a febre, e o transporte, desafian- 
do uma d'essas crises, em que a razão podia 
suecumbir de todo. 

Mas quando o visitador, retalhando sem 
dó a dolorosa chaga, levou o estimulo até 
onde elle podia chegar, o coração accordou, os 
nervos resentiram-se, e a vontade teve um 
impeto. Alguma coisa do homem e do solda- 
do deu um grito de indignação n'aquelle seio, 
que parecia petrificado. E* verdade que a set- 
ta para o alcançar, primeiro atravessou a 
sensibilidade do amante. Ouvindo-se aceusar 
de ter levantado a espada contra uma dama, 
e de ter levado a infâmia á casa aonde se 
creára, subiu-lhe o sangue ás faces, e pondo- 
se de pó cheio de braveza, exclamou em voz 
mais forte do que a debilidade mostrava 
permittir-lhe : 

—Padre Ventura ! . . . daria os poucos dias 
que me restam para que outro homem repe- 

VUí — A MOC1DADK DE D. JOÃO V — V G 



Etnpre&a da Historia d« Poftujgol 



tisse o mesmo ! Agradeça a Deus ! O habito ó 
que o salva ! 

A primeira explosão rebentára ; o primeiro, 
obstáculo fora vencido. O jesuíta deu inte- 
riormente a Deus as graças. 

Entretanto a physionomia não disse nada . 
Nem um só dos músculos do seu rosto desco- 
bria a profunda anciedade pela contracção. 
Continuou severo e grave, como se discutis- 
se um negocio vulgar entre os definidores do 
instituto. Cruzando os braços e sorrindo, fitou 
no mancebo aquelle olhar dominador, que nas 
occasiões supremas revelava o poder d'uma 
grande alma, e disse-lhe [em tom mais alto: 

— Não se prenda ! Depois da menina inno- 
cente, que o amou, chegue também a sua vez 
ao sacerdote velho, que o vinha consolar. O 
valor no crime também é valor. .. Não lhe 
importe ! E uma cobardia mais. 

Jeronymo com estas palavras sentiu levan- 
tar-se um furacão dentro do seu peito. Os 
olhos injectaram-se-lhe ; o cérebro ardeu, 
como se todo o sangue em labaredas se der- 
ramasse por elle; as faces abrazadas e descom- 
postas tremeram com a mais terrível sezão 
de raiva. Arremettendo ao padre, saccudiu-o 
com furor pela manga, e alçando a mão com 
cegueira descarregaria a faria, se a tranquilli- 
dade do italiano, firme no olhar e no gesto, 
não lhe impozesse respeito. 

Aquella força de espirito suspendeu-lhe do 
repente os passos, e um instante depois obri- 
gou-o a recuar. Ao mesmo tempo a voz plá- 
cida do visitador dizia-lhe : 

— Acabe a obra! Uma gotta de sangue 
mais pouco se verá. 



Ohms co&pletoB dc Evódio <h Sifvd 80 

Cedendo ás sensações, arquejante e desfal- 
lecido, o capitão foi cahir quasi sem sentidos 
aos pés do jesuita. Parte do vóu que lhe es- 
curecêra a mente, rasgou-se com o golpe de 
esta violenta commoção. Olhando para si e 
para elle envergonhou-so. As lagrimas salta- 
ram -lhe. 

O medico espiritual tinha já vencido muito; 
o maior triumpho estava conseguido ; o mor- 
to entrava outra vez no mundo ! E' verdade 
que um momento mais de accesso, e um ins- 
tante só de fraqueza no visitador podiam ter 
dado logar a um sacrifício inútil. Mas a se- 
gurança própria não era a preoccupação do 
italiano. Estava costumado a luctar com as 
tormentas. 

Curvando-se para o mancebo ajoelhado, 
com bondade o jesuita deu-lhe as mãos para 
o levantar, e pousou-lhe sobre a testa ainda 
abrazada um osculo de pae. Obrigou-o depois 
a sentar-se, e pondo-lhe a mão no hombro 
com doçura, accrescentou : 

— O doente vai melhor, mas ia matando o 
medico ! Socegue ; abra os olhos que teve fe- 
chados; e arrependa-se. Veja o que fez! Tra- 
ctou-me como inimigo ; esqueceu-se do que 
era e do que sou ; diga-me : não será possivel 
ter-se enganado do mesmo modo a respeito dos 
outros ? Medite este exemplo ; e louve a Deus 
que ainda o castiga menos do que merecia. 

— Padre Ventura, não sou eu, é a paixão,.. 
— soluçava o mancebo, ao qual estas palavras 
acabaram de abrandar. 

— E' a paixão, sim ; e d'isso me queixo. Se 
fosse homem, se tivesse valor, ella seria a es- 
crava; e o irmão Jeronymo o senhor! O que 



84 Ernpreza da Historia de Portugal 



lhe disse não era a verdade? Não coinmetleu 
a fraqueza de levantar a espada contra unia 
mulher ? não a infamou a ella e aos seus, dan- 
do-os em pasto ás calumnias e á maldade ? O 
que quer que o mundo pense ? . . . 

—O mundo mente e murmura sempre!— 
accudiu o capitão, tornando a mudar de aspe- 
cto. 

— Quando as coisas lhe dão razão, o mundo 
acerta. Um militar que não pôde com as suas 
paixões, um dia ou outro, não pôde também 
com os seus deveres. Quem fez correr o san- 
gue. . 

— -Padre ! —gritou Jeronymo cerrando o 
punho com desespero— Juro deante de Deus 
que sou innocente. Foi uma desgraça, e não 
um crime. Thereza vive, ella dirá. . . 

—Que a condemnou sem a ouvir ; e que pa- 
ra chegar á vingança mais injusta lhe cravou 
a espada no peito . . . 

—Mas eu vi e ouvi tudo ! E se os que me 
accusam amassem tanto ! . . . 

— Quem assim crê o mal, não ama ! 

— Padre, se soubesse d'estas paixões, sabe- 
ria o que é perder a alma. 

— Succedeu peior a muitos e foram homens. 
Em logar de delirar, tiveram a força d^lma, e 
esqueceram. 

— E' porque o seu amor não era de dentro, 
não era tudo . . . 

—Era! 

—Oh ! se elle lhes absorvesse a vida, a es- 
perança, a vontade ! . . . 

— Sei de um que perdeu mais ... ou tanto ; 
e se não se consolou, teve animo e conformou- 
se. Sabe como ? Offerecendo-se a Deus ; pedin- 



Obras completa* de Hehdlo da Silva 85 



do-lhe graça e resignação ; e fazendo peniten- 
cia n'este habito por ter amado a creatura com 
o extremo devido ao Creadpr. 

— Esse era santo, e eu . . . 

— Era muito peccador, o está deante dos 
seus olhos. Sendo ainda mais moço do que o 
vejo, a morte separou-o de uma donzella 
meiga e formosa, que lhe queria mais do que 
a si, e que elle amava ... já o disse, como não 
se deve amar senão a Deus ! Note que esta dor 
não pode comparar-se á sua, porque adeante 
da sepultura não ha nada. E então ? Foi como 
todos, chorou no principio ; desejou morrer 
também ; a carne é sempre a mesma ; mas por 
fim venceu a fé ; fez-se escravo doeste habito ; 
e não podendo viver com ella no mundo, quiz 
ganhar o céu para não deixar de a ver lindo o 
desterro. 

—Felizes os que choram e são consolados 
podendo sel-o !-— disse o mancebo com melan- 
cholia. 

— Sim ! porque muitos são os chamados, e 
poucos os eleitos; mas quem nas grandes des- 
graças se voltar para Jesus Christo, encontra- 
rá remédio; bem vê ; a sua cruz foi mais pesa- 
da que a nossa. 

Attrahindo assim a pouco e pouco o man- 
cebo para as ideias suaves da resignação ; lem- 
brando-lhe (o que é a suprema consolação pa- 
ra a enfermidade humana) que outros tinham 
sido mais desditosos, e viviam, o visitador 
preparava-o para saber a verdade sem perigo, 
e para sahir da amargura sem crise. 

Os seus olhos presurutadores seguiam na 
physionomia mudável, ora as sombras, ora a 
luz, calculando o estado da alma o os abys- 



86 



Empresa da fli*torii d* Portugal 



mos da paixão. Dado o choque mais forte, o 
que procurava era trazel-o insensivelmente 
da certeza á duvida tornando mais fácil as- 
sim, e menos violento, o ultimo abalo de que 
esperava tudo. 

Fazendo-o assentar junto a si, e pegando- 
lhe na mão, o padre Ventura, depois de curta 
pausa, accudiu com bondade : 

—Ora pois ! Adeante da sepultura não ha 
nada, disse eu ; mas quando ella não nos rou- 
bou tudo, o coração, embora chore, ainda po- 
de ter esperança. Não ha tempestade, depois 
da qual não brilhe o sol 

—Esperança, meu padre! Qual?— accudiu 
Jeronymo com desalento— Não estou aqui 
preso para ser condemnado talvez ámanhã ; 
longe de todos, aborrecido como assassino, e 
detestado até por ella ? . . . 

— Quem sabe ? Thereza vive ; é o importan- 
te ; será fácil convencel-a de que está inno- 
cente; porque o golpe . . . 

— Padre Ventura, todo o meu sangue me 
parece pouco para resgatar uma gotta do que 
fiz correr . . .—interrompeu o mancebo. 

— Acredito. Então porque nos aííligimos? O 
que ó irremediável n'esta desgraça para per- 
dermos a esperança em Deus, a fé, e a alma 
com as blasphemas do suicídio? Se a visse, se 
ella o ouvisse ... 

— Vêl-a ! Eu? ! . . .--gritou o preso, ergueu - 
do-se com ímpeto, cerrando os punhos, o fu- 
zilando-lhe nos olhos outra vez o clarão, que 
aterrava o visitador— vêl-a? Falar-lhe ?... Não 
sabe, padre, que me costumei a viver com a 
minha ideia, e não com a mulher que fez de 
nm coração crédulo o esearneo dos seu , ca- 



Obras completas dc Rebdlo &-* Silva 



87 



prichos, o preço Infame dos amores do rei . . . 

— Silencio, louco !— -exclamou o jesuita. 

—Que não a vejo a ella, mas ao anjo que vi 
crescer, que adorei, que era a guarda e a es- 
trella da minha vida ?— proseguiu o mancebo 
cada vez mais arrebatado —Vêl-a, á pérfida 
que me deixou chorar, e sem dó foi n ? essa 
noite negar as suas promessas, e rir-se'd'ellas 
nos braços a que se vendeu?. . . Que me im- 
portam as palavras ? A bocca, que as profere, 
não beijou os lábios de um príncipe ? . , . Es- 
ta ideia é fogo que está a arder-me aqui !— 
e levou a mão convulsa á testa contrahida-— 
Qàando recordo aquella noite, em que padeci 
mais do que se ha de penar no inferno em sé- 
culos de eternidade, sobe-me a vingança ao 
coração, e sinto uma nuvem cobrir-me os 
sentidos e o juizo ! . .. Não a vi, como o vejo 
aqui, padre Ventura ; não a ouvi dizer-lhe o 
que não se diz com tanto amor nem a um 
esposo, palavras que me cortavam a alma, e me 
fariam mil vezes morrer de jubilo, se fossem 
para mim ? ! . . . Vêl-a ! ? Não a conheço ; não 
a amo ! Sabe porque choro,porque não quero 
nem posso resistir ? E* por ser obrigado a se- 
pultar doze annos a flor e a gloria da minha 
vida no desprezo de uma hora. O mundo é 
grande ; conheço ; mas sabe o que ó n^lle pe- 
queno? O coração humano ! No meu, depois 
de queimada pela vergonha a imagem que foi 
tanto tempo a sua companhia, não ficaram 
senão cinzas. Um sopro mais forte que as le- 
vante, e não resta nada! Vossa paternidade 
bem vê que assim não se pode viver ! 

O visitador cruzou os braços e inclinou a 
rabeca. As suas pálpebras molharara-se de 



88 



Empreza da Historia de Eortugal 



lagrimas. O peito aperton-se-llie e gemeu. A 
amizade paternal, que o trouxera alli, sentiu 
a dor cortante que nos trespassa junto do fi- 
lho moribundo ; mas o espirito não se acur- 
vou, nem a intelligencia cedeu. 

Deante do perigo, firmou-se e juntou as 
forças. 

Depois de um instante de reflexão, perce- 
beu que era chegado o momento de arriscar 
tudo, de perder ou ganhar a victoria em um 
só lance. Só um abalo repentino podia sus- 
pender a crise, cortar a demência, e pelo es- 
panto dar á razão o tempo [de não succum- 
bir. 

O jesuita não hesitou. Erguendo a fronte e 
fazendo tremer a vista desvairada do mancebo 
deante da severidade fixa da sua, extendeu a 
mão sobre elle com auctoridade, e disse n'a- 
quelle tom, que subjugava a alma dos outros 
á vontade inflexivel da sua : 

— E' falso ! Thereza não amou, nem ama 
ninguém ! A que viu não era ella ! 

Jeronymo, escutando-o, recuou deante das 
suas palavras, como se recúa de uma espada 
nua apontada ao rosto. Os olhos pasmados, a 
respiração oppressa, e a immobilidade apa- 
thica do rosto, diziam a revolução profunda 
causada por esta voz, que outra vez accordára 
no seu coração esperanças e desejos, que sup- 
punha mortos. 

—Não era ella?! — repetiu machinalmente 
depois de uma pausa. 

— Não !— redarguiu o padre, dando ao mo- 
nosyllabo toda a força. 

O mancebo olhava sempre como um ho- 
mem despenhado de grande altura, e salvo 



Obras completas de Eebello da Silva 89 



por um milagre, quando ainda duvida se exis- 
te, ou se tudo o que o rodeia ó illusão. 

—Os meus olhos não viram ? Os meus ou- 
vidos não ouviram? Eu não estava alli, não 
conheço a sua voz ? . . . Qual de nós estará 
louco, padre Ventura ?— exclamou por fim 
com uma risada dolorosa, que lacerava a 
alma. 

— -Aquelle que duvida !— replicou o jesuita 
sempre no mesmo tom. 

—Então os sentidos mentem? O que se 
apalpa chama-se illusão Tudo isto foi um pe- 
sadelo, e nada mais ? 

—Não ! As coisas existiram ; mas as pes- 
soas foram outras. 

— Assim o príncipe real não era o príncipe? 
—insistiu Jeronymo com a anciedade do ho- 
mem que nega com receio de crer de leve a 
boa nova. 

—Sua magestade el-rei D. João v esteve alli, 
e até recebeu uma ferida leve da sua espada ! 

— E Thereza?... Não vi correr o sangue 
quasi nos braços d'elle ? 

—Não ! Thereza nunca veiu alli ! 

— Padre Ventura !— disse o mancebo depois 
de alguns instantes de afflictivo silencio, em 
que se lhe ouvia bater o coração no peito— a 
sua bocca sempre foi verdadeira, mas agora!... 
Sabe que enganar-me era peior do que a mor- 
te? Sei que me deseja bem; ó um sacerdote 
virtuoso, inimigo da mentira e da traição ; te- 
nha dó e piedade ! não exacerbe a minha pai- 
xão; n'este momento sinto que posso de repen- 
te enlo aquecer aqui aos seus pés de jubilo ou 
de dor ... 

— Christo para convencer o apostolo— ro- 



90 



Etnpreca da Historia de Portugal 



darguiu o padre— disse-lhe só : olha e toca. 
Eu, peccador e mortal, seguirei o seu exem- 
plo, e perguntarei ao incrédulo : que pedes 
para acreditar? 

O capitão, com a vista e a physionomia 
exaltada, deu alguns passos incoherentes, ex- 
tendeu os braços para o italiano, e clamou 
com profunda angustia: 

— Padre! Padre! A razão não tem forças 
para tanto ! O coração não pó de com mais an- 
ciãs. Veja bem : ó a vida ou a morte ! Thereza 
está innocente? Sobre a sua alma jura-me que 
os meus olhos mentiram? 

—Juro! Thereza não veiu alli. 

Houve outra pausa. No rosto de Jeronymo 
a duvida e a certeza, a alegria e a desespera- 
ção, appareciam, sumiam-se, e voltavam rápi- 
das como as commoções que o agitavam. A 
cabeça, por fim, desfalleceu ; o coração abriu- 
se aos prantos ; as lagrimas, muito tempo re- 
presadas, correram livres pelas faces. Mas pas- 
sado um instante, o lucto da alma tornou a 
cobrir-lhe o semblante ; o brilho da vista es- 
moreceu ; a expressão serena turvou-se; e, pon- 
do-se de pé com ímpeto, gritou: 

— Não ! Não ! Eu vi ! E impossível. . . 

—Então sabe que feriu a Thereza?— disse o 
padre tentando o derradeiro esforço. 

-Sim! 

— Protesta que a viu banhada em sangue? 
-Vi! 

— E se ella se descobrir, e mostrar que não 
tem signal do golpe; e se aquella, que na rea- 
lidade recebeu a ferida, lhe apparecer e pa- 
tentear a cicatriz, duvidará ainda? 

— Se tudo fosse assim, padre Ventura, não 



Obras completas de Esbelto da Silva 91 



o negava ; cahia do joelhos com as mãos ergui- 
das, e diria: meu Deus! Mais cem annos de 
martyrio como este, com tanto que este sonho 
dure ! 

—Bem ! Agora as provas !— replicou o pa- 
dre, dirigindo-se para a porta, e voltando pas- 
sados instantes com Thereza pela mâo. 

Cecília seguía-os, ainda pallida e fraca, pelo 
braço de frei João dos Remédios. 

—Eis o instante que o perde ou salva ! — 
murmurou o visitador ao ouvido da donzella 
—Animo e paciência ! Não se esqueça das pa- 
lavras que ha de dizer-lhe. 

Em quanto o italiano abria a porta do apo- 
sento, e fazia signal aos que o esperavam an- 
ciosos, o mancebo tinha-se assentado, e com 
o rosto entre as mãos não dava accordo do oc- 
corrido. 

De repente descobrindo os olhos, á voz do 
jesuíta, achou deante de si todos aquelles que 
não contava tornar a ver, e foi tal o sobresal- 
to, que lhe passou pela vista um relâmpago, 
e que se poz de pó como se occulta mòla o to- 
casse, e sem vigor cahiu de novo na cadeira e 
quasi nos braços do visitador. 

Fez-se então um grande silencio. O gesto 
do padre, tremulo a seu pezar, e inclinado so- 
bre o corpo de Jeronymo, era o único signal 
do esperança, que animava todos os corações. 

— Foi um sonho— murmurava o mancebo 
com os olhos fechados— um sonho, de que 
seria crueldade accordarem-me ! Quero vêl-a 
ainda. Diziam que vivia ! Enganavam-me ! 
Veiu do céu, e está-me chamando ! 

— Não, Jeronymo— accudiu em voz suave 
Thereza, pegando-lhe na mão— não é um so- 



Hjtnpréza 3a Historia de Portugal 



nlio. Soube que não podia viver assim, e ve- 
nho dizer-lhe que a experiência acabou, que 
o amo, e que nunca amei a outro ! 

Eram as palavras ajustadas; era a allusão 
ao ultimo adeus trocado no quarto de There- 
za, quando Jeronymo se despediu. 

Ouvindo-a, o capitão levantou-se com ím- 
peto, abriu os braços, e como se musica invi- 
sível o attrahisse, pasmou a vista absorta, e 
com os lábios anhelantes pareceu deixar fu- 
gir a alma atraz do ultimo som doesta voz 
amada. 

Depois estremeceu ; olhou em redor ; e sol- 
tando a mão deu um grito, e apertou a cabeça 
entre os punhos, como se uma dor atroz lhe 
rasgasse o peito. 

Vendo Thereza, recahira na sua desespera- 
ção. A scena do jardim retratou-se-lhe na 
mente ; e um riso irónico cingiu-lhe os beiços 
lividos, e deu á sua physionomia teriivel as- 
pecto. Desviando a donzella com um gesto 
voltou-se para o jesuíta, que o observava, e 
disse : 

— O que vem fazer aqui esta senhora? Não 
sou rei, não sou príncipe ! Não lhe posso offe- 
recer senão as penas que lhe devo, e um logar 
na sepultura que me abriu , 

—Jeronymo l-murraurou Thereza, com os 
olhos turvos não de ira, mas de compaixão. 

— Meu Deus! — soluçava Cecília em voz 
suffocada, e erguendo a vista lacrimosa para 
o céu— como as suas palavras ferem ! Como 
cahem sobre mim ! O mundo será como elle 
injusto, e sem misericórdia? 

— Diga-lhe que se onganou— proseguiu Je- 
ronymo no tom baixo o vibrante, que annuncia 



Obras completas de Bebello ãa Silva S3 



as tempestades da alma— Esta prisão 6 mise- 
rável para a ainante de um rei. Veiu para lhe 
levar a noticia da minha morte, ;e negociar 
com ella? Pôde ir segara ! E' mais um collar 
de pérolas com que ornará o peito em escarneo 
do amor vendido, e do coração que trahiu ! 

Cecília chorava de pejo e de pena. There- 
za colhia no rosto do jesuita paciência e re- 
signação para conter o orgulho. Este, pegan- 
do então no braço do mancebo com vehemen- 
cia, e arrastando-o quasi, trouxe-o para junto 
da donzella, e exclamou com immenso impé- 
rio : 

— De joelhos, louco ! De joelhos ! Peça a es- 
te anjo que lhe perdoe, porque veiu consolar 
a sua magoa, e salval-o do abysmo. Abra os 
olhos ! Quem amou o principe, sem saber a 
sua qualidade, em toda a innocencia e candu- 
ra, não foi Thereza, era Cecilia ! Quem rece- 
beu o golpe da sua espada, e por milagre re- 
sistiu, também foi ella. A voz que ouviu era 
a sua ; a carta que lhe entregaram não veiu 
para outra. Veja o signal da ferida; veja-me o 
seu rosto, a amargura das dores. Sua irman 
quasi que se levanta do sepulchro, para o per- 
suadir a ser feliz! Duvida ?! E' tão ingrato que 
não tem voz para louvar a Deus e chorar os 
erros do seu delírio ? 

E acompanhando as falas das acções obri- 
gava-o a ver e a desenganar-se. Quando con- 
cluiu a ultima phrase, Jeronymo soluçava aos 
seus pós. Estava salvo. 

O visitador tinha escolhido com rara saga- 
cidade o momento para tentar o lance decisi- 
vo. Um minuto mais cedo podia causar a lou- 
cura pela alegria, um minuto mais tarde, e as 



04 Êfnpfêêã 3a Historia áé Vofiugal 

trevas quo já escureciam a alma, podia con- 
densar-se para sempre ! Assim mesmo foi tão 
grande o abalo, que o capitão debalde procu- 
rou a voz, e não achou senão as lagrimas. 

Os espectadores d'esta pungente scena ex- 
primiam no semblante a anciedade com que 
tinham esperado o effeito d'ella. Agora que o 
perigo estava passado, e que o mancebo lhes 
era restituido quasi milagrosamente, o pran- 
to, silencioso também, das duas meninas, re- 
velava a força do espirito que lhes fora neces- 
sária para reprimirem a ternura e a piedade. 

Frei J oão dos Remédios, que desde o prin- 
cipio ficara immovel como uma estatua, e sem 
animo nem para respirar, uniu as mãos e er- 
guia os olhos húmidos ao cóu. Sentia de me- 
nos um peso enorme. 

—Vencemos !— disse o padre Ventura com 
uma satisfação que depois do êxito revelava 
o excesso do seu receio — Deus teve compai- 
xão d'elle, e concedeu-lhe um toque da sua 
graça. Agora temos homem. E' deixal-o soce- 
gar. Aquelle triste coração padeceu e gemeu 
tanto, que precisa de paz e silencio alguns 
instantes para tornar a si. Então, padre mes- 
tre, não lh'o dizia ? Não vimos aqui duas he- 
roinas apezar de tão extremosas e sensiveis ! 
Não ha nada como o amor para fazer estes 
prodígios. 

—De certo, sem duvida!— respondeu o fra- 
de, que tinha ainda na garganta um nó. 

Jeronymo, sem proferir palavra, ergueu-se 
dos pés do visitador, e foi ajoelhar-se deante 
de Thereza, pegando-lhe na mão, e cobrindo-a 
de ardentes ósculos. A vida que sentia flores- 
cer de novo, via-se-lhe nos olhos cheios de 



teinplava. 

— Perdoas-me?-— exclamou por íiin o 
tremula — Não íui eu, foi um louco, um d 
graçado que duvidou ! Devia morrer na hora 
em que cheguei a acreditar ! . . . 

— Socegue, Jeronymo. Não é a mim, mas a 
Cecilia, que deve pedir perdão. Eu posso 
amar e ser íeliz ainda, mas ella ! . . . — Um sus- 
piro e uma lagrima preciosa em um coração 
tão altivo, interromperam-lhe as palavras. 

— Minha irmã, minha querida Cecilia ! — 
accudiu o mancebo, beijando-a na testa, e re- 
cuando com pasmo ao notar a pallidez trans- 
parente no seu rosto — Oh, como padeces ! — 
proseguiu commovido — Que dor te cortou a 
alma por minha causa ! Quem ha de consolar- 
te, e fazer-te feliz agora ? . . . 

— Deus, e a alegria dos que estimo ! — re- 
plicou a donzella com tristeza — A culpa de 
tudo foi minha ; vim aqui para remediar o 
que tinha remédio. Jeronymo, perdôe-me um 
erro que foi do amor e não do coração. Am- 
bos chorámos tanto, que não sei qual pôde 
queixar-se mais ! 

— Mas o teu sangue, o sangue de minha 
irmã, que eu derramei ? . . . 

— Não se accuse do que não fez . . . Não fui 
eu metter-me entre as espadas ? 

— Bem ! Muito bem ! — atalhou o padre 
Ventura, sorrindo para disfarçar a sensação 
causada pelo que ouvia, e virando-se para o 
procurador de S. Domingos — Visitámos os 
enfermos, e ficam sãos. Agora acabemos a 
obra, tractando de soltar os encarcerados. 
Cecilia ! — accrescentou com um toque de 



96 Empreza da Historia de Portugal 

piedade na voz — • então ? sempre persistimos 
na antiga resolução ? Sente-se com a necessá- 
ria força para ir e para o ver ? Sei a grandeza 
da sua alma, mas esta dor pôde dispensar-se; o 
sacrifício deixa de ser meritório quando ê 
excessivo . . . 

— Meu padre, já disse; tenho animo para 
tudo. Bem sabe ! A única alegria que ainda 
podia ter era vêl-os felizes e unidos. Agora 
tenho pressa de dar o ultimo passo . . . Sou de 
mais no mundo. 

— Pois sim ; mas não nos precipitemos — - e 
baixando a voz de modo que só ella ouviu.— 
Acha-se com íorça para dizer o mesmo para 
aonde vai ? Não o ama ainda ? . . . 

— Hei de anial-o sempre! Que importa? 
N'este mundo só Deus e vossa paternidade o 
sabem. 

— Ha alguém de mais no segredo, que nos 
pôde atraiçoar, minha filha ! — redarguiu o 
jesuita, meneando a cabeça. 

— Elie ? — accudiu a donzella, cuja palli- 
dez se córou de rosas — Talvez adivinhe ! 

— Não, referia-me ao amor, Cecilia. O fu- 
turo lhe dirá que não se morre, mesmo na 
clausura, se o coração deseja viver, e olha 
para fóra. 

— Creio em Deus e na sua graça, padre 
visitador. 

— Todos cremos. Mas ! . . . 

— Hei de ter valor . . . 

— Da bocca para fóra, e dentro ? . . . 

— Viverei com elle n^alma; não ó crime. 
Cuida que fico só ? 

— O que receio é que não possa viver sem- 
pre. Quer que vamos? Thereza e frei João 



Obras completas âe Bebello da Silva 9? 

não sahem d'aqui. Para nós o mais difficil 
ainda está por fazer. 

— Paciência ! O derradeiro suspiro sempre 
custa agonia. Não hei de chorar, nem tremer; 
verá ! E' o ultimo adeus. 

—Filha ! filha ! Não prometta ! 

—Oh, se aquelles soubessem o mal que me 
fizeram ! . . . Ainda bem que são felizes— disse 
com as lagrimas nos olhos, e melancholica 
resignação na voz. 

—Porque não quer vencer-se, e esperar em 
Deus também ? 

—Porque accordei tarde, padre, e não está 
já na minha mão. Não faço falta a ninguém. 
Thereza consolará minha mãe. Vamos! 

O jesuita deu-lhe a mão sem responder, e 
foram ambos. 

Thereza e Jeronymo, esquecidas as passa- 
das magoas na beatitude presente, estavam 
tão longe de tudo, que não perceberam a 
sahida. 

Frei João, sentado e pensativo, fitava os 
olhos nos dois amantes, e seguia com a ideia 
a educanda. Elie ó que avaliava bem, mais o 
visitador, o immenso sacrifício da donzella ; 
por isso, de momento para momento, uma 
lagrima corria pelas suas faces, e um suspiro 
exhalava-se-lhe do peito, quando os lábios 
trémulos murmuravam:— Pobre Oecilia! 



VIU— A MOCIDADE DE D. JOÃO V — V 



7 



98 Bmpreza àa Historia de Portugal 



CAPITULO XLI 
Sou rei I 

Sahindo da prisão do castello de Lisboa, 
com Cecilia, o jesuita dirigiu-se ao paço da 
Ribeira, para onde o príncipe real mudára a 
residência, apenas falleceu Pedro n. 

Pelo caminho, em quanto a sege rodava, 
ora trepando, ora descendo as ruas Íngremes 
e tortuosas da cidade, o padre Ventura repe- 
tia as ultimas advertências á educanda, apro- 
priando as palavras ao seu estado, admirado 
interiormente da fortaleza do seu espirito. 
Em annos feitos para mais "se escutar a pai- 
xão do que o dever, a irmã de Thereza não 
deixava escapar o menor signal que trahisse 
a profunda e incurável dor que a tinha tres- 
passado. Como se nada tivesse occorrido, o 
sorriso nos seus lábios era sereno apezar de 
melancholico; a doçura e a resignação da alma 
liam-se-lhe nos olhos reflexivos, ao passo que 
uma sombra de tristeza, cahindo-lhe como 
véu ligeiro sobre as feições, augmentava o 
interesse ao semblante pallido, e exprimia 
uns longes da saudade, com que o coração 
sempre diz adeus aos sonhos, que foram a 
sua esperança e alegria. 

Quem a houvesse conhecido primeiro, e a 
contemplasse agora, em vão buscaria na phy- 
sionomia pensativa de Cecilia, aquella gra- 
ciosa mobilidade, aquella espirituosa anima- 
ção, que constituiam a seducção e o encanto 
da sua belleza. A magoa, passando, apagára 
d'ella os riso» © as rosas. 



Obras completas de Bebello da Silva 



93 



As pupillas negras, cujo brilho se molhava 
no fluido suave da ternura, tinham perdido o 
calor e a luz ; e se acaso se volviam ao céu, 
ou por momentos faiscavam, baixando-se á 
pressa, turvas de lagrimas mal queimadas, 
escondiam a nuvem sob as pálpebras, langui- 
das com o peso da angustia. 

Ao visitador nenhuma d'estas mudanças se 
occultava, e hábil em apreciar a extensão 
do golpe, pasmava comsigo mesmo da gran- 
deza moral, capaz de supportar o infortúnio 
com o heroísmo do silencio, exacerbando as 
próprias penas para minorar as alheias, e 
chorando dentro da alma a viuvez eterna dos 
affectos, sem que o sangue do seu pranto, e a 
dor que o derramava, arrancassem um quei- 
xume á bocca, nem á vontade uma só fra- 
queza ! 

— Meu Deus !— dizia comsigo o jesuita pen- 
sativo—insondável mysterio é a vida humana, 
e como o mais velho e experiente no conheci- 
mento das paixões fica pequeno e humilde a 
cada instante ! Cuidei que sabia algum coisa 
do coração, porque o estudei primeiro em 
mim, e depois nos outios. Vaidade das vai- 
dades ! Uma creança ignora talvez menos. O 
forte suecumbiu, e prostrou-se á desgraça ; o 
soldado, aífeito a desaífar a morte, não se atre- 
veu com medo da solidão a separar-se do 
amor ; e uma donzella melindrosa cheia de il- 
lusoeSj na flor da formosura, no maior extre- 
mo da ternura, achou de repente o animo dos 
heroes, e a abnegação dos martyres ! Hontem 
ella e que tremia ; hoje ella é que nos con- 
sola ! . . . Aonde resido o segredo d'isto ? . . . 

Como se adivinhasse as meditações do vi- 



100 Empreza 3a Historia de Portugal 



sitador, Cecília ergueu a vista, e disse-lhe 
com o delicado sorriso, que tanto pungia nos 
lábios : 

— Se me afíirmassem, padre Ventura, que 
isto havia de succeder, e que eu resistia e ti- 
nha forças para vir aqui, para tornar a vel-o 
e a escutal-o, sabendo que o amo, sabendo eu 
o amor com que elle me estremece, dizia que 
era impossível, e protestava morrer primeiro. 
E veja ! Sou de todas as creaturas a mais in- 
feliz, porque no mundo aonde cabe o mendi- 
go, não me cabe o coração ; e assim mesmo 
posso com a cruz, trago os olhos enxutos, e a 
saudade corta-me, mas. não me mata ! 

— Louve a Deus, filha, e creia na sua bon- 
dade !— respondeu o jesuita com os olhos ar- 
rasados d'agua— Elle gradúa-nos as forças 
conforme o sacrifício. 

—Creio em Deus, padre visitador, e hoje 
mais do que nunca ! Quer que lhe diga? No 
céu, aonde não ha reis, nem príncipes, aonde 
tudo é amor e jubilo, o esposo ha de unir-se 
á esposa, e aquelles que as vans soberbas do 
mundo separaram não hão de formar senão 
uma só alma e uma paixão. Creio em Deus, 
peço-lhe fé e conformidade, e hei de resur- 
gir da sepultura aonde vou penar, nos braços 
dos seraphins, cantando os louvores eternos, 
e velando em espirito e sem crime por quem. . . 
teria nascido para mim, se um reino e um 
povo não valessem mais do que o extremo de 
uma mulher. No excesso do amor, acho até a 
magoa suave, porque me sacrifico para elle 
ser livre e poderoso ; para elle reinar como 
um grande príncipe ! . . . A mim basta-me a 
saudade ! . . . e a noticia de que se lembrará 



Obras completas de Rsbdlo da Silva 



101 



alguma vez do tempo em que . . . sonhámos 
sem saber o perigo ! 

O padre Ventura tinha tudo disposto no 
paço para o desenlace do seu plano. 

Diogo de Mendonça, que tomava a peito a 
sorte de Jeronymo, mas com as precau- 
ções de hábil cortezão, encarregou-se de pro- 
porcionar uma audiência á educanda. Ins- 
truído da verdadeira causa da ira de sua ma- 
gestade, accrescentou com um sorriso, e um 
movimento de hombros particular, que os 
mares se iam acalmando, e que o bemfazejo 
coração de el-rei não resistiria ás supplicas 
de uma menina formosa e compassiva. 

O conde de Aveiras, e D. Luiz de Athaide, 
desejosos de concorrerem da sua parte para 
a soltura do mancebo, e o primeiro zeloso co- 
mo amante em cumprir as ordens de Catha- 
rina, ajustaram acompanhar a donzella até á 
porta do gabinete do principe, occultando- 
lhe o nome, e esperando a occasião que a sa- 
bedoria do visitador julgasse mais opportu- 
na para ella ser introduzida. 

Ao mesmo passo, e sem nenhum d 7 elles o 
suspeitar, o corregedor do crime, aproveitan- 
do a entrada, que o seu génio e veia chistosa 
lhe davam com o soberano, perdeu o receio 
desde que teve nas mãos o papel escripto pe- 
lo noivo de Thereza, e sem demora expoz a 
cabeça ao temporal, sustentando, contra as 
já minoradas repugnancias do monarcha, uma 
contestação, que faria empallidecer os aulicos 
de officio, se assistissem á practica que a esta 
hora se estava travando entre o principe e o 
Vassallo ! 

Tudo conspirava portanto a favor de Jero- 



102 Empreza da Historia de Portugal 



nymo ; e como succede não raras vezes, ató os 
acasos cahiam para o lado d'elle! 

Desde que ha intelligencias em uma praça, 
indifferente é entrar pelas portas, ou por 
iima de suas brechas. 

Foi o que aconteceu ao padre Ventura e a 
Cecília logo que chegaram. Munidos do com- 
petente aviso, nenhum dos officiaes menores 
do paço oppôz difficuldades; e ató o porteiro 
da canna arregaçou os circulos das suas tres 
barbas para dar um gracioso ar de riso ao 
pleni-lunio da face, cumprimentando a de- 
vota roupeta de Santo Ignacio, de que era 
irmão indigno. 

El-rei despachava em um gabinete que 
abria para a sala da galé por um dos lados, e 
deitava sobre o eirado pelo outro. Os archei- 
ros de guarda tinham ordem de deixar passar 
o secretario das mercês, logo que sahisse o 
corregedor do crime, e o camarista de semana, 
conde de Aveiras, esperava com o ministro 
(bastante impacientes ambos) que terminasse 
a conferencia do Camões com sua magestade. 

Na corte até o relógio é origem de ciúmes 
e de inquietações. 

O tempo concedido a qualquer súbdito, so- 
bretudo notando-se a boa sombra do soberano, 
calcula-se escrupulosamente, e serve de regra 
a lim de se graduar pelos quilates do valimento 
o odio espontâneo e a curvatura de dorso, de- 
vidos ao ditoso mortal assim honrado. 

Diogo de Mendonça, que estava a merecer, 
e que sabia que tinha grandes inimigos, en- 
sarilhava os dedos uns nos outros, silenciosa- 
mente, com a pasta debaixo do braço. 

O conde, amante e confidente, tinha pressa 



Obras completas de RebeMo da Silva 103 



de fazer um serviço agradável á sua noiva, e 
de colher um segredo no caso de elle existir. 

Ambos, pois, e por motivos diversos, encom- 
mendavam pouco a Deus a pessoa do Camões, 
mostrando no rosto senão cuidado, pelo menos 
alguma apprehensão. 

N'este momento appareceu o jesuita, tra- 
zendo pela mão a educanda, coberta do seu 
véu, e tremula de todas as commoções que de- 
viam combatel-a em tal logar, e próxima a 
entrar n'um lance para que se tinha prepara- 
do, mas que assim mesmo a suffocava. 

Apenas os passos subtis do seu alliado es- 
corregaram ao de leve pela alcatifa, e o sorriso 
fino e penetrante d^quelles olhos italianos 
lhe fez uma interrogação, o secretario das 
mercês adeantou-se. Depois de beijar na testa 
a neta de Lourenço Telles, segundo o costume, 
e de a confiar á protecção do conde e de D. 
Luiz (que passeava perto) pegou na mão ao 
visitador, correu a vista em redor com vigi- 
lância, e pondo os dois hombros direitos (caso 
raro !) encaminhou-se sem mimica para um 
quarto reservado, fechou a porta, e, atirada a 
pasta com arremesso para cima da mesa de 
reposteiro vermelho, disse, meneando a cabe- 
ça e olhando fito : 

— Sabe vossa paternidade, que eu dava mui- 
to dinheiro por estar outra vez em Hollanda, 
apezar da humidade e da sopa de cerveja ? 

— Porquê? — redarguiu o padre, investigan- 
do o olhar prescrutador, que elle lhe dirigia 
— Acha-se em perigo? Sua magestade já en- 
trou em Salento, ou mandou tirar para o es- 
tudar o papel de Idomeneo ? 

— Salento ó uma historia! Antes Salento ! 



104 Empresa da Historia de Portugal 

Sabe que mais? Roque Monteiro, tenho medo 
que venha acima de agua, e que me deite ao 
fundo a mim com dois penedos aos pós. Falei 
a el-rei no caso das cartas de Sabóia; disse-lhe 
o que ajustámos; ouviu-me tocando tambor 
sobre a copa do chapéu; e creio que não riu 
pouco da triste figura que eu fiz. Demónio ! 
Depois despediu-me com um tom muito serio, 
accrescentando, que elle examinaria! O que 
ha de elle examinar? Não sente n'isto as pó- 
gadas do lobo? 

— Vossa senhoria é apprehensiyo. E o papel 
deu-lh'0? 

— Certamente. Fechado e lacrado como o 
recebi das mãos de vossa paternidade. 

— Muito bem!— concluiu o jesuita serena- 
mente. 

—Muito bem?! Muito mal, digo eu! Ha 
dois dias, que não pude tirar de el-rei senão 
um leve aceno de cabeça. Estou á espera, á 
sahida do despacho... Sua magestade lem- 
brar-se-ha de me dar cama e mesa em uma 
de suas torres? Esta demora com o correge- 
dor do crime ! . . . 

— Melhor o ha de fazer Deus ! — atalhou o 
jesuita, sorrindo. 

—O desafogo de vossa paternidade ó que eu 
agradeço !— accudiu o ministro— E' verdade 
que quem ha de ir para a cadeia e padecer 
sou eu ! Porém mereço-o pela minha nimia 
boa fé. Metti-me como um parvo na bocca 
do leão . . . 

— Pelo contrario, parece-me que se tirou— 
disse o padre, dando ao rosto uma sombra de 
ironia. 

— Parece-lhe a vossa paternidade? Pois a 



Obras completas de Bebdlo ãa Silva 105 

mim não ! E o caso de ir de alçapões abaixo 
em S. Julião, ou no Bugio, não se resolve com 
a vaidade de meras conjecturas. Também ao 
conselho da fazenda pareceu a semana passa- 
da que dois e dois eram cinco, e el-rei poz- 
lhe por cima em bella lettra que eram qua- 
tro!... 

—Pôde ser. O conselho devia saber som- 
mar. Mas quanto aos papeis, sei de certo 
que el-rei já os examinou. 

— Vossa paternidade sabe, e não teve dó de 
mim, tirando-me da affiicção em que estou? 
— exclamou o ministro, erguendo os braços, 
e assestando os óculos á pressa — Pois eu não 
sou tão discreto, e por isso direi. . . 

— Que os regimentos para o governo da 
America foram assignados ante-hontem, e es- 
tão a expedir-se ? Não me queria dizer isto ? 
—interrompeu o visitador, placidamente. 

—Queria, queria; mas!... Tomára eu sa- 
ber aonde se mettem os curiosos que infor- 
mam a vossas paternidades ? ! Têem olhos e 
ouvidos em toda a parte. 

— Não se admire. E' porque fazemos pou- 
ca bulha, e cabemos em qualquer logar. Sei o 
muito que a companhia deve n'este negocio 
a vossa senhoria ; e não lhe occulto que era o 
maior que podiamos ter no tempo actual. 
Agora vou mostrar-lhe que não somos ingra- 
tos, nem pouco zelosos. Conhece esta lettra e 
estes sellos ? — accrescentou, abrindo o peito 
da roupeta, e mostrando-lhe um masso de 
papeis. 

— E' a lettra de el-rei, que Deus haja!.., 
São as malditas cartas de Saboya ! Ah !— E 
todo alvoroçado e convulso de alegria, Diogo 



106 Empreza da Historia de Portugai 



de Mendonça abraçou o vácuo umas poucas 
de vezes, e deixou cahir os óculos e partirem- 
se no sobrado, o que era sempre o seu rasgo 
usual nos grandes movimentos trágicos.— São 
ellas em corpo e alma !— accudiu de novo, ex- 
tendendo a mão para os receber. 

— Um instante, se permitte !— accudiu o pa- 
dre, conservando-os sem lh/os dar — Não de- 
seja saber o modo por que se realizou o mila- 
gre? 

— Depois, depois!— gritou o secretario das 
mercês— E preciso ver primeiro se o ladrão de 
casa não deixou alguma esquecida na pasta... 

— Antes, antes!— repetiu o jesuita, rindo, e 
negando-lh'as— Quanto a saber se falta algu- 
ma, como o segredo de estado prohibia a vossa 
senhoria abrir o masso, e sei que era incapaz 
de uma curiosidade pueril contra as ordens de 
el-rei, não vejo a maneira de se esclarecer. . . 
Sobre tudo estando ellas dentro de uma capa, 
e com os sellos firmes. 

— Tem razão vossa paternidade!— disse o 
diplomata um pouco mortificado da licção— 
Tres mil vezes razão ! O que maravilha ó esta- 
rem os sellos inteiros depois de alguém ler. . . 
porque leu, ou adivinhou, como quizerem! 

— Se fizesse a honra de me ouvir, eéo que 
lhe peço ha meia hora, não se admirava. 

—Sou todo attenção ! Desculpe vossa pater- 
nidade os movimentos naturaes. . . 

— Pois bem!— proseguiu o italiano comum 
gesto, que obrigou o secretario a engulir o 
resto do discurso— O papel lacrado, que por 
conselho meu entregou a sua magestade, en- 
cerrava a historia de toda a infame intriga de 
Roque Monteiro, contada por mim, e attesta- 



Obras completas de Rebello da Silva 107 



da pelo ladrão subalterno... aquelle celebre 
Thomé das Chagas que nós conhecemos. '. . 

—Ah! E depois? — accudiu Diogo de Men- 
donça cora anciedade. 

— Depois, el-rei nosso senhor faz-me a graça 
de não me olhar mal, e ordenou ao conde de 
Aveiras que me fosse chamar da sua parte, 
porque me queria ouvir. 

— Grande ideia tivemos! teve vossa pater- 
nidade, quero dizer. Eu não inventei nada, 
nem a pólvora, que é obra dos frades. E cha- 
mam-me esperto! Mas queira continuar, e 
desculpe as interjeições ! . . . 

— Sua magestade ouvia tudo da minha boca. 

— Tudo? — atalhou o ministro um pouco 
sobresaltado — Também a historia da nossa 
conferencia no meu gabinete? 

—Essa era para os cegos de lá; quero dizer; 
essa devia-lh'a contar Roque Monteiro, se a 
soubesse; felizmente ignora-a; porque vossa 
senhoria e eu somos pouco chocalheiros. 

— Famoso ! Famoso !— exclamou o diploma- 
ta, esfregando as mãos. 

—Como esperava, e lhe assegurei— prose- 
guiu o visitador— el-rei formalizou-se com a 
insidia de Roque Monteiro; e duas palavras 
que deixei cahir sobre a justiça de Trajano, 
acabaram de vencer a nossa causa no seu es- 
pirito . . . 

— Muito bem! Se lhe tocasse na continência 
de Scipião duvido que fizesse o mesmo — in- 
terrompeu o secretario, rindo e beliscando a 
orelha com delicias.— Sua magestade, que 
Deus guarde, leu com fructo a historia de 
Salomão... Imita-o na sabedoria, e... em 
tudo o mais. Nosso Senhor seja louvado. 



108 Empresa da Historia de Portugal 



— Scipião era republicano, e pareceu-me 
pouco delicado citar a el-rei exemplos que não 
viessem de um throno— redarguiu o italiano 
com o sorriso cheio de finura.— O caso ó que 
sua magestade, acabada a audiência, disse-me 
que fosse descansado, que elle daria uma se- 
vera licção a Roque Monteiro ; e quanto a vos- 
sa senhoria, que lhe guardasse segredo, mas 
que ainda o estimava mais depois do seu acto 
de sinceridade . . . 

— Grande príncipe ! Note vossa paternidade 
os talentos verdadeiros que mostra, distin- 
guindo as boas qualidades dos seus vassallos. 
El-rei acha-me sincero, e alguns detractores 
accusam-me justamente do contrario. . . Que 
deitem fogo hoje a essa mina e verão ! Eu ó 
que hei de rir. E depois, senhor padre Ventu- 
ra, depois ? Estou sempre a interrompel-o. E' 
um mau habito. 

— Depois el-rei pegou na penna, e passou 
ordem a Roque Monteiro para entregar ao 
portador todos os papeis de estado que esti- 
vessem em seu poder. O portador era eu. 

— Percebo ! Que triste cara havia de fazer 
com vossa paternidade ao lado ! Até um be- 
souro se ria d'elle ! 

— Nada; achei-o muito dócil, muito discre- 
to. No principio quiz honrar-me até com uma 
falsa confidencia ; mostrei-lhe que sabia o seu 
jogo ; falámos muito do tractado de Methwen, 
que teve a gloria de negociar . . . e despedi- 
mo-nos bons amigos. 

—Mas vossa paternidade com os papeis na 
mão. 

—Está claro. A que ia eu lá? O senhor 
Roque Monteiro foi logo ao paço, e encontrou 



Obras completas de Rebello da Silva 109 



sua magestade a tempo que subia a escada de 
mármore para ir á galeria do terraço. El-rei 
deixou logo cahir a viseira, o que o torna 
outro, e voltando para elle só meio rosto, dis- 
se-lhe : «Roque Monteiro, está o tempo lindo 
para uma jornada até á província. Quando 
parte?» «Vinha pedir exactamente as ordens 
de vossa magestade !» (respondeu o seu amigo, 
que também desde hontem receio que o seja 
meu). «Pois bem (repetiu sua magestade) apro- 
veite a occasião, vá ver as suas terras, e de- 
more-se. A lavoura ó util á alma e ao corpo !» 
Depois deu-lhe a mão a beijar sem lhe pôr os 
olhos, e acabou de subir, não accrescentando 
mais. 

—Roque Monteiro desterrado?! Bravo! 

—Eu tinha dito a vossa senhoria que Ro- 
que Monteiro havia de achar o tempo bonito 
para uma jornada ás suas terras. 

—Tinha ! Tinha ! Mas parece-me ainda um 
sonho. 

— Aqui tem agorp, as cartas; el-rei insi- 
nuou-me que deseja que vossa senhoria lh'as 
entregue pessoalmente. Como está satisfeito 
com os seus serviços, ó provável que lhe dê 
algum testemunho hoje mesmo. . . 

—Vossa paternidade ó magico ? — gritou o 
diplomata, radioso. 

— Não senhor, sou exacto. O decreto que o 
nomeia secretario de estado acha-se lavrado. 
Logo o ouvirá da bocca de el-rei. Agora tra- 
cte de ser bom cavalleiro : os primeiros mi- 
nistros de facto, e não de direito, parecem-me 
os mais seguros. 

— Se os tractados das potencias se executas- 
sem como o nosso, senhor padre Ventura — 



110 Empreza Historia da Portugtú 



disse Diogo de Mendonça, abraçando-o — não 
andava o mundo-em guerra. Como hei de agra- 
decer a vossa paternidade tanta amizade ? 

— Desejando-me boa viagem, e dando-me 
as suas ordens para Itália. 

— Então deixa-nos ? Agora que eu mais pre- 
cisava dos seus conselhos . . . 

— Vossa senhoria não precisa senão de duas 
coisas para ser grande ministro : vontade e 
acção ! Querer de véras, e obrar sem medo ! 

— E o nosso Jeronymo? — perguntou o 
ministro para fugir de um terreno desagra- 
dável. 

— Vamos ver se o milagre se faz ! Receio 
que tenhamos de nos contentar com um per- 
dão pouco generoso. El-rei duvido que o deixe 
ficar em Lisboa, e que se esqueça d'aquella 
estocada. . . 

— Ah ! A que não deitou sangue ainda me 
assusta mais ! — accudiu o ministro pensativo. 
— A ferida perdoava el-rei . . . bastava que 
Jeronymo uma d'estas noites se deixasse apa- 
nhar em algum passe ligeiro de espada preta; 
mas cioso e altivo como é sua magestade em 
amor e poder . . . 

— El-rei nosso senhor permitte que o pa- 
dre Ventura chegue á sua real presença ! — 
disse da porta o conde de Aveiras. 

O secretario das mercês enguliu á pressa o 
resto das reflexões, e pegou na pasta, alque- 
brando o hombro. O jesuita inclinou-se em 
silencio, e seguiu o camarista de semana. 

O príncipe estava em uma cadeira de bra- 
ços, de bello lavor, com espaldar e assento de 
velludo. Deante d'elle a mesa, coberta de um 
panno franjado do mesmo estofo, achava-se 



Obras completas de Rebeilo da SUw 



111 



cheia de papeis, sobre os quaes, e ao acaso, 
descançavam alguns volumes. A escrivaninha 
de prata maculada de tinta, e uma pequena 
pasta verde, que sua magestade fechou logo 
que se franziu o reposteiro para abrir passa- 
gem ao visitador, mostravam que el-rei tinha 
passado a manhã a trabalhar. 

As cortinas das janellas desciam em grandes 
pregas tomadas em garras de prata; e o forro 
das paredes de damasco escarlate, com filetes 
dourados, formando molduras largas, davam 
ao aposento pequeno e oblongo um aspecto 
nobre, mas severo. 

Segundo o ceremonial de então, só havia no 
aposento a cadeira em que o príncipe se as- 
sentava. Dois tremós de pau-santo, de talha 
alta e voltas de dragão nos pés, guarneciam 
os lados carregados de objectos curiosos da 
China e do Japão. 

Defronte da mesa do despacho, com o mos- 
trador virado para o rosto de sua magestade 
admirava-se em uma banca de charão e ma- 
dre-perola o magnifico relógio de sala, escul- 
pido como um primor de Benevenuto Oellini, 
e menos precioso pelo ouro, do que pela rari- 
dade dos lavores. Este relógio, presente de 
Luiz xiv a D. Pedro n, tinha um registo de 
musica, ao som do qual sahia uma risonha 
procissão de figuras bucólicas cada vez que 
batia as horas. 

Apenas o jesuita ajoelhou, e lhe beijou a 
mão, o príncipe, sorrindo-se, mandou-o levan- 
tar, e, virando-se para elle com bondade, disse : 

— Estimo vel-o, padre Ventura ! Tenho so- 
bre que o ouvir. 

O visitador inclinou-ge com profunda cor- 



112 



Empreza da Historia de Portugal 



tezia, e aguardou calado as ordens do sobera- 
no. Sua magestade corria entretanto pelos 
olhos um papel. Erguendo-se, dirigiu-se para o 
italiano com a physionomia aberta e certo 
fulgor na vista. 

— Sei que vossa paternidade ó prudente o 
de bom conselho ! Apezar de ser dictado com- 
mum, que em Itália não se fala senão para 
enganar, espero o contrario da sua parte, 
quanto ao que vou dizer-lhe. Medita-se resti- 
tuir o conde de Castello-Melhor a todas as 
honras, e ao seu exercicio no conselho de es- 
tado. O que passou, acabado está; e depois 
do seu desterro elle prestou grandes servi- 
ços: especialmente no caso da rainha de In- 
glaterra, D. Catharina, nossa tia . . . Persua- 
do-me, pois, de que foram os seus inimigos, 
e não as suas obras, que provocaram o desa- 
grado de sua magestade, que Deus tem em 
gloria. O que lhe parece ? Disseram-me que 
o conde e os padres de S. Roque não viveram 
bem em outro tempo . . . fale ! 

— O que passou, acabado está, vossa ma- 
gestade o disse !— redarguiu o jesuita serena- 
mente.— Nós, e o conde de Castello-Melhor, 
ao principio não nos entendemos ; ó exacto ; e 
depois estivemos em guerra; também ó ver- 
dade. São duas coisas que facilmente se ex- 
plicam ; porém hoje não ha razão para nenhu- 
ma d'ellas ; e com grande satisfação ouço da 
augusta bocca de vossa magestade as genero- 
sas resoluções da sua magnanimidade. A res- 
tituição do conde ao conselho honra o monar- 
cha, e serve o estado. Não está o reino tão 
abundante de sábios e de politicos consum- 
madoS; que possa dispensar o voto de um ho- 



Obras completas âe Uebdlo da Silva llâ 



mem como elle. Beijo a mão a vossa magestade 
pela graça que me concedeu, ouvindo-me! 

— Mas asseguram-me que o conde está cego, 
ou quasi cego ?— observou o príncipe. 

— Talvez; ignoro; mas os desgostos, e a 
leitura que tem tido, acho natural— respondeu 
o italiano— Assim mesmo com pouca vista 
estou firmemente persuadido de que ha de ver 
melhor as coisas, do que muitos que não ce- 
garam sobre os papeis de estado. 

— Bem! Noto com prazer que sabe ser jus- 
to e sincero, sem excepção de amigos, ou de 
inimigos. Duas palavras agora a respeito de 
outro negocio. O que houve entre o cavalhei- 
ro Methwen e Roque Monteiro no ajuste do 
traetado de commercio? Quero a verdade to- 
da. Os exemplos severos em um reinado novo 
são tão necessários como os actos de magna- 
nimidade em favor dos innocentes, ou dos 
menos culpados. 

— Vossa magestade concede-me alguma 
liberdade, sendo precisa, para dizer o meu 
voto ? 

— O que não perdoai ia era a falta d 1 ella. 
Diga ! 

—Ha rigores impossíveis, senhor! Não se 
costuma punir os erros dos súbditos sobre a 
effigie venerável dos monarchas. 

— Explique-se ; não o percebo ! — accudiu 
el-rei, olhando lito para elle como suspenso. 

— Obedeço ! Roque Monteiro practicou esse 
acto de sua livre vontade, ou por ordem do 
soberano? Se o acto fosse próprio, respondia 
elle, e era justo ; mas se a coroa estiver adean- 
te, e o negociador atraz, por cima de quem 
se ha de passar para o punir? Uma sentença 

VIU — A MOCIDADE DE D. JOÃO V— V 8 



114 Empreza da Historia de Portugal 



decapitava a memoria do amo a pretexto de 
castigar o ministro ! E os bons filhos, como 
vossa magestade, são tão respeitosos, que 
preferem sempre fechar os olhos a correrem 
em processo com a gloria de seus paes ... 

D. João V deu dois ou tres passeios, e, ti- 
rando algumas cartas da pasta, mostrou-as 
ao jesuita dizendo : 

—Sabe o que está n'estes papeis, e de quem 
foram ? 

—Vossa magestade não se dignou dizel-o 
ainda. 

—São informações preciosas ácerca da ne- ' 
gociação do tractado. E' a conta do que se le- 
vou por elle aos inglezes, ou antes do que 
nos custou a nós ! Só o padre Sebastião de 
Magalhães á sua parte ganhou um dote de 
vinte mil cruzados para casar duas sobrinhas. 
Devo sabêl-o, e não punir? Dar-me-ia tal 
conselho ? 

—Vossa magestade permitte que responda? 
— Fale sem receio. A sinceridade agrada-me 
sempre. 

— Senhor, cahindo no lume por acaso esses 
papeis, o que succedia ? . . . — insinuou o pa- 
dre, sem elevar a voz ao tom de pergunta, 
porém fazendo uma pausa, que desse logar á 
resposta. 

—Ficavam salvos os homens !— atalhou el- 
rei, mostrando pouco agradável semblante á 
hypothese. 

— Pois bem. Se eu fosse o monarcha já ar- 
diam. Para pena dos criminosos (se algum 
existe) basta o desagrado do soberano. A me- 
moria do senhor D. Pedro n pede este sacri- 
fício. A paz do reino não o exige menos. Se 



Obras completas de Rebeílo da Silva 115 

os povos desconfiassem de que os vendiam 
aos mercadores de fora, e que a beca dos mi- 
nistros cobria a venda, não era bom ; era pés- 
simo. Páro aqui. 

— E' o seu conselho ? — perguntou D. João 
com aspecto severo e sobrolho carregado. 

— Não sei outro ; e muito sentiria que ti- 
vesse a desgraça de não merecer a benevolên- 
cia de vossa magestade. 

— Bem! Muito bem!— accudiu o príncipe 
mudando repentinamente de physionomia, e 
com signaes de visivel satisfação— O seu vo- 
to foi o meu ; e a prova é que Roque Montei- 
ro parte ámanhã de Lisboa para sua casa da 
provincia, ignorando o verdadeiro motivo das 
minhas ordens. Para não ficar com escrúpulos, 
figurei-me agastado com a sua opinião, e pro- 
curei animar a contraria... Padre Ventura, 
ha occasiões em que não posso fiar-me senão 
de mim. Ainda bem que Deus illustra o rei, 
e o encaminha pela estrada que pizaram os 
mais edosos. Graças lhe sejam dadas por todo 
o sempre ! 

Esta devota jaculatória de sua magestade 
tinha por fim disfarçar a immensa satisfação 
do seu orgulho. 

O príncipe, vendo as próprias ideias pro- 
postas e approvadas, sem suspeita de lisonja, 
por um homem com reputação de sábio e de 
politico, não soube conter a alma, e não o pen- 
sando, descobriu a feição predominante do 
caracter. Conforme notámos na sua conver- 
sação com o secretario das mercês, o jesuíta, 
que já conhecia o desterro de Roque Mon- 
teiro, e por elle guiára as suas reflexões, sor- 
ria-se, por dentro, da facilidade com que os 



116 Empresa a*a Historia de Portugal 

nionarchas se illudem, e tomam por luminosas 
ideias a habilidade com que são aconselha- 
dos. 

N'este caso, louvando o que sua magestade 
practicára, e fingindo não o conhecer, o padre 
Ventura sem esforço nomeou dois homens 
grandes em um instante : em primeiro logar 
o príncipe, que se julgou desde logo experi- 
ente como Sólon ; em segundo logar a si mes- 
mo, que pela virtude de ajuizar, como sua 
magestade, subiu interiormente no conceito 
real, ganhando em mérito na proporção devi- 
da ! Assim se inventam no mundo coisas ra- 
ras ! 

D. J oão v deixou correr em silencio um ou 
dois minutos, consagrados a saborear no mais 
secreto da consciência as delicias d'esta adu- 
lação italiana, veneno fino, que lhe insinua- 
vam, com as austeras apparencias da verdade. 

Mas se o espirito estava contente, e a cabeça 
desvanecida ; se o rei se julgava predestinado 
por Deus com a sabedoria innata, o mancebo 
sentia ainda o coração bater-lhe no peito, e as 
illusões florirem-lhe na imaginação. Segundo 
o bello dito de Carlos v em Hernâni, a coroa 
ainda não tinha transformado o homem em 
águia imperial, a ambição ainda não afugen- 
tára o amor no seu voo impetuoso. 

Sua magestade, ao passo que admirava em. 
si mesmo, com invejável ingenuidade, os do- 
tes próprios do soberano, não tinha forças 
para se arrancar ao jugo suave das paixões, 
que dias antes era o enlevo da sua alma, e o 
paraizo das suas illusões. 

A imagem de Cecília, suscitada a todos os 
momentos pela saudade, e exacerbada pela 



Obras completas de Rebello da Silva 



117 



ausência e pelo terror dos perigos a que a jul- 
gava exposta, cada vez instava com mais 
força, e tomava maior poder sobre a sua vida. 

Achando-se livre, depois da morte de seu 
pae, logo suspendeu a partida do conde de 
Villar-Maior para Vienna d' Áustria; e sem se 
atrever a decidir, afagava mais ou menos, se- 
gundo as phases por que passava o espirito, o 
projecto de seguir os exemplos novos, elevan- 
do a filha de um súbdito obscuro ás honras 
do diadema. 

Luiz xiv, adeantado em annos, provado 
pelos revezes, cheio de experiência e desen- 
ganos, não offerecêra a mão a madame de 
Maintenon, e não gosava com ella, sendo rei, 
das doçuras da felicidade conjugal ? 

A severa figura do velho monarcha de 
França, cuja auctoridade em assumptos de 
governo era tão reconhecida, não lhe propor- 
cionava um argumento irrespondivel para os 
antigos conselheiros de seu pae ? 

Por cobrir os hombros com os arminhos 
reaes, e cingir na cabeça a coroa de ouro, dei- 
xára o soberano de ser homem, e devia unir- 
se sem amor, e contra o amor, a uma estran- 
geira que não podia supprir no seu coração o 
logar que outra oceupava ? 

A contestação que acabava de ter com o 
Camões do Rocio, e da qual lhe resultára o 
pleno convencimento da innocencia de Jero- 
nymo, e a certeza de que a ternura de Cecilia 
fora sempre e exclusivamente sua, assegurara 
maior império ainda ao affecto, acabando de 
desvanecer as ultimas sombras do ciúme. 

Cavalheiro, tinha a sua palavra empenha- 
da, e deshonrava-se faltando a uma dama. 



1 í 8 Etnpreza da Historia de Portugal 

Amante (embora príncipe), parecia-lhe que o 
throno seria um degredo e uma solidão, se 
não visse a seu lado o anjo, cujos extremosos 
olhos juravam á sua alma que a d'ella não vi- 
via senão de esperança. 

Ainda que o mundo e a distancia os sepa- 
rassem, não bastava a memoria e a saudade 
para fazerem das duas existências uma só? 
Não era o rei o primeiro filho da monarchia? 
Quem lhe negaria o direito de pegar na mão 
de qualquer senhora, e de a tornar egual a si, 
e superior ás outras ? 

Com o caracter e a vontade tenaz que a 
mocidade exaltava nas grandes occasiões, D. 
João v advogava em segredo perante a sua 
consciência, como rei, os desejos e interesses 
que o seu coração nutria como homem. Antes 
de declarar uma resolução irrevogável, son- 
dava em todos os sentidos a fortaleza do seu 
animo, certo de que a havia de necessitar no 
caso de romper com as tradições da corte, e 
de antepor á alliança politica a alliança de 
amor. 

O que mais o suspendia, era o receio de 
passar por menos hábil e prudente aos olhos 
dos vassallos, que podiam olhar o seu enlace 
como a precipitação fogosa e juvenil de um 
mancebo, que tinha a cabeça fraca e o espirito 
pequeno para chefe do seu povo, visto prin- 
cipiar pelo sacrifício das razões de estado, e 
pelo desprezo da sabedoria aulica ! 

A purpura impunha-lhe deveres ; o officio 
de reinar obrigava-o á abnegação ; querer não 
era tudo; os lisongeiros inclinar-se-iam ; os 
descontentes murmurariam: nem uns nem 
outros valiam meia hora do cuidado ; mas os 



Obras completas de Behello da Stiva 119 



imparciaes? Mas a Europa, cujos gabinetes 
fitavam os olhos no successor, tão moço, do 
terceiro soberano da casa de Bragança ? 

Não sabendo conter-se, nem vencer-sé, teria 
força para conter e vencer os mais ? Seu irmão 
D. Francisco, seus inimigos de Castella e de 
França, não aproveitariam o desgosto da fi- 
dalguia, as queixas do povo, a pobreza do erá- 
rio, e o mau efteito de um passo temerário 
para lhe machinarem a ruina, e apregoarem 
a incapacidade ? 

N'esta lucta da ambição com o affecto, o 
príncipe maldizia ás vezes o encargo da sobe- 
rania, e invejava a isempção humilde, mas 
feliz, do mais obscuro dos seus vassallos. A 
coroa figurava-se-lhe um presente funesto, 
que depois de acceito, separava o rei de todos, 
e até do próprio coração. Descer do throno 
para dar a mão á donzella sem jerarchia, em 
nome da reciproca ternura, não era expor-se á 
satyra geral, e desapparecer da scena? 

O sceptro larga-se com esplendor, quando 
se larga com a ostentação da philosophia e de 
uma grandeza de alma sobranceira ás maiores 
honras; assim o deixára Christina de Suécia; 
porém trocal-o pelo cajado dos pastores, asa- 
hir do paço para abrigar a felicidade domesti- 
ca debaixo do tecto rústico e campestre, mere- 
ceria o mesmo louvor, acharia alguma des- 
culpa? 

E que achasse! Consummado o sacrifício, 
perdido o sólio, e satisfeito o mutuo affecto, 
o rei, abdicando na flor dos annos, nunca mais 
teria saudade do throno? O horizonte ficaria 
puro e claro para ambos até ao fim ; o pomo 
da discórdia não rolaria entre elles, lembran- 



120 Empresa da Historia de Portugal 



do-se um demais, e procurando o outro esque- 
cer sempre ? 

Taes eram as reflexões do príncipe á chega- 
da do padre Ventura ; e segundo se vê, o seu 
espirito obrigava o fiel da balança a inclinar- 
se, ora a uma, ora a outra parte. Vendo o je- 
suita, que sabia a historia dos seus amores, e 
os não condemnára, nem descobrira, D. João v 
resolveu esclarecer-se ouvindo o voto d'este 
homem, cuja serena razão lhe inspirava res- 
peito e confiança. 

O que era (a seu ver) um segredo para to- 
dos, não o podia ser para o visitador ; e com 
elle estava em segurança, e falava em liber- 
dade. Apezar d'isso não se atreveu a correr de 
repente o véu. Preferiu approximar-se pouco 
a pouco. Na alma dos mancebos a timidez une- 
se á audácia ; esta quasi sempre está na acção, 
o aquella nas palavras. 

Sentando-se e disfarçando a commoção in- 
terior, com o mais agradável sorriso que ainda 
tinha mostrado, sua magestade desceu as pál- 
pebras meio cerradas, e desviando a vista da 
intuição do seu interlocutor, disse lentamente, 
e com affectada indifferença : 

— Padre Ventura, a primeira vez que nos 
encontrámos em Santa Clara, estávamos lon- 
ge de suppor que tão cedo quizesse Deus ex- 
perimentar-me com a pesadíssima cruz do 
governo dos meus povos. Prestou-me um 
grande serviço, e empenhei a minha palavra, 
de que nunca o esqueceria. Ainda que a pro- 
messa foi dita em segredo, e quasi aos pés de 
uma dama, o rei quer pagar as dividas do prín- 
cipe D. João, e tem vontade de o provar. Ha 
alguma coisa em que o meu poder lhe sejautil? 



Obraê completas de Rebdlo da Silva 121 



O jesuíta olhou e sorriu-se. A intenção do 
soberano não lhe escapava; mas julgou mais 
hábil obrigal-o a descobrir o seu pensamen- 
to ; por isso, curvando-se, respondeu com hu- 
mildade socegada : 

— Certo da grandeza de vossa magestade, 
chego aos seus pés para lhe lembrar a palavra 
dada em Santa Clara por sua alteza o príncipe 
real. 

— Ah !— interrompeu o monarcha, subindo- 
lhe a cor ao rosto.— E que noticias me traz de 
todas as pessoas .. . qne lá conhecemos ? 

— D. Catharina de Athaide . . . disse o ita- 
liano. 

— Deixemos essa ! . . . — accudiu el-rei á pres- 
sa e com um sorriso — Tenho o conde de Avei- 
ras ao meu lado para saber a todos os momen- 
tos que está cada vez mais bella e namorada. 
Mas Cecília?— accrescentou, pondo-se de pé, 
e vencendo por um movimento forte a timi- 
dez— Cecília, que vossa paternidade sabe que 
amei . . . que amo ainda ! 

—A educanda — redarguiu o visitador sere- 
namente—perdendo as illusões, e conhecendo 
que o amor de el-rei não podia pertencer-lhe 
— morreu. . . 

— Morreu ! Cecília morreu ? !— exclamou o 
príncipe, fazendo-se branco, e sentindo no 
coração um golpe que lhe esfriou o sangue. 

— Para o mundo! — concluiu o jesuíta sem 
se alterar— Como não podia tornar a amar na 
vida, escolheu Deus por seu Esposo, e volta 
a Santa Clara para tomar o véu. 

— Sem o meu consentimento ?— gritou D. 
João v, cujos olhos faiscaram, convertendo- 
se-lhe a pallidez no vivo carmim das faces, 



122 Emprega da Historia de Portugal 

em quanto o gesto e a vista diziam ameaça e 
cólera. 

— Sem o consentimento de vossa magesta- 
de !— replicou o jesuíta com ar de dignidade 
que sabia assumir nos instantes críticos— Em 
pontos de dever e de religião, a consciência 
passa adeante. Deus é acima de el-rei. 

— Muito bem ! — accudiu o monarcha, repri- 
mindo-se e dando alguns passeios agitados 
pela sala, para se fazer senhor do seu espirito. 
Decorridos momentos, e parando repentina- 
mente defronte do visitador, disse-lhe no tom 
altivo do orgulho ressentido : — Esperamos 
pela petição de vossa paternidade para ver- 
mos se está em nosso poder attendel-a. Fique 
certo de que desejamos cumprir as nossas 
promessas. 

— Eis a tormenta !— pensou comsigo o ita- 
liano—Não importa. Previ sempre que o bom 
tempo não havia de durar muito — Levan- 
tando depois a cabeça, e com a voz firme e 
natural de quem não rogava favor e sustenta- 
va direito, respondeu, inclinando-se : 

— O que venho requerer a vossa magestade 
não o pedirei á magnanimidade real do seu 
coração, mas á indefectivel justiça da sua ver- 
dade. Ainda que o offendido, como homem, 
seja el-rei, isso mesmo é de mais para eu es- 
tar seguro da sua clemência. 

—Ah !— exclamou D. João v, com um ges- 
to carregado— Continue! 

— Um Vassallo portuguez acha-se em ferros 
nas prisões do castello por um erro, que a 
vontade de el-rei não irá de certo aggravar 
em crime de lesa-magestade. Cego de ciúmes 
injustos, mas sinceros, teve a desgraça e o 



Obra* completas de Rebdlo da Silva 



123 



desaccordo de não desviar a tempo a sua es- 
pada, e um sangue precioso e sagrado der- 
ramou-se . . . 

— Fala de Jeronymo Guerreiro, capitão nos 
meus exércitos, e preso por tentativa de assas- 
sinio sobre a pessoa do principe real? — atalhou 
D. João v com severidade— O que pedeelle? 
Faltou-se ás leis ? Negaram-lhe a justiça ou a 
defeza ? 

— Pede a liberdade que lhe é devida. Elie 
não podia ferir o principe, nem el-rei !— acen- 
di u o jesuita com a maior placidez. 

— Engana-se, padre Ventara. E a prova é 
que não só levantou a espada contra mim, 
como trespassou com ella uma senhora, de- 
baixo da guarda e lealdade do principe, do 
primeiro cavalheiro d'estes reinos ! . . . 

— Sei perfeitamente— respondeu o padre 
com respeitosa dignidade — que el-rei ó o pri- 
meiro cavalheiro, e que preza esta qualidade; 
sei também que a guarda da sua lealdade foi 
sempre e deve ser a mais sagrada; mas igno- 
rava que os principes fizessem de reis nas tre- 
vas, escalando os jardins dos vassallos, e ex- 
pondo-se a encontrar os que alli defendem a 
honra e a innocencia. Por isso ha pouco disse 
que Jeronymo Guerreiro não tinha ferido a 
vossa magestade. A razão, era porque vossa 
magestade, como soberano, não podia estar 
anonymo deante dos seus vassallos, nem des- 
cer a logares aonde elles defendendo-se, o 
acutilassem ! 

—Padre Ven tura ! . . . —exclamou D. João v, 
irado e medindo-o com a vista— Escolhe o 
peior meio de alcançar o meu perdão. 

—Não venho pedir perdão, mas justiça a 



124 HJrnprcza da Historia de Fortugai 



el-rei; peço licença para o tornar a repetir!— 
replicou este friamente. 

— Acha então vossa paternidade, que o Vas- 
sallo pôde levantar a mão sem crime contra o 
monarcha ?— disse o príncipe. 

— Perdoe vossa magestade ! Acho que um 
cavalheiro não se esconde nem engana; en- 
tendo que o soberano não pôde descer do thro- 
no para ser parte e juiz dos seus vassallos, 
em vez de protector. Quando se sobe por 
cima dos muros, e se aproveitam as trevas, 
quando toma uma donzella por confidente, o 
monarcha ficou no paço ; quem se arrisca é o 
particular. Vossa magestade dirá, na sua sa- 
bedoria, se houve offensa em eu julgar que, 
tomando este caminho, el-rei sabia que de 
noite, e não entrando pela porta, queria correr 
o perigo de sahir na ponta de um florete, se 
o vassallo, f óra de horas, achasse a sua honra 
de menos, e a sua casa infamada. O soberano 
foi posto para pastor e defensor da grei. Se 
ao contrario d'isso tivermos o leão devorando 
o rebanho, maculando a innocencia e pondo 
em conflicto a virtude . . . parece-me licito 
atirar-lhe, porque na escuridão vê-se o ho- 
mem, e não a coroa; e o poderoso que tira as 
insígnias, e se disfarça na capa de aventureiro, 
ó um tyranno que se vinga por ser como elle 
o que a lei permitte que se faça aos outros. 
N ? este caso, creio firmemente, que a haver 
necessidade de perdão . . . não ó ao rei, ó ao 
súbdito ultrajado que importa ver se pôde 
dar-se. 

D. João v mordeu os beiços com tanta raiva, 
que os ensanguentou ; porém as suas diligen- 
cias para se reportar foram infructuosas. In- 



Obras completas de Eebello da Silva 125 



flammado o rosto, e com arremessados mo- 
vimentos precipitou-se quasi em duas passa- 
das do fundo do aposento, e achou-se deante 
do visitador, que a sua explosão não desar- 
mou da serenidade habitual. O príncipe irri- 
tado com a advertência austera, e ainda mais 
com a fortaleza do jesuita, exclamou: 

— Agora percebo ! Queriam arrancar-me o 
perdão de um criminoso, para Cecilia não fi- 
car sem esposo! O plano era sagaz; infeliz- 
mente para os auctores, leio na sua alma ! Ve- 
remos a quem enganam. Quanto ao assassino, 
a justiça dirá se as distincções de vossa pa- 
ternidade são mais fortes do que as leis e a 
minha coroa. Não é novo nem raro, que a com- 
panhia de Jesus defenda o regicidio ; ó verda- 
de que em presença do monarcha foi hoje a 
primeira vez ! Diga-me, padre Ventura, guan- 
do Deus passa aãeante do rei, é para o súbdito 
roubar ao seu príncipe a vida e a ternura . . . 
que o fazia feliz ? Cuida que hei de permittir 
que Cecilia seja de outro; e que a pretexto 
de falsas generosidades posso consentir em 
que a sacrifiquem ao homem que ousou. . . 

— Quem ousou — atalhou o italiano com a 
fronte erecta — não foi elle, foi vossa mages- 
tade ! Quem se esquece do officio de rei para 
se lembrar da vingança, e fazer do sceptro 
uma vara de tyrannia, não somos nós, é aquel- 
le que a sua consciência accusa. A quem dis- 
se o monarcha o seu nome e a sua qualidade? 
Teve medo de Deus, ou teve vergonha dos 
homens, quando se occultou ? Senhor ! na 
minha edade deviam poupar-se-me as injurias 
porque tenho muito a viver na eternidade, e 
muito pouco a esperar do mundo. Não formo 



126 Empresa da Historia de Portugal 



nem desfaço projectos. Se encontro algum 
desgraçado dou-lhe a mão, eis o meu pecca- 
do! Esse mancebo, exposto ao odio do prínci- 
pe, não ama Cecilia, nunca a amou. Allucina- 
clo por um erro desculpável, cuidou que per- 
dia em uma hora a esperança e a felicidade ; 
e achando nas trevas um estranho aos pós de 
uma mulher que julgava sua, íez o que fariam 
todos . . . defendeu-se, e defendeu-a ! 

— Ferindo a aimbos?! — interrompeu el-rei. 

— Não ! Querendo ferir o seductor, que de 
noite e com o rosto encoberto se introduzia 
n'uma casa honrada. Se el-rei não entende isto 
ou, o que ó muito peior, se não quer escutar 
senão o seu ressentimento, desgraçado povo, 
e triste rei ! N'esse caso dou ao céu as graças 
por ser de dias apenas a minha estada aqui ; 
escusam os meus olhos de se encher de lagri- 
mas, e o meu coração de magoa, vendo um 
reinado que principia por onde acabaram os 
mais detestados e cruéis. 

— Quem fala d'esse modo não pôde dizer 
se irá para fóra do reino, ou se ficará sepulta- 
do n J uma torre ! — bradou o príncipe. 

— E' verdade. A' sahida da barra não é só 
que estão os chavecos mouros. Perdoe vossa 
magestade se cuidei que os argelinos não ca- 
ptivavam em Lisboa ! . . . Levantarei as mãos 
a Deus se permittir que dentro mesmo de 
um estado catholico eu alcance a coroa do 
martyrio . . Aqui, ou em Tunes, desde que se 
padece pela verdade, tudo é servir a Ohristo 
e confessar a sua fó. 

Estas palavras proferidas com ar tranquillo 
de quem aguarda o infortúnio, como amigo, 
tiveram a virtude de fazer cahir em. si o rei, 



Obras completas de Bebello âa Siíra 127 



a seu pesar dominado pela força d'alma 
d'aquelle velho inerme, que entre as garras 
do leão parecia soeegado, como se ajoelhasse 
a Deus no interior do seu oratório. 

Inclinado a tudo o que era grande e sahia 
do commum, D. João v sentiu retirar-se a 
cólera, e accudir a reflexão. Aplacado o pri- 
meiro impeto, e feito um exame mais sereno, 
conheceu que a rasão não estava toda do seu 
lado, e por isso mesmo que tinha o poder, a 
verdadeira magestade exigia d'elle um sacri- 
fício. 

Sentando-se, e guardando silencio por al- 
guns instantes empregados em estudar com a 
vista o rosto do visitador, e em applaudir se- 
cretamente a sua firmeza, desarmou-se subi- 
tamente do aspecto severo que tomára, e 
abrindo a physionomia com um sorriso em 
que era fácil notar um resto de amargosa iro- 
nia, disse-lhe : 

— Sabe, padre Ventura, que pôde haver de- 
baixo d'essa humilde roupeta tanta soberba, 
como na purpura e nos arminhos dos monar- 
chas? Quem nos observasse ha pouco diria 
que estávamos tractando de potencia a poten- 
cia, e que vossa paternidade era o mais pode- 
roso ... 

— E não se enganava senão em uma coisa, 
senhor !— respondeu o italiano com o mesmo 
semblante plácido. 

— Qual? 

— Em suppor que eram potencias eguaes ! 
A' que eu represento, pedindo justiça e advo- 
gando a causa dos que choram, tem-se curva- 
do os impérios e os sceptros ! . . . A coroa de 
vossa magestado 6 de ouro, quo ó metal que- 



128 Empreza da Historia de Portugal 



bradiço ; em quanto a de Deus, de quem sou 
ministro indigno, ó de estrellas e de gloria . . . 
Os homens reinam dias, Elie reinará por todo 
o sempre. O soberano está acima dos outros 
homens, mas Deus a um aceno da sua mão 
depõe os potentes. As suas vaidades, que se 
levantam como o pó, um sopro as abate, outro 
sopro as faz erguer. 

— Tem rasão. Mas com uma differença. O 
seu reino não ó d ? este mundo . . . 

— Perdoe vossa magestade. Ohristo disse, 
que o reino dos apóstolos chegava onde chega 
a consciência humana. 

— Bem ! Então vossa paternidade crê que 
estou em peccado, que érro como homem, e 
que offendo como rei, punindo os que infrin- 
gem as minhas leis ? Não se recorda de um 
dos mandamentos que diz:— não matarás? 

— De certo; menos em defeza própria; por- 
que no amor do próximo o termo de compara- 
ção somos nós mesmos; e el-rei é muito justo 
para não conhecer que a honra vale a vida. 
Eis o motivo porque appello da ira e do res- 
sentimento do príncipe real para a consciên- 
cia do senhor D. João v, cujo sceptro ó a pri- 
meira vara de justiça dos seus povos. 

— E appella bem ! Diga-me : no meu logar, 
ferido por um Vassallo, e desacatado deante 
de testemunhas deixava pisar a coroa ? 

— Não, se a coroa estivesse na cabeça de el- 
rei ! Mas aonde estava ella no jardim de Lou- 
renço Telles? 

— Mas Jeronymo conheceu-me ; commetteu 
o crime sabendo o que fazia ! 

— Ponho a minha confiança no coração de 



Obras completas de Bebello da Silva 



129 



vossa magestade ; e se me permittisse uma 
pergunta . . . 
-Fale! 

—Se o soberano fosse o Vassallo, e o Vassal- 
lo o monarcha, vendo ou julgando ver (o erro 
foi esse !) a mulher que amava escutando a 
ternura de o atro, o que fazia, el-rei não, mas 
o príncipe D. João como cavalheiro ? . . . Vos- 
sa magestade ó a verdade e a justiça viva ; á 
voz da sua consciência me dirijo ! 

El-rei sorriu-se, levantou-se, e poz-lhe a 
mão no hombro. Depois accrescentou com ar 
nobre e mais desassombrado : 

—A prova de que elle foi o juiz, é que o 
principe, subindo ao throno, obteve de el-rei 
que escrevesse esta ordem de soltura ! Basta- 
va ter cruzado a espada com o seu vassallo 
para o soberano não poder ser rei, se quizes- 
se ficar sendo cavalheiro . . . Ouvi-o para o 
experimentar, padre Ventura. Sabe que mais? 
Não torne a excitar assim a cólera dos mo- 
narchas, porque o dito vulgar não afíirma sem 
motivo que é brincar com as garras do leão. 
Houve um momento, em que estivemos em 
perigo ambos, A verdade, quando se carrega, 
fere ! . . . Deixemos, porém, isso. O seu prote- 
gido conte que não corre perigo. Sei que não 
ama Cecilia ; mas os seus loucos ciúmes foram 
talvez a causa . . . 

—A causa ó o amor que ella consagra a 
vossa magestade. Para não servir de obstácu- 
lo á sua gloria . . . 

—A 7 minha gloria ? E se eu a entender de 
diverso modo ? Por ser monarcha hei de por 
força arrancar o coração do peito, ou fechal-o 
a todos os affectos . . . 

VIII — A MOCIDADE DE D. JOÃO V — V 9 



130 Empresa 3a Historia de Portugal 



— Para os reis ha só um amor possível e 
único . . . 
—A gloria ! 

—Não, senhor! A ventura dos seus povos ! 

—Mas em que pôde a ternura de Cecilia 
ofíender os povos? ! . . . 

—Se vossa magestade permitte, ella mes- 
ma responderá! 

— Como ? Pois ! ? . . . — exclamou o mancebo 
alvoroçado. 

— Espera á porta uma audiência de el-rei... 
— redarguiu o padre. 

— Uma audiência! ? 

—Uma audiência, senhor. E' só para entre- 
gar a vossa magestade um retrato e vários 
papeis, que não podem pertencer senão á rai- 
nha de Portugal . . . 

— E vossa paternidade sabe se eu ! . . . 

—Sei que vossa magestade deseja ser, e ha 
de ser um grande rei. Ora, para o conseguir, 
a primeira coisa ó vencer-se ; dar um grande 
exemplo ! Oecilia vem beijar a mão do seu so- 
berano, e pedir-lhe o esquecimento da teme- 
ridade, que por ignorância commetteu, levan- 
tando os olhos para o príncipe D. João. Ella 
e eu esperamos que el-rei não saiba o que a 
nós todos convém que não lembre mais ! 

O monarcha, com as faces inflammadas e a 
mais profunda commoção na voz, tocou a cam- 
painha sem lhe responder. 

O conde de Aveiras abriu a porta, e sua ma- 
gestade lançando-lhe a vista severamente, 
disse : 

— Conde, mande entrar a senhora que pediu 
uma audiência, e retire-se depois ! 
— D'ahi a um momento Cecilia entrava na 



Obras completas d?. Rebello da 8Um 131 



sala, e colhia no rosto do padre Ventura o va- 
lor necessário para sustentar a sua firmeza. 

D. João v, pallido e tremulo, com a paixão 
no olhar amoroso e no sorriso, apezar de im- 
potentes esforços para se dominar, precipitou- 
se, recuou, e por fim cahiu de joelhos a seus 
pés, exclamando com um gemido de dor e de 
jubilo ao mesmo tempo:— Cecilia! 

A donzella vacillou, inclinou-se para o prín- 
cipe que não queria levantar-se, nem ceder-lhe 
a mão, e não podendo também conter o cora- 
ção deixou correr em fio as ardentes lagrimas 
em quanto lhe fugia da bocca um suspiro, 
verdadeiro ecco da alma anciosa, o doce e 
amado nome de João ! 

Em um dos ângulos do aposento, o mais 
longe possivel d'elies, o visitador, calado e 
melancholico, assistia a esta scena, e sentia as 
pálpebras húmidas e o peito confrangido. 

Assim passaram os primeiros momentos. 

Apezar de todos os protestos, Cecilia per- 
deu o valor na presença do mancebo, e não 
pôde fugir aos seus carinhos, nem arrancar-se 
do seu lado. 

Colhendo novas esperanças nos bellos olhos, 
turvos do pranto, o príncipe cada vez aperta- 
va com mais força a tímida mão, que nem se 
negava, nem se atrevia a corresponder-lhe. 
Em fim, por um d'esses Ímpetos de paixão, 
que a vontade é incapaz de sujeitar, D. João 
exclamou: 

— Elles não hão de separar-nos, Cecilia. Não 
vês a saudade nas lagrimas de ambos? Como 
ó possivel esquecermos isto e vivermos de- 
pois? Pelo doce nome do nosso afifecto, pela 
coroa de meu pae. . . 



132 Obras completas ãe Bebei-lo da Silva 



— A coroa ! . . .—murmurou a donzella dolo- 
rosamente—A coroa separa-nos ! Porque não 
sou eu mais do que nasci, ou porque não ha- 
via Deus de permittir que vossa magestade 
fosse meu egual? . . . Não tenho dote para 
merecer a mão de el-rei . . . 

— Não fales assim. Tens esse coração, aonde 
eu sei que reino sobre todos ... O rei pode 
querer thesouros, desejar impérios ; mas o ho- 
mem não vive senão de amor; e esse, querida, 
és tu a única de quem o acceita. Dando a mão 
ao principe, ainda elle te fica devedor. 

— Não, não !— accudiu a irman de Thereza 
com um sorriso cheio de maviosa melancholia 
— De que serve tornarmos a adormecer, se 
havemos por força de acordar? Bastantes la- 
grimas me custou já o primeiro engano! O 
amor de el-rei ó o seu dever, o santo dever de 
estimar os seus povos e a sua gloria. Yossa 
magestade não pôde descer, sendo o primeiro, 
e eu não devo subir sendo a ultima . . . Entre 
nós e as illusões está o mundo, está o thro- 
no . . . 

— Que esteja! Sou cavalheiro; dei a minha 
palavra . . . 

— Venho restituil-a !— redargiu a donzella 
— Se a primeira vez que nos vimos eu sou- 
besse que era vossa magestade. . . seria hoje 
menos desgraçada. A promessa que recebi 
foi de um egual, e não de el-rei. D'esse nada 
podia ouvir nem acceitar em penhor de esti- 
ma, senão ... o esquecimento. Se em Santa 
Clara vossa magestade me dissesse que o 
principe D. João é que jurava pela sua alma, 
e"com extremo, a mesma paixão que eu senti 
havia de vencer-me, e nada do que succedeu 



Empreza da Historia de Portugal 133 



contecia ! O que pedi não foi a coroa; nunca 
tive a loucura de sonhar com impossíveis ! 
Quem amei não foi o herdeiro do throno, foi 
o cavalheiro, cujo appellido ignorava, porque 
o meu coração não quiz saber senão o doce 
nome que lhe dava . . . Desejei outra coisa 
que não eram honras; e tinham-me promettido 
mais; pedi amor, somente amor, e o affecto 
não se vende, senhor, paga-se como se recebe, 
puro, extremoso e innocente. Estou enfadan- 
do a vossa magestade; mas ó pela ultima vez. 
São as ultimas palavras. Vim aos seus pós 
para pedir perdão e esquecimento; perdão, por- 
que me enganei ou me enganaram; esqueci- 
mento, para expiar o meu erro na sepultura 
de um convento . . . 

— Nunca! — clamou o príncipe com vehe- 
mencia — Não me accuses; ouve ! Se dissesse 
tudo, se confessasse que era o filho mais ve- 
lho de el-rei . . . 

— Vossa magestade poupava-me a dor da 
eterna viuvez a que estou condemnada ! Se 
podesse esquecer, julga el-rei que estava 
agora aqui, penando o que padeço ? Depois 
dos dias que passaram, accorda-se, mas para 
tomar odio á vida . . . Não me queixo; não 
derramo lagrimas; o que digo é só para que me 
ouça aquelle que amei, e amo ainda pela sua 
memoria r como se estivesse morto. João, foi 
mal feito; não o merecia ! Um cavalheiro não 
me enganava! . . . Acabei, senhor. Falemos dos 
vivos. 

— Falemos da nossa esperança, do nosso 
amor, como falávamos . . . 

— Quando elle vivia, e eu na minha alma o 
amava como esposo?! — interrompeu a don- 



134 



Emprtza âa Historia de Fortuçai 



zella, severa— Não se lembra vossa magestade 
da palavra que lhe dei deante de Deus, e no 
segredo da noite ? Se fosse rei, amavas-me"? 
perguntou. Acceitavas a coroa e o throno pa- 
ra reinar commigo ? Qual foi a minha respos- 
ta, senhor ? Ignorava tudo; suppunha que a 
verdade era um riso; mas o coração falou co- 
mo agora. Não amo el-rei, amei a outro, e 
esse morreu, perdi-o quando achei n'elle a 
vossa magestade ! Viuva sem ser esposa, or- 
phã tendo paes extremosos, o que procuro é 
um retiro aonde não chegue o mundo, e aon- 
de sem crime continue a amar ... a minha 
saudade. Quando o confesso a vossa magesta- 
de, e accrescento que o meu ultimo suspiro 
será para Deus, e o penúltimo para a ternura 
que jurei, disse tudo. E' necessário uma de- 
terminação invencivel, como a que tomei pa- 
ra não esconder nada. Sabe vossa magestade 
a razão? Sou como se estivesse morta. O 
amor e a saudade que posso dar, sepultei-os 
no meu tumulo; e o coração se palpita, não 
vive do que é, vive do que foi. Olho para 
tudo, como para mim. Não tenho já que espe- 
rar, tenho só de que chorar, e de que me ar- 
repender. 

— Cecilia, meu amor !— exclamou D. João 
com as lagrimas a correr em fio— não me di- 
gas que nos havemos de apartar. Deus não 
uniu duas almas para os homens as separarem! 
Escuta; peço-te de joelhos; não me levanto 
em quanto não ouvir o sim da tua bocca. . . 

—Senhor ! Veja vossa magestade que não 
estamos sós ! . . . —atalhou a neta de Lourenço 
Telles, fazendo todos os esforços para o obri- 
gar a erguer-se. 



Obras completas ãe Eebello da Silva 185 

—Aqui não está el-rei ; e não ha olhos que 
se atrevam a ver, quando os cTelles choram e 
supplicam. E' o homem que amaste, ó o cora- 
ção que juraste fazer feliz, que te pede que o 
não desterres do paraizo . . . 

— Senhor !— exclamou ella, desatando em 
pranto — Vossa magestade tenta de mais a 
fraqueza do meu animo. João !— ajuntou mais 
baixo, e deixando fugir para elle, banhada de 
lagrimas suaves, a vista que foi beijar o olhar 
terno e queixoso do mancebo— isto não pôde, 
isto não deve ser. Aos meus pés o rei ! . . . 

— E' o seu logar, pedindo perdão e confes- 
sando o erro. 

— Não me queixo. Perdão de quê ? Aquelles 
momentos do nosso sonho foram tão bellos e 
fazem-me tanta saudade, que agradeço até o 
engano a que os devo. João, deixa-me conser- 
var pura ao menos, já que perdi tudo, a cham- 
ma que aviva a tua imagem na minha alma. 
Não podemos tornar a ver-nos sem crime ; 
separados, temos a saudade para nos dizer a 
ternura que juramos . . . 

—Não, não ! A saudade, o amor que resta 
dos mortos e dos ausentes, não me consola ; 
quero ao meu lado o anjo que ó a alegria e a 
luz da minha vida. Compadece-te! Deus mes- 
mo castiga, mas perdoa. Não me condem- 
nes por orgulho ! . . . 

— João, nem uma palavra mais se ficas de 
joelhos ! Cuidava eu que, vindo aqui, não te- 
ria que chorar senão as lagrimas de uma des- 
pedida eterna. Não as faças correr de vergo- 
nha e de remorso ! 

O príncipe levantou-se. A magoa lia-se-lhe 
no semblante desfigurado. A vontade irresis- 



133 



Empresa da Historia de Portugil 



tivel pinta va-se-lhe na vista flammejante. 
Apenas se poz de pó procurou com os olhos o 
sitio onde ficára o padre Ventura. Debalde ! 
O jesuita, apenas viu de joelhos o monarcha, 
tinha-se retirado subtilmente, porque era 
muito hábil para se expor a presenciar fra- 
quezas, que podessem amargar um dia ao or- 
gulho real. D. João V agradeceu interior- 
mente ao visitador este rasgo. Sem testemu- 
nhas o seu affecto não corava, podia dizer tu- 
do, e humilhar-se. 

Pegando com meiga tristeza na mão de Ce- 
cilia, o mancebo accrescentou com a voz corta- 
da, e os olhos arrasados de agua : 

— Has de ouvir-me ! Se te revelasse quem 
era, não me deixavas nem a esperança: e per- 
der-te, vês tu, era e será sempre arrancarem- 
me o coração. Se o ciúme, se a loucura de 
Jeronymo não cortasse de repente ao fio da 
espada os nossos juramentos, cuidas que não 
tinha disposto tudo para te unir á minha sor- 
te ? Só depois de esposa saberias que te dava 
a coroa, dando-te a mão. Deus não quiz ! Bas- 
tou uma hora para confundir os meus proje- 
ctos, e na desesperação a que chegava desejei 
a morte. Acreditei que a mesma noite me 
roubava amante e pae ! . . . E via-me obrigado 
a esconder a dor, e asoffrer commigo omarty- 
rio ! Imagina que tormentos !. . . Porque me 
accusas ? E' um crime anciar a ventura, e ca> 
lar-me sabendo o perigo ? Leio no teu peito, 
sei os thesouros de amor e generosidade que 
elle encerra. Princeza descias do throno, e 
offerecias-me a mão para eu subir... Não ó 
verdade ? 

— Sim— replicou a donzella corando— Qui- 



Obraê completai de Eebello da SUm 137 



zesse Deus que eu fosse rainha, e tu o Vas- 
sallo ! 

— Assim o esperei. Se me não dissesses, era 
o mesmo, adivinhava o que fazias . . . 

— Chamava-te esposo, ainda que pizasse a 
coroa aos pés!— atalhou vermelha, e sem ser 
senhora do seu impeto. Um instante depois, 
conhecendo que fora sincera de mais, baixou 
a cabeça, e poz os olhos no chão sem occultar 
as lagrimas. 

— Ta o disseste !— exclamou o príncipe com 
a fronte radiosa, e o ardor da paixão na vis- 
ta— Chamavas-me esposo, e não olhavas ao 
sacrifício ? ! Como queres que amando-te mais 
do que ao throno, mais do que a mim próprio, 
faça menos ? Palavra de rei não volta ! Dei a 
minha, e já não me pertence. Paia te não per- 
der, sendo vassalo, e apesar de todo o orgu- 
lho juro que subia até te alcançar. Responde 
agora ! Mandas que desça para ficarmos como 
éramos, ou como parecíamos, e não envene- 
narmos de saudades mortaesa flor dos annos ? 
Ponho a escolha na tua mão. E' a minha vida 
que entrego. Uma palavra tua, e o rei cáe de 
joelhos para se levantar ditoso, não reservan- 
do de quanto servia de inveja á ambição, 
mais do que a sua espada e o seu nome de 
cavalheiro. Entre a felicidade e a magoa com- 
prando por um sorriso a felicidade, acho pe- 
queno preço, embora fique de menos a coroa 
aos pós de ambos . . . Tenho-te a ti. E' de mais 
para esquecer o resto ! 

Estas palavras, proferidas com a vehemen- 
cia, e no tom persuasivo do amor ardente, 
commoveram a donzella. Pousando-lhe a mão 
no hombro, e deixando-lhe cahir sobre a mão 



138 Empresa da Historia á*e Fortugaè 

um osculo e uma lagrima, a irman de There- 

za disse suffocada : 

— Não tornemos a sonhar, João. Achas 
ainda pequena a dor do primeiro golpe ? Sei 
o teu affecto ; não digas mais ; sei. Basta-me 
perguntar ao meu coração. Mas o rei está pri- 
meiro do que o amante . . . 

— rei não pôde viver, nem quer viver fa- 
zendo o homem desgraçado! — atalhou o prín- 
cipe beijando-lhe a mão. 

—Pois sim ! Custa-nos a dizermos adeus á 
esperança; a separarmo-nos de ametade da 
nossa alma. Chora-se; a chaga dóe; porém no 
íim de annos tudo acaba. Olha! Eu que soíi 
mulher, que não tenho reinos, nem povos para 
me consolar, fazendo-os ditosos; eu que vivia 
de te amar na ausência, de te esperar com 
ternura, e de te adorar no meu coração, estou 
conforme, não me queixo ; e mais o véu de re- 
ligiosa, e a cella de um convento, na tristeza 
e na solidão, ó o que vou procurar !. . . João, 
não será preciso muito amor para te perder, 
e ainda mais para vir aqui despedir-me e ju- 
rar-te, que a ultima luz dos meus olhos será 
a tua imagem; que o ultimo desejo da minha 
vida ó a tua gloria ! ... Não ha remédio ; antes 
uma agonia só, do que os pezares e os remor- 
sos eternos no meio das flores do nosso affecto. 
Elie nasceu tão puro, que seria crime deixal-o 
manchar pelos outros, ou por nós. 

— Se alguém tivesse a ousadia de suspeitar, 
somente de suspeitar, a candura e a innocen- 
cia da tua alma! . . . 

— João, o poder de el-rei não chega á cons- 
ciência ; a calumnia anda de rastos, e não se 
piza senão com o pó. Para a matar ó necessa- 



Obras completas âe Rehdlo ãa Silva 139 



rio descer . . . Imagina o que seria a inveja, se 
de repente uma donzella sem jerarchia, só 
porque alguns dotes de espirito ou de corpo 
captivaram o soberano, fosse elevada ao thro- 
no, e tivesse abaixo de si as filhas dos duques, 
e dos fidalgos ! . . . O que diriam essas damas, 
que, sendo tanto, nunca se atreveram a subir 
com o orgulho aonde queres que eu saba pelo 
teu amor? 

—Em te vendo acham justa a minha es- 
colha ! 

— E' illusão tua. Vendo-me detestavam-mo 
ainda mais. Olha, os teus vassallos não são 
amantes ; são vassallos ; são homens. O sceptro 
obrigal-os-hia a calarem-se ; mas o odio cuidas 
que por isso seria menos forte? Por fim con- 
seguiam separar-nos, armando enredos, tecen- 
do falsidades ; não se resiste aos maus, por 
mais que digas, quando as apparencias estão 
por elles. E depois de alguns momentos, sa- 
tisfeita a paixão, seriamos infelizes. Não! Que- 
ro ao menos, já que a desgraça tinha de vir, que 
me encontre innocente. Fujo de ti, porque de- 
sejo amar até ao ultimo suspiro. Não queiras 
tirar ás minhas lagrimas a doçura da saudade; 
as do remorso (tu não sabes !) amargam e não 
consolam. Sei como ardem, eu que as chorei 
por uma irmã, accusada sem culpa, e sobre 
aquelle, que desde a infância olhei como se 
fosse do meu sangue ! . . . Dize, João ! El-rei 
não soube nada do que se passou com o prin- 
cipe real? Aplacada a ira, fez logo justiça a 
reflexão ? Mandaste soltar Jeronymo, e vaes 
dar-lhe provas de que não só perdoas, como 
esqueces? Vês! Tenho ciúmes ainda; não do 
coração que brevemente vais dar a outra; 



140 Empreza da Historia, da Portugal 



mas da tua gloria. Estimo-te ; e hei de ser 
fiel á memoria do primeiro e único affecto da 
minha vida ; não softreria que os outros te es- 
timassem menos. Has de ser um grande rei; 
entendes ! Quero que o preço por que te cedo 
a ventura me não custe tanto. Responde ! Je- 
ronymo está innocente, porque o seu delicto 
ó o nosso ... foi já solto? El-rei lembrar-se-ha 
de que, descendo ao tumulo, Cecilia lhe pediu 
que fizesse por amor d'ella a felicidade do 
Thereza, de sua irmã, que ia tornando des- 
ditosa ? . . . 

O mancebo, que a ouvira cada vez mais 
pallido, redarguiu : 

— A rainha de Portugal ó que ha de decidir 
da sorte de Jeronymo. Entrego-a nas suas 
mãos. 

Era ainda um subterfúgio; uma espécie de 
coacção do amor para supplicar e vencer. A 
donzella, porém, como se não percebesse, er- 
gueu a cabeça, e, com a vista severa, replicou: 

— A rainha de Portugal não deve saber da 
mocidade do príncipe real, senão que elle é seu 
esposo ! Quererá el-rei que o innocente gema 
em ferros até esse tempo ? 

D. João v não respondeu. Depois de uma 
pausa em que a dor e a ternura se lhe pinta- 
ram no rosto, foi ao bofete, dobrou um papel 
e deu-o a Cecilia. Depois, sentando-se na ca- 
deira, e escondendo o rosto entre as mãos, dei- 
xou correr as lagrimas. 

O papel era a ordem de soltura de Jeronymo. 

Nada mais angélico, mais extremoso do que 
a luz suave e avelludada que as pupillas da 
donzella despediram entre prantos sobre a ca- 
beça pendida do mancebo. 



Obras completas de Rebéllo da Silva 141 



A resignação, a piedade, o amor em toda a 
sua eloquência brilhavam n'ella. 

Depois, enviando-lhe sem que elle visse, na 
ponta dos dedos de rosa, um beijo que respi- 
rou todo o perfume da alma namorada, appro- 
ximou-se, 6 disse-lhe com a voz meiga e irre- 
sistível, que era o ecco magoado do seu cora- 
ção: 

—Um homem, João, não chora! Tem animo 
para si e para os outros. Se eu fizesse o mes- 
mo, o que havia de ser de nós ? 

Descobrindo as faces afogueadas, e com os 
olhos ainda roxos, o príncipe encarou-a admi- 
rado. Sorrindo-se, e beijando-lhe a mão com a 
mais casta vermelhidão no rosto, ella aceres- 
centou : 

— Bem ! O príncipe foi digno do seu nome ! 
Este papel diz-me que el-rei esqueceu tudo 
como rei. Agora eu. João, ouve ! Estas cartas 
e este retrato são da rainha de Portugal. A 
freira, que vai ser, tem a saudade por compa- 
nheira ; do mundo, que deixa, nada passará a 
grade... Bastam-lhe as penas e as memorias ! 

— Nunca! — exclamou o príncipe— Não nos 
havemos de separar assim ; não quero ; não 
consinto. Tenho combatido commigo, tenho 
feito o possível por vencer, excede as minhas 
forças. . . Se queres salvar o rei, não desespe- 
res para sempre o homem ! Cecília, se amasses 
como eu, tinhas medo . . . 

—De arrastar a tua gloria pelas murmura- 
ções do povo, e pelas zombarias dos sobera- 
nos?— aceudiu ella — E' verdade; se escutasse 
a paixão, e me fizesse surda ao dever, punha 
a coroa na cabeça, ainda que os festejos fos- 
sem risadas e pasquins ! . . . 



142 Empresa ãa Historia de PortugaJL 

—O padre Ventura ê que te persuadiu d'is- 
so ?— perguntou o rei, ameaçando com a vista 
o logar aonde estivera o jesuita. 

—O padre Ventura— retorquiu a irmã de 
Thereza serenamente— disse-me só que recea- 
va que me faltasse o animo para este lance. 
Tinha razão ; mas eu é que não contava que, 
além das minhas magoas, havia de precisar 
também valor para resistir ás injustiças de 
vossa magestade. 

—Para ti sou amante, não sou rei !— gritou 
D. João com ar sombrio. 

— Para mim vossa magestade não pôde ser 
senão o rei !— atalhou ella ; depois, passando 
para a ternura mais suave, ajuntou :— João, 
cuidas que o sacrificio não me íoi doloroso ? 
Crês que sáio do mundo, do amor e da espe- 
rança, para a sepultura e para a saudade, fi- 
cando o coração como estava, e a alma sem la- 
grimas ? Oh, se pudesses ver os golpes e o 
sangue que salta d^lles ! Combati commigo ; 
fiz diligencias por me enganar ; lembrou-me 
tudo para ser feliz !... Olha, não se morre 
aonde eu vou morrer, senão quando não nos 
resta a sombra de uma illusão ! . . . Temos de 
nos separar. . . para sempre . . . Choras ? Olha 
para mim, lê no meu rosto, e verás o que me 
custa; mas é preciso. El-rei não pôde amar se- 
não no throno, e eu nasci tanto abaixo, que 
os seus olhos não me devem conhecer ! O 
homem . . . sabes se o adoro; porém, revelan- 
do-lhe o segredo da minha paixão, confessan- 
do-lhe que ella sobrevive ao sonho do nosso 
encanto, jurei fechar logo sobre mim a grade 
do claustro, e esconder o rosto para nunca 
mais o ver, nem ser vista d'elle senão ... em 



Obras aompletas âe Bebdlo àa 8ilva 143 



saudades. De que serve luctarmos contra o in- 
fortúnio ? As cartas e o retrato que te dou, 
já não são precisas para a minha alma viver 
com a tua ; e a pureza do affecto que nos uniu, 
quer que mesmo depois de morta ninguém 
possa ter de mim uma suspeita. De joelhos 
te peço : acceita o que não pôde pertencer-ine; 
salva a tua e a minha honra ! 

Elie com a voz tomada, recebeu os papeis, 
e ajoelhando também, encostou a cabeça ao 
hombro d' ella. Arquejante e convulso só alli 
tornou a sentir as lagrimas, e pela ultima vez 
uniu as suas ás de Cecilia . . . Decorridos al- 
guns minutos, a donzella parecendo beijar-lhe 
o rosto com a luz affectuosa das pupillas, 
disse : 

—Então ? Não havemos de ter valor para 
nos lembrarmos do amor sem remorso ? 

O príncipe não respondeu ; mas tapou o 
rosto com as mãos. 

— João—continuou ella com o mesmo ex- 
tremo—queres que te ame sempre, e que mor- 
ra abençoando a hora em que te vi? 

A dor não deixou ainda abrir os lábios ao 
mancebo. 

— João, pelo doce nome da nossa ternura, 
tem dó de mim ! Não esqueças que não nos 
separando, e não podendo amar-nos sem cri- 
me, eu hei de morrer desprezada de todos, e 
de mim, se me não salvares ! Não respondes ? 
Queres a minha honra, e não o meu amor? 
Tua esposa não hei de ser; juro ! Escolhe ; de- 
cide: queres que seja menos!? 

O príncipe poz-se de pó, olhou para ella por 
instantes, e com um soluço que dilacerou o 
peito a ambos, exclamou : 



144 Empr&a <La Historia de PortugrU 



—Não ! Morre para o mundo. Vae para o 

convento ! 

Depois fulminado, sem fala, e sem luz nos 
olhos, como se um raio o tivesse ferido, ficou 
immovel. 

— Obrigada, João ! Obrigada !— accudiu Ce- 
cilia — W verdadeiro, é santo o amor que se 
despede assim ! Adeus, para nos encontrar- 
mos no céu. Lá ninguém impede os seraphins 
de exaltarem.. a gloria de Deus, e de se unirem. 
Adeus!... Sinto que o animo foge, e que 
mais tarde não teria forças para me separar 
d'aqui. João, amo-te, adoro-te como nunca 
mulher te ha de amar! Pela ultima vez o 
juro ! 

E por um impeto irresistivel cingiu-lhe o 
collo nos braços, apertou-lhe a cabeça sobre 
o coração, e pousou-lhe os lábios ao de leve 
sobre a testa. 

Um instante depois, o rei, a quem tudo is- 
to se figurava sonho, viu-a afastar o repostei- 
ro, abrir a porta, e desapparecer no corredor. 
Ia a lançar-se adeante para a ver ainda, 
quando o desalento e a reflexão o detiveram. 
Era inútil! 

Oecilia baixando o véu para occultar as 
lagrimas, correu para o visitador, dizendo 
com anciosa oppressão : 

— Oonsummou-se o sacrifício! Padre Ventu- 
ra, nunca julguei que doesse tanto. A morte 
custa menos ! 

Atraz d'estas palavras vieram as lagrimas 
e os soluços. O jesuita commovido não soube 
senão responder-lhe : 

— Animo ! Deus ha de premial-a ! 

Ao mesmo tempo D. João v, coma pallidez 



Obras completas de Rabeiio àa 8ilvú 



145 



no semblante, dizia ao seu camarista de se- 
mana sem levantar a vista : 

— Conde de Aveiras, entregue este alvará a 
Diogo de Mendonça. E' a sua nomeação de 
secretario de estado. Diga-lhe da minha par- 
te, que estes tres dias não ha despacho . Que 
ninguém entre nos meus quartos! 

O conde inclinando-se silencioso sahiu lo- 
go; e o monarcha, encerrado na sua camará, 
chorou sem testemunhas e em liberdade. Era 
o tributo que pagava pela eorôa, perdendo 
no mesmo dia as doçuras do amor, e as illu- 
sões da mocidade. O baptismo da amargura 
fazia-o homem ! 

N'essa tarde Jeronymo foi solto, e aos pés 
de Thereza abençoou o infortúnio que pas- 
sára. 

Cecília, vendo-os alegres e namorados, sor- 
ria com a bocca e chorava com a alma. Uma 
vez, porém, não pôde reprimir os suspiros, 
dizendo á sua amiga Catharina de Athaide: 

— Como Deus ó justo ! A elles fel-os dito- 
sos ; a mim, para me castigar mais, poz-me 
deante dos olhos o espectáculo das venturas 
que não mereci. Oh ! cada vez sinto maiores 
saudades do meu convento ! 

Prantos e um beijo, eis a resposta da no- 
viça. 

Que mais podia ©11a dizer áquella agonia 
inconsolável ? 



VIU — A MOCtDADE DB D. JOÃO V — V 



10 



Iá6 Etnprcza da Historia âe Portugal 



CAPITULO XLI 



Conclusão 



Oito dias depois das apaixonadas scenas a 
que assistimos, pelas dez horas da manhã 
achava-se Lourenço Telles no seu escriptorio, 
tendo á direita da ampla poltrona, em que 
balouçava o corpo, a solemne figura do ab- 
bade Silva, e á esquerda, (á sinistra) como 
elle dizia, o procurador de S. Domingos, frei 
João dos Remédios, cujabocca risonha, rosa- 
das faces e maliciosos olhos annunciavam 
uma saúde florescente. 

O velho erudito trajava uniforme rico 
Além das galas usuaes do vestido notava-se- 
lhe um addicionamento importante nas jóias 
e bordaduras. O seu Horácio, companheiro 
fiel, via-se aberto em uma das paginas das 
satyras, e duas folhas de papel cobertas de 
linhas tremidas e muito juntas, encerravam 
as observações do eterno adversário do escu- 
deiro servente da marqueza das Minas. 

De vez em quando o commendador alçava 
os óculos, encolhia os hombros, e lançava a 
vista com impaciência em direcção á porta. 
O papagaio, espanejando-se, cabeceava, e ba- 
tia as azas, sem obter a menor caricia ; e Mi- 
nete, enrolada a seus pés sobre o tapete, abria 
languidamente uma fresta dos olhos para es- 



Obras completas ãe Eebello âa Silva 



147 



preitar o estado das coisas, tornando depois 
á somnolencia em que dormitava. 

No rosto e na pessoa do abbade não havia 
differença. Era sempre o mesmo aspecto ve- 
nerando, a mesma calva, o mesmo gesto gra- 
ve. O chapéu de borlas de torçal e ouro des- 
cansava sobre os joelhos, e a bengala domi- 
nava-os na altura de dois palmos com o cas- 
tão de porcellana de gigantescas proporções. 

O auctor da biographia maravilhosa do 
capitão Viriato tinha um caderno nas mãos, 
meio enrolado, e acabava de o ler a Frei 
João; curto nas dimensões, mas infinito na 
substancia, este novo opúsculo tractava de 
pintura antiga, e dizia mais ácerca de Grão 
Vasco, e de Francisco de Hollanda, do que 
naturalmente elles souberam de si e da sua 
vida. 

Pôde assegurar-se, que em vinte paginas de 
texto e setenta de notas, a verdade e a rasão 
nunca passaram por egual tormento. Louren- 
ço Telles, segundo o costume, não se esque- 
ceu de disparar contra as invenções mais 
cruas algumas frechas, ervadas pelo estrépito 
motejador das pitadas e pelo gargarejo iróni- 
co do riso. O investigador das bexigas doidas, 
na forma do inveterado estylo, também se 
tinha escandecido, retorquindo; e o frade, 
constituido no perigoso officio de arbitro dos 
desempates, não alcançou sem custo uma tré- 
gua entre as potencias belligerantes. 

A' hora em que estamos, as hostilidades 
haviam cessado, e os dois campeões restaura- 
vam as forças, e amolavam a censura próxi- 
ma no silencio. 

— Alea jacta '!— exclamou o erudito, recor- 



148 Empreza da Historia de Portugal 



rendo á caixa e aspergindo de grãos de rapé 
a alvissima tira da camisa—Estava escripto, 
traduziria um turco! Fica-me em casa um 
filho no amor, e tenho de menos uma neta 
querida ! Quem me diria que Cecilia ! . . . Frei 
João, sabe que desconfio ! Debaixo das flores 
está a vibora ! Latet anguis ! Não é natural. 
Uma menina formosa, galante e alegre de 
coração, tão satisfeita comnosco ha um mez, 
aborrecer-se da sua sorte de repente, e fugir 
do mundo, da companhia de seu avô que a 
adora, de sua mãe que via n'ella a luz dos 
olhos, e ateimar em se esconder na grade de 
um triste convento ? Não repare, padre mes- 
tre ! Mas por força ha historia occulta n'isto. 
Cecilia padece desgosto grande . . . e não hei 
de consentir que ella nos deixe, sem saber a 
causa. Já a mandei chamar. Filippe d'esta 
vez achou algum juizo no seu barrete de dor- 
mir. Meu sobrinho não quer que lhe falem 
na sombra de uma freira, quanto mais tel-as 
na familia ! . . . 

Ouvindo estas palavras, frei João dos Re- 
médios levou sobresaltado a mão á cabeça, e 
repelliu o barretinho de seda da testa para a 
nuca. 

O abbade assumiu ar expectante e melan- 
cholico, exigido pelas circumstancias,e gemeu 
pelos cantos da boca uma espécie de suspiro 
em fórma de commentario. 

Entretanto o dominico julgou-se obrigado 
a dizer alguma coisa, e ajuntou: 

— De certo, meu antigo amigo, a alma de 
um avô, que ó duas vezes pae, não ha de vêr 
esta separação com os olhos enxutos. 

—Mas que quer? Deus escolhe, quando cha- 



Obras completas áe Bebdlo da Silva 



149 



ma. Cecília achou-se tão perto da sepultura, 
que mediu as vaidades do mundo, e fez no 
seu coração o sacrifício d'ellas. E' o voto quasi 
in articulo mortis: e só a Santa Só a pôde des- 
ligar. . . 

—Tenha paciência, frei João; mas não acre- 
dito uma palavra da sua explicação — accudiu 
o commendador com impetuosidade — Se to- 
dos os que adoecem gravemente se levantas- 
sem da cama em hábitos religiosos, os frades 
e freiras não cabiam na terra. . . Minha neta, 
se não houvesse motivo forte, tinha muito 
juizo, não fazia promessas loucas, e contra a 
natureza. . . 

—Senhor Lourenço Telles — atalhou o pro- 
curador formalizado, e assoando-se— veja as 
heresias que está proferindo. Loucura ó o 
mundo e os seus enganos. Amar e servir a 
Deus, quando a vocação e a graça nos chamam, 
nunca foi constranger a natureza . . . 

—Bem, bem ! — observou o erudito, cahindo 
mais em si — também sou christão, tenho vi- 
vido e espero morrer na egreja catholica e 
apostólica romana; mas confesso-lhe, que 
nunca passo por uma d'essas prisões ao divi- 
no, chamadas mosteiros, sem se me apertar o 
coração . . . Quantos maus religiosos por um 
sincero ! E d'onde nasce o erro ? Das falsas 
vocações. 

— Por isso antes do voto se dá ao noviço o 
tempo necessário para reflectir ! — retorquiu 
o frade mais aplacado —Sei que lhe custa se- 
*parar-se de sua neta; porém se a graça a to- 
car, e ella quizer tomar o véu, faço justiça á 
sua alma temente a Deus, senhor Lourenço 
Telles; creio firmemente, que embora a carne 



150 Empresa da Historia de Portugal 



chore, no fundo do sen coração ha de levantar 
louvores ao céu! 

O commendador vencido, mas não conven- 
cido, assentiu inclinando seccamente a cabeça. 

N'este momento entrou Cecilia, pallida e 
mais graciosa ainda com a languida tristeza 
do rosto, do que nos dias em que os olhos 
negros e cheios de brilho alegravam e sedu- 
ziam pela malicia innocente a quantos a con- 
templavam. 

— Estávamos falando de ti ! — disse o eru- 
dito beijando-a na testa com infinito extremo 
— Agora mesmo perguntava eu ao nosso frei 
João, que mal faria o avôsinho á sua neta 
para ella o deixar só nos poucos dias que lhe 
restam, quando sabe que é a satisfação e o 
orgulho da sua velhice? ! Não chores; não ha 
menina bonita, nem olhos engraçados, molha- 
dos de lagrimas ! . . .Vamos ! E' preciso não ser 
criança, ter muito juizo e muito animo. En- 
tão a minha filha não me diz nada, não me 
consola?. . . Quem feriu esse coração, que era 
tão bom e tão ligeiro ?. . . Amas alguém, Ce- 
cilia? Tens receio de que não te deixemos ser 
feliz ? Tens um anigo fiel em mim ; conta-me 
as tuas magoas, que prometto que não sáes 
d'aqui senão contente e socegada. . . Vejamos ! 
Amas não é verdade? Lê-se-te nos olhos, per- 
cebe-se por tudo . . . 

— Amo, é verdade, meu avô; porém amo sem 
esperança! — replicou a educanda, acariciando 
as cans do velho, e enchendo-o de meiguices, 
ao passo que o pranto corria, e o coração se 
rasgava de novas dores. 

— Sim?!— accudiu o velho com bondade, efi- 
tando-a cheio de orgulho — -E tens medo que 



Obras completai de Bebéllo da Silva 



151 



não te correspondam ? Com esses olhos, com 
essas feições que parecem de anjo ?. . . Será erro 
do meu affecto, mas ó impossível que não te 
amem também a ti ! 

—Meu avô, a maior desgraça ó que sou 
amada, e... 

—Ah! E choras, desconsolas-te, e queres 
fugir de nós? O que é isto? 

— A verdade. Disse tudo a minha mãe ; e 
deu-me razão. Para evitar maiores desgostos 
devo sahir doesta casa, e recolher-me a um 
convento para fazer as minhas reflexões. Se me 
curar, se puder viver no mundo, saiba que hei 
de correr logo a pedir-lhe perdão de joelhos, 
pelas penas que lhe tenho causado ; se Deus 
me não dér forças para tanto . . . 

— Mettes-te freira, e julgas que teus paes e 
eu havemos de consentir ? Da minha parte já 
te desengano ; nunca. 

E o erudito agitado sorvia o seu rapé, e 
apertava com ternura a neta nos braços, como 
se d'este modo pudesse impedir de lhe escapar. 

Ella com um sorriso e uma voz tão suaves, 
que faziam arrasar de agua os olhos do velho, 
e até os do abbade, accrescentou, pegando-lhe 
na mão: 

—Amo, e não posso ser feliz! Diga, meu avô, 
quando o affecto ó uma paixão, e a vida se re- 
duz á esperança d ? elle, a mulher que se esti- 
ma, que deseja entregar a sua alma pura, e o 
coração virtuoso como os recebeu, não sendo 
esposa, e sentindo-se viuva pela dor, que lo- 
gar ha de escolher? Aonde quer que fique e 
feche os olhos ? Que véu ha de baixar entre si 
e o mundo?... Se fosse um capricho, um delí- 
rio, cuida que me via como estou, firme, mas 



152 Empreza da Historia de Portugal 

inconsolável? Pergunte a minha mãe se posso 
existir fora do convento ; o senhor frei João 
que responda. O dever não permitte que eu 
siga outro caminho ? 

Lourenço Telles, suspenso, olhava para to- 
dos, afagando Cecilia. No fim de alguns ins- 
tantes exclamou : 

—Ouvirei tua mãe e frei João ! Se for as- 
sim. . irás para o convento ; porém depois de 
prometteres duas coisas. 

— Quaes, meu avô ? 

— Primeiro que tudo entrares como secu- 
lar, e não como noviça. Para servir a Deus 
basta o coração ; o habito não faz o monge. 

— Estou prompta — respondeu ella. 

— Bem ! Assim temos sempre a ponte para 
voltar atraz, sendo possível. Agora a segunda 
condição ó que todo os oito dias, aos domin- 
gos, o avôsinho ha de ver a sua feiticeira, e 
tel-a ao pó de si desde a manhã até á noite. . . 

— Oh meu avô ! . . . 

— Não ha oh ! nem ah ! é assim; aliás não 
dou licença. 

— E deixa-me ir ámanhã ? 

— Deixo. 

— Então?... sim! Tenho tanta pressa de 
estar só . . . com Deus ! O convento para onde 
vou . . . 

— Qual convento, nem meio convento ! — 
gritou da porta o capitão Philippe da Gama 
com a sua rusticidade habitual — Tomara eu 
tornar a ouvir-lhe essas tonteiras! Nada de 
historias! Se tem faniquitos cure-os em casa; 
não seja tola! 

Dizendo isto, o nosso amigo introduzia a 
sua pessoa entufada n'uma casaca de seda, 



Obras completas de Eebdlo da SUm 



153 



prodigiosa pela amplidão dos canhões e das 
mangas, e pela fartura das abas. No estofo 
cor de chocolate, a bordadura de ramagens de 
matiz tomava um palmo de largo e dois de- 
dos de alto acompanhando as orlas desde o 
peito até as extremidades. 

O chapéu podia servir de modelo a um pa- 
gode china. As fivelas dos sapatos pareciam 
duas rans. Lourenço Telles, indignado com a 
grosseria das palavras, ainda se enfureceu 
mais, quando o vestuário exótico se lhe de- 
senhou deante dos olhos. Consumindo com 
rapidez a pitada que tinha entre os dedos, o 
velho erudito formalizou-se, avivou os olhos 
e extendendo a mão disse para o sobrinho: 

— Isso não são modos de tractar senhoras ! 

— Cecília não é senhora, ó minha filha! — 
redarguiu o capitão, amortalhado nos im- 
mensos laços de fita cor de sangue. 

— Vossa mercê ó um alarve; um marujo ! 

— disse o latinista, f ulminando-o — Cecília 
ha de ir para o convento. Prometti-lh'o eu. 
Saiba que ha razões no mundo para uma me- 
nina desejar a solidão . . . 

— Ahi vem o tio com os seus xaropes refi- 
nados ! — berrou Philippe, esticando a tira da 
camisa — Que tal achas este collete, irei João? 

— perguntou virando-se para o frade. 

E' impossivel descrever a cólera que se 
apoderou de Lourenço Telles, ouvindo estas 
amabalidades exacerbadas pela rústica inter- 
rupção. Tremendo exclamou: 

— Não componho xaropes, nem confeitos ; 
tomo o partido de minha neta contra a bru- 
talidade de um selvagem, como vossa mercê, 
nascido e creado no tombadilho do seu cha- 



154 Emproa âa Historia â* Portugal 



veco, d'onde a minha desgraça o trouxe a esta 
casa para vergonha d'ella ! . . . 

— Está bora, tio não nos enfademos. A ra- 
pariga quer ir para a gaiola como verdelhão... 
ó tola, e acha quem lh' o consinta?. .. Seja 
feita a vossa vontade. Não metto n'isso prego 
nem estopa. Com tanto que depois não ve- 
nham com choradeiras nem com lamentações 
Se eu não fosse um pobre homem, que levam 
pelo nariz, esses bichancros tinham o remé- 
dio que eu sei. Tudo isto são namoricos e car- 
pideiras da moda. Criam-n'as, á lei de nobre- 
za, ahi tem o sueco. Acabam por asneira, e 
principiam por asneira ! . . . Lavo as mãos. 
Aonde está Magdalena? 

Não é fácil prever aonde chegaria a ira do 
commendador com tal discurso, se a mãe de 
Oecilia não viesse interrompel-os. 

Abriu-se a porta da sala, e o conde de Avei- 
ras, dando a mão a D. Catharina de Athaide, 
chamou a irmã de Thereza para o seu lado. 

Diogo de Mendonça Corte Real e o padre 
Ventura entravam a esse tempo na sala por 
outra porta, e atraz d'elles o tabellião. E' inú- 
til explicar, que n'esta manhã se assignavam 
as escripturas de casamento de Jeronymo 
Guerreiro e do conde de Aveiras. 

Em quanto se liam as clausulas, o secreta- 
rio de estado, chamando Cecilia de parte, en- 
tregou -lhe um papel fechado, dizendo: 

— Sua magestade, lembrado das suas pro- 
messas, encarregou-me de lhe entregar isto. 
E' o dote de Thereza. A minha fada branca 
não quer abrir ? 

— Não !— respondeu ella fazendo-se pallida. 
-—O senhor Diogo de Mendonça, que está no 



Obras completa* de EeòeMo da Bilm 



155 



segredo, escolha a occasião como coisa sua. 
Eu já não tenho animo para mais. 

— Ha outros... que dizem o mesmo — accudiu 
o diplomata com um gesto particular. 

— E' que a nódoa d'esta dor dura muito 
tempo !— murmurou a educanda, limpando 
a furto uma lagrima— Não julga que fiz o 
que devia? 

—Acho que teve um rasgo de valor que não 
era de esperar dos seus annos, nem do excesso 
do seu amor . . . Console-se ; havemos do ver 
dias mais alegres. O tempo tudo gasta. 

— Menos a saudade . . . 

— Também essa, querida menina. A sua 
mocidade enviuvou do affecto e das illusões. 
N'este momento tem odio ao mundo, e dese- 
ja-se longe d'elle; deixe correr o tempo; nada 
de precipitações ; e verá que os vinte e cinco 
annos já não são os dezoito. Animo, muito 
animo, e esperemos em Deus ! Quem teve o 
seu valor para uma coisa, ha de mostrar a 
mesma constância em tudo. 

Ella não respondeu, mas o sorriso melan- 
cholico dos seus lábios dizia tanto ! 

Depois das assignaturas e dos parabéns do 
estylo, Lourenço Telles fez um signal ao seu 
escudeiro confidente, e Jasmin, em uniforme 
grande, approximou-se com uma caixinha de 
velludo. Era o presente de noivado do com- 
mendador. Aberto o cofre, achou-se uma rosa 
de esmeraldas e rubins de grande preço. O 
velho com galanteria affectuosa cravou-a ao 
peito de Thereza, beijando-a em ambas as fa- 
ces, ao passo que dizia com ar de riso para 
Jeronymo : 

—São privilégios de velho, meu amigo. Es- 



156 Empreza da Historia de Portugal 



pero que não haverá desafio por este furto ! 

O mancebo beijou-lhe a mão, e deixou cahir 
sobre ella duas lagrimas. 

— Agora eu ! — disse o secretario de estado, 
rompendo o sello de papel que trazia, e entro- 
gando-o á noiva. Ella sobresaltou-se á leitu- 
ra, e soltando um grito de jubilo, lançou-se 
nos braços de Cecilia, murmurando-lhe ao 
ouvido : 

— E' a tua vingança contra a fortuna ! Oh, 
querida irman, porque hei de sentir n'este dia 
as tuas lagrimas a arderem no meu coração ? 

A educanda poz o dedo na bocca, e surriu- 
se. D. João v efíecti vãmente pagava como rei 
as sua dividas. O papel era a nomeação de Je- 
ronymo Guerreiro para o posto de coronel dos 
terços de infanteria da capitania do Maranhão 
e Grão Pará, e os termos do despacho ainda 
lhe augmentavam o valor. 

O padre Ventura, aproveitando o instante 
em que todos se apinhavam em volta do no- 
vo coronel, pegou na mão de Cecilia, e levan- 
do-a para o vão da janella disse-lhe com bon- 
dade, olhando-a fitamente : 

— Sabe quem vi hontem? 

— Foi João ! — exclamou ella, subindo-lhe 
a cor ao rosto — Falou-lhe ? 

— Falei. Sabe por quem me perguntou ? 

— Adivinho, meu padre!— redarguiu a edu- 
canda, baixando a vista, e fazendo-se branca. 

— Então ? . . . Persiste na ideia de tomar o 
véu, e de sepultar-se para sempre no conven- 
to ? 

— Persisto ! Quem perdeu o que eu perdi . . . 
não escolhe ! 

— Ora pois ! Não se precipite, não se acon- 



Obras completas âe Bebello da SUxhi 



157 



selhe com a magoa, tendo ainda na alma as 
primeiras lagrimas, que ella custa. Dê tempo 
ao tempo. El-rei está resignado, e conforme 
com a sua sorte ; pediu-me que a animasse 
para fazer o mesmo. 

— Tão cedo, e já me esqueceu ?— accudiu 
ella, não podendo conter este grito de amor. 

— Vê, filha ! Ahi tem como a voz do mun- 
do é ainda forte no seu coração. El-rei não a 
esqueceu, e duvido que a esqueça!... mas 
obedece-lhe, e conhece que lhe deve um gran- 
de sacrifício . . . Porque não faz uma viagem 
longa, em vez de se enterrar na escuridão do 
claustro? O remédio para a saudade n'esse 
grau de dor ó a ausência . . . Pense, aquiete o 
espirito, e resolva. Está muito nova para di- 
zer no principio da sua vida, que chegou ao 
fim. 

— Mas vossa paternidade bem vê que não 
tenho já que desejar, nem que esperar ! 

— Não sabemos. O futuro só Deus. Veja ! 
O senhor D. João v, cedendo ás supplicas dos 
seus vassallos, e ás ultimas palavras de alguém 
que preza mais do que a si, manda partir o seu 
embaixador para Vienna d' Áustria. Pede a 
mão de archiduqueza. 

Fazendo esta revelação, o jesuita penetra- 
va com a vista escrutadora no intimo da al- 
ma de Cecilia. 

Quiz ver o effeíto, e apreciar por elle o ver- 
dadeiro estado do seu espirito. Apenas ouviu 
a noticia, a irmã de Thereza sentiu dentro de 
si uma revolução. O ciúme e o orgulho arran- 
caram -lhe lagrimas de sangue, d'essas que 
não accodem ás pálpebras. As faces fizeram- 
se logo cor de rosa. As pupillas faiscaram. A 



158 Empreza da Historia de Portugal 

voz, cortada na garganta, em vão procurou 
romper. Emfim, passados momentos, e mais 
senhora das paixões, retorquiu com certa 
ironia : 

— E' uma felicidade para o reino ! Sua ma- 
gestade fez bem, como rei, em não dar mais 
de oito dias de luto aos seus affectos !— E 
apontando para Catharina, que de longe a 
observava, accreseentou— Voltemos ! já se no- 
ta a nossa falta ! 

— Bem, bem ! — disse o visitador com o seu 
fino sorriso e esfregando as mãos— O mal te- 
rá remédio ! Ha de lembrar-lhe muito tempo, 
mas o amor, que decide da vida a acaba com- 
nosco, ainda não é esse. 

Approximando-se da mesa, então, virou-se 
para Jeronymo, e disse-lhe rindo : 

— Apezar do meu voto de pobreza, também 
hei de fazer um presente ao noivo : vai partir 
para a America brevemente ; não acha, Je- 
ronymo, que uma recommendação nossa em 
seu favor para os padres d'aquelles logares, 
não seria de todo inútil ? A companhia pôde 
alguma coisa alli. 

— Vossa paternidade sabe que o respeito e 
venero . . . 

—Sei. Porisso escrevi isto. Deixe pôr o 
sello ! 

Era uma ordem secreta aos prelados das 
missões para ajudarem em tudo o irmão Je- 
ronymo Guerreiro, passada em nome do ge- 
ral; o que equivalia a uma fortuna rápida, pe- 
las immensas relações do instituto n^quellas 
partes. 

Queimando o lacre lentamente, o padre 
Ventura tirou o annel do dedo, e com a cha- 



Obras completas de Eeòdlo da 8&wk 



159 



pa de ouro gravada n^lle, sellou a fita pen- 
dente, e o logar em que a uniu com o papel. 
Apenas acabava, Diogo de Mendonça, pegan- 
do-lhe no braço, levou-o para um sitio apar- 
tado, e encarando-o fixamente, disse-lhe sor- 
rindo : 

—Recebeu os alvarás que se expediram? 
— Hontem mesmo. E parto hoje. 
-Hoje? 

— D'aqui a duas horas. 
—Para Roma? 
— Porque diz ? 

— Porque a cabeça falta ao corpo. A sede 
da companhia é na séde do orbe catholico, e o 
geral não pôde estar por muito tempo ausen- 
te d'ella. Faz falta aos pés da cadeira de S. 
Pedro ! 

—O geral está em toda a parte ! 

— E' verdade !— disse o ministro sorrindo 
— Por signal que esteve em Portugal, e só 
duas horas antes de nos deixar, ó que adivi- 
nhei por esse sello o segredo da sua vinda. 
Quem me diria que o padre Ventura se cha- 
mava Miguel Angelo Tamburini? Mas eu com 
a minha experiência sou indesculpável. Ho- 
mens assim não se encontram abaixo dos pri- 
meiros logares, sobre tudo em um instituto 
que sabe o modo de os conhecer e aproveitar. 

—Já que descobriu a presença do geral da 
companhia, saiba que parte para não tornar. 
Queira dar-lhe as suas ordens para Roma ! 

—Pois despedimo-nos para sempre? 

— A menos que não o veja no Vaticano como 
embaixador de Portugal. Os meus negócios 
aqui estão concluidos; e asseguro-lhe que pon- 
do o pó no escaler, levo saudades. O geral da 



160 Em preza da Historia de Portugú 



companhia fez justiça ao merecimento, e as- 
signou com elle um tractado de alliança. Posso 
contar que mesmo longe me ficará um amigo 
para continuarmos a harmonia das duas po- 
tencias ? 

— Ah, padre Ventura! deixe-me dar-lhe o 
antigo nome da nossa amizade; indo-se o cor- 
po, como quer que fique a sombra? Já não 
tenho a quem recorrer nos casos delicados!. . . 

— Miguel Angelo Tamburini tem o coração 
do padre Ventura, e sabe todos os segredos 
d 7 elle. . . Adeus ! Um abraço como amigos, ou- 
tro como alliados. È natural que não nos en- 
contremos senão na eternidade ; mas os ho- 
mens como nós, senhor Diogo de Mendonça, 
se já são velhos para as amizades violentas, 
são experientes e firmes na estimação reci- 
proca. Eu vou trabalhar na reforma de uma 
potencia que julgo opulenta de mais; não 
adormeça, e trabalhe também em engrandecer 
um reino, ao qual Deus concedeu tudo, menos 
pilotos que o dirijam. . . A hora adeanta-se. 
Hoje, ao pôr do sol, Lisboa já será como um 
sonho de mais na minha vida atribulada . . . 

E apertando a mão do ministro, veiu collo- 
car-se de traz de Cecilia. N'este momento J e- 
ronymo dizia á educanda: 

— E tu, Cecilia, que eras a nossa fada, não 
me promettes ao menos um bom desejo? 

Ella meditava com sigo, baixando a vista. 
De repente ergueu a cabeça, e lançando os 
braços ao collo de Thereza, exclamou: 

— Jeronymo, o desejo que formei, ó viver 
ao lado de minha irman, se partem cedo para 
o Brasil. 

— Dentro de um mez ! 



Obras completas de Bebello da Silva 1 61 



— E eu que vou tomar o fresco até á linha, 
ainda que tu chores como uma fonte, Magda- 
lena ! — gritou Philippe com um gesto prote- 
ctor. 

— Philippe, e nosso tio?— disse a mãe de 
Cecilia, soluçando. 

— Ah ! o tio sábio?! Vem também, ó um be- 
liche mais. Olé, meu santinho— ajuntou ba- 
tendo uma grande palmada no hombro do ab~ 
bade Silva, que deu um pulo— Graças ao dia 
de festa, queé, perdôo-lhe aquelles trocos... 

— Quaes trocos?— accudiu o oráculo admira- 
do. 

— A meia dúzia de beliscões, que lhe pro- 
mettí na cella de frei João. São contas justas. 

Lourenço Telles não ouvia nada, absorto nas 
reflexões que subitamente o accommetteram. 
Por fim accordando com um suspiro, virou-se 
para Cecilia, e disse-lhe sorrindo : 

— Tu que estás uma viuvinha tão nova e 
galante queres ser como a esposa de um velho 
solteiro e triste, tendo piedade da sua edade e 
solidão ? . . . Se promettes consolar-te, achas 
em mim o amor de um segundo pae . . . apezar 
dos meus setenta annos, faço ainda esta via- 
gem^ que é a ultima. Aonde está o nosso co- 
ração está a pátria ! . . . 

E' escusado dizer que Cecilia prometteu. 
Os abraços e os beijos repetiram-se. Só o 
abbade não ria. erudito voltou-se para elle 
e^disse-lhe ! 

— Vamos, abbade, tente-se também. Venha 
ler o episodio do Adamastor deante do cabo 
da Boa Esperança ! . . . 

— E a senhora marqueza das Minas . . . que 
não passa uma tarde sem me consultar ? 

VIII — A MOCIDADE DE D. JOÃO V — V 11 



162 Empreza da Historia de Portugal 

— Não tenha cuidado. A senhora marqueza 
toma logo uma modista e chama um cabellei- 
reiro para o substituir ! Mas aonde está o pa- 
dre Ventura? 

— O padre Ventura— disse Diogo de Men- 
donça—não existe já. Quem aqui tivemos e 
partiu para bordo de volta para Roma foi 
Miguel Angelo Tamburini, geral da compa- 
nhia de Jesus. Dá-me licença que lhe vá dar 
o ultimo abraço no paquete ? 

Um mez e nove dias depois sahia uma nau 
para o Brasil, e á popa, lançando um adeus 
saudoso ao Tejo, os olhos de Frei João dos 
Remédios, que fora ao bota fóia, distingui- 
ram ató muito longe a ligara do commenda- 
dor encostado ao braço de Cecília no meio 
de toda a sua familia. 

D. João v n'esse momento achava-se no ei- 
rado do paço, que deitava para o rio, e tinha 
ao seu lado o secretario de estado. Em quanto 
o óculo poude alcançar a nau, el-rei não o tirou 
d'ella; quando se lhe tornou inútil, fechan- 
do-o, e sumindo duas lagrimas com as costas 
da mão, disse muito pallido a Diogo de Men- 
donça : 

— Expeça as cartas de crença ao conde de 
Villar Maior. Quero que parta dentro de tres 
dias para Vienna d' Áustria. 

Era também o fim do sonho. Aquelle navio á 
vela eram também as illusões da sua mocidade 
que fugiam para não voltarem ! 



FIM DO QUINTO E ULTIMO VOLUME DA 
«MOCIDADE DE D. JOÃO V» 



ÍNDICE 



Capitulo XXXVI— Revelações 5 

» XXXVII— Tantas vezes vae a bilha 

á fonte! 23 

» XXXVIII — Depois das causas os ef- 

feitos! 43 

» XXXIX — Depois de purgatório a 

redempçao ! 71 

» XL— Sou rei ! 98 

XLI— Conclusão 146 




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1907 

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Rebello da Silva, Luiz Augusto í 
A mocidade de D. João V. 



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